Na fábula preferida de Silicon Valley, os robots fazem o trabalho, o dinheiro quase deixa de contar e toda a gente vive de transferências públicas generosas.
Esse retrato do futuro começa a consolidar-se como programa político. Para a economista britânica Noreena Hertz, isto está longe de ser uma utopia: é antes uma revolução silenciosa sobre quem detém o poder, quem detém as máquinas - e quem acaba apenas remunerado para não atrapalhar.
Um mundo em que o trabalho se torna um lazer opcional
O ponto de partida é um cenário que se repete em encontros de topo. No Saudi‑US Investment Forum, no final de 2025, Elon Musk descreveu uma economia em que a inteligência artificial e robots humanoides asseguram quase toda a atividade produtiva. Os empregos humanos tornam-se “opcionais”, mais parecidos com passatempos, como jardinagem. O Estado distribuiria a cada cidadão um “rendimento universal elevado”. A pobreza, em teoria, desapareceria.
Outros líderes tecnológicos alinham em variações do mesmo enredo. Demis Hassabis, da Google DeepMind, fala em “abundância radical”, em que a IA traz ganhos extraordinários de produtividade e prosperidade. Mustafa Suleyman, agora na Microsoft AI, defende uma “provisão básica universal” que daria às pessoas um acesso alargado a sistemas de IA poderosos e a serviços digitais, quase como um direito. Sam Altman, da OpenAI, já sugeriu um fundo nacional de capital próprio, financiado por um imposto anual sobre grandes empresas e sobre a terra, que pagaria um dividendo a todos os adultos.
Para Hertz, estas propostas não são ajustes económicos neutros. São uma tentativa de redesenhar o capitalismo em termos definidos por uma minúscula elite rica em dados.
Nas palavras dos próprios arquitetos da IA, há uma admissão clara: estão a criar sistemas capazes de reduzir drasticamente o mercado de trabalho. A promessa é que a abundância automatizada permitirá apoiar as pessoas “de acordo com as suas necessidades”, e não com base nas horas cumpridas numa fábrica ou num escritório.
Dos meios de produção de Marx aos centros de dados de Bezos
Hertz pega na tensão que atravessa esta narrativa. À superfície, o discurso soa surpreendentemente próximo de uma ambição marxista: a tecnologia liberta a humanidade da penosidade e a sociedade reparte os frutos. Mas, sustenta ela, o modelo de fundo é outro.
A ideia de Marx assentava na propriedade coletiva dos “meios de produção” - terra, fábricas, ferramentas - por parte dos trabalhadores. No século XXI, isso traduz-se em centros de dados, plataformas de robótica, modelos de IA e infraestruturas críticas. Hertz alerta que esses ativos estão a concentrar-se a uma velocidade estonteante em poucas mãos: os Musks, as Metas, as Microsofts.
Neste sistema em formação, o público não passa a possuir as novas máquinas. Em vez disso, recebe transferências - dinheiro, serviços digitais ou acesso a ferramentas de IA - financiadas pelos lucros imensos gerados por tecnologia privada.
“Eles ficam com os servidores, os robots e os algoritmos. Nós ficamos com subsídios.” Para Hertz, é esta a forma crua do acordo.
A política de ser pago para ficar de lado
A linguagem do rendimento universal carrega um peso moral forte. Soa progressista, até libertadora. Hertz pede que se observe com mais atenção aquilo que pode estar a ser trocado.
- As pessoas perdem poder de negociação no mercado de trabalho à medida que as máquinas as substituem.
- As empresas tecnológicas ganham influência política ao tornarem-se fornecedoras centrais de segurança económica.
- Os governos arriscam-se a tornar-se gestores de riqueza corporativa, em vez de seus reguladores.
- Os cidadãos passam a ser dependentes como destinatários, em vez de coproprietários de ativos produtivos.
Hertz sublinha que pagamentos de apoio podem salvar vidas em momentos de crise. Na pandemia, regimes de layoff simplificado e cheques de emergência impediram dificuldades em massa. A preocupação é outra: se, no futuro, os sistemas económicos forem desenhados de forma permanente em torno de estipêndios pagos por quem possui as máquinas, a autonomia e a democracia podem degradar-se de forma lenta e discreta.
Porque é que a conversa da “abundância” na tecnologia soa tranquilizadora
A retórica da abundância é, por natureza, sedutora. Aproveita medos reais de que a IA varra empregos e fontes de rendimento. E sossega profissionais de classe média, prometendo que continuará a haver rendimento, mesmo que o emprego tradicional encolha.
Hertz chama ainda a atenção para um efeito mais subtil. Se as pessoas passarem a contar com um rendimento básico generoso, financiado pelo setor tecnológico, podem questionar menos as estruturas de propriedade e exigir menos regulação dura. A disputa desloca-se de “quem é dono das fábricas?” para “qual vai ser o valor do meu cheque este ano?”.
Esse desvio é relevante porque quem controla as máquinas também molda os algoritmos que gerem notícias, publicidade, debate público e até a forma como a assistência social é distribuída. O poder económico e o poder informacional passam a fundir-se de maneiras novas.
Modelos diferentes para uma sociedade pós‑trabalho
Para quem tenta ordenar este debate, ajuda distinguir três grandes caminhos que economistas e decisores políticos discutem:
| Modelo | Quem detém a produção? | Como as pessoas vivem |
|---|---|---|
| Capitalismo de estipêndio tecnológico | Grandes plataformas privadas e investidores | Os cidadãos recebem dinheiro ou benefícios digitais, com pouca margem de decisão |
| Propriedade pública/coletiva | Estados, cooperativas, fundos públicos | Dividendos e serviços financiados por IA e infraestruturas detidas publicamente |
| Modelo misto | Privado e público, regulado | Combinação de empregos, salário social e participações partilhadas em ativos essenciais |
Hertz tende a empurrar a discussão para a segunda e a terceira opções. Não está tão presa ao desenho exato de um esquema de rendimento básico; preocupa-se sobretudo com quem controla os motores que geram a riqueza.
Fiscalidade, dados e o novo contrato social
A proposta de Altman de uma taxa anual de 2,5% sobre grandes empresas e sobre a terra ilustra um possível modelo de financiamento. Ainda assim, Hertz nota que o imposto, por si só, pode não reequilibrar o poder se a propriedade continuar altamente concentrada. Um monopólio pouco tributado continua a ser um monopólio.
Ela acrescenta uma dimensão que, segundo diz, é muitas vezes varrida para debaixo do tapete em discursos otimistas sobre IA: os dados. Uma parte grande do valor criado por sistemas de IA provém de dados produzidos por utilizadores comuns - publicações, deslocações, cliques, registos médicos e hábitos de compra. Em certo sentido, o público já está a contribuir, de forma contínua, para o material de treino que alimenta as novas máquinas.
Quando os cidadãos geram a matéria‑prima, argumenta Hertz, tratá‑los apenas como beneficiários de assistência social, e não como coproprietários, descreve mal a relação.
Daqui seguem debates sobre trusts de dados, fundos soberanos alimentados por receitas digitais e enquadramentos legais que tratem os dados como um recurso coletivo, em vez de um input corporativo gratuito.
O que “meios de produção” significa, de facto, em 2026
Para muitos, “meios de produção” parece um slogan antigo de panfletos do século XIX. Hertz procura traduzi-lo para termos diretos e atuais. Numa economia dominada pela IA, isso inclui:
- Infraestruturas gigantes de cloud e de capacidade de computação
- Modelos proprietários de IA e os chips onde correm
- Plataformas de robótica e redes automatizadas de logística
- Controlo de fluxos de dados essenciais e de ecossistemas de aplicações
O controlo destes ativos determina quem define preços, quem consegue lançar novos negócios, quem pode negociar condições de trabalho dignas - e quem apenas entra numa plataforma como utilizador final.
Futuros possíveis: do feudalismo digital à prosperidade partilhada
Hertz costuma desenhar cenários em contraste. Num deles, imagina uma espécie de “feudalismo digital”. Um punhado de grupos tecnológicos globais opera a infraestrutura central. Estados, enfraquecidos por anos de pressão orçamental, apoiam-se nessas empresas para garantir empregos, serviços de cloud e até sistemas de identidade. Em troca, as empresas enfrentam regras relativamente suaves e financiam um estipêndio universal que mantém o consumo básico a funcionar.
As pessoas não passam fome. Mas têm pouca influência em decisões estratégicas sobre automação, impacto ambiental ou utilização de dados. O seu papel aproxima-se do de inquilinos pagos para consumir e não perturbar.
Num cenário diferente, governos, sindicatos e sociedade civil pressionam para assegurar participações públicas em grandes projetos de IA e robótica. Fundos nacionais ou regionais detêm ações em plataformas-chave. Os cidadãos recebem um “dividendo social” não como caridade, mas como retorno de ativos detidos coletivamente. Cooperativas locais operam partes da cadeia de automação em setores como cuidados, transportes e energia.
Nenhum destes futuros está mecanicamente garantido. A tese central de Hertz é que as escolhas políticas da próxima década - sobre impostos, regulação, propriedade intelectual e investimento público - vão inclinar a realidade para um caminho ou para o outro.
Termos-chave e aquilo que realmente implicam
Várias palavras da moda neste debate escondem compromissos difíceis:
- Rendimento básico incondicional (RBI): um pagamento regular em dinheiro a todos os adultos, independentemente do emprego. Pode reduzir burocracia e oferecer segurança, mas se for demasiado baixo ou ficar dependente de financiamento corporativo, pode estabilizar um sistema muito desigual em vez de o transformar.
- Abundância radical: a ideia de que a tecnologia torna bens e serviços tão baratos que a escassez quase desaparece. Hertz lembra que a abundância em teoria não garante distribuição justa na prática, sobretudo quando o acesso é mediado por plataformas pagas.
- Provisão básica universal: em vez de dinheiro, as pessoas têm acesso garantido a serviços como assistentes de IA, saúde ou transportes. Isto levanta questões sobre quem controla esses serviços e que dados recolhem.
Como isto pode moldar a vida do dia a dia
Para um trabalhador típico, as preocupações de Hertz descem a detalhes muito concretos. Imagine um funcionário de armazém cujo posto é automatizado gradualmente. Num modelo de estipêndio tecnológico, poderá receber um pagamento fixo financiado por impostos cobrados à mesma empresa que o substituiu por robots. Ganha mais tempo livre, mas quase não tem influência sobre as condições de trabalho de quem fica, nem sobre a pegada ambiental do armazém.
Num modelo em que os cidadãos detêm uma participação na infraestrutura de automação, esse mesmo trabalhador poderia obter rendimento através de um fundo público alimentado por lucros gerados por robots e, ao mesmo tempo, votar - diretamente ou através de órgãos eleitos - em decisões de investimento, programas locais de emprego e iniciativas de requalificação.
O alerta de Hertz tem menos a ver com robots a roubarem empregos amanhã e mais com quem escreve o contrato social que vem a seguir. Se esse contrato for redigido em salas de administração e em keynotes tecnológicos, defende ela, a sociedade pode acordar num futuro em que as máquinas pertencem a poucos e a maioria é reduzida a viver de subsídios por simplesmente se manter fora do caminho da maquinaria.
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