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Como aumentei o salário em compliance sem mudar o título do cargo

Homem a analisar gráficos de crescimento numa folha e num computador num escritório luminoso.

A primeira vez que a minha chefia me disse: “Vais ter um aumento”, o meu reflexo foi olhar por cima do ombro, quase à espera de ver ali atrás algum colega acabado de ser promovido. Eu era coordenador(a) de compliance, enterrado(a) em políticas e procedimentos - longe de ser o tipo de função que associamos a “crescimento rápido de carreira”. Não apareceu um novo cargo. Não passei a liderar uma equipa. Era a mesma caixa de entrada cheia de dúvidas regulatórias… só que, todos os meses, entrava mais dinheiro na minha conta.

Ao início, aquilo pareceu-me quase injusto. Não era suposto subirmos degraus, perseguirmos “Senior” e “Head of”, acumularmos promoções como troféus?

Ainda assim, o meu salário continuou a aumentar, ano após ano, enquanto o meu título mal se mexia.

Houve qualquer coisa nesse crescimento discreto - quase invisível - que mudou a forma como eu via o trabalho.

Sobretudo a forma como eu via a ambição.

Como o meu salário em compliance cresceu enquanto o meu título ficou na mesma

No universo do compliance, raramente vemos o nosso nome num painel brilhante. Não fechamos grandes vendas; impedimos que coisas más aconteçam. E isso não dá grande conteúdo para redes sociais.

Durante muito tempo, achei que a única forma de ganhar mais era entrar em gestão ou mudar de empresa de dois em dois anos. Em vez disso, fiquei. Mantive-me como coordenador(a). O que mudou foi a maneira como eu trabalhava dentro desse mesmo papel.

O mais estranho? Ninguém me deu um guião. Acabei por chegar lá ao reparar num padrão simples: sempre que eu resolvia um problema recorrente que irritava toda a gente, de repente a minha chefia encontrava margem orçamental para mim.

Num dos anos, a nossa equipa falhava prazos regulatórios com frequência. Não era nada escandaloso, mas o suficiente para deixar toda a gente em stress no fim de cada trimestre. Eu era quem ia apontando datas num ficheiro de Excel improvisado que vivia no meu computador.

Numa sexta-feira à noite, depois de mais uma conversa em pânico do tipo “Já submetemos isto?”, eu criei um registo partilhado e automatizei lembretes por e-mail com ferramentas que já existiam na empresa. Nada sofisticado. Só trabalho aborrecido e bem estruturado.

Três meses depois, os atrasos caíram para zero. Na avaliação de desempenho, a minha chefia abriu um slide com a frase: “Redução de submissões fora do prazo: 100%.” E depois veio a frase decisiva: “Gostávamos de ajustar a tua remuneração.” Mesmo título. Um novo valor.

Foi aí que eu percebi, finalmente, uma coisa sobre aumentos - pelo menos em trabalhos de escritório como o meu. Os títulos são rótulos. O orçamento segue o risco, o tempo e as dores de cabeça.

Quando se retira, de forma silenciosa, uma dor crónica da lista da chefia, não é preciso uma promoção para passar a ser valioso(a). Passa-se a ser a pessoa que evita que o navio meta água.

Em compliance, evitar uma multa ou um desastre numa auditoria é, num dia bom, praticamente invisível. Ninguém festeja a ausência de um problema. Mas as pessoas das finanças reparam. E, quando reparam, nem sempre perguntam: “Dá para promover esta pessoa?”

Às vezes, perguntam apenas: “Quanto é que precisamos de pagar para não a perder?”

O método que usei para ganhar mais sem mudar o título do cargo

O meu “método” - se é que lhe posso chamar isso - começou com uma pergunta direta que fiz a mim próprio(a): “O que é que não deixa a minha chefia dormir?” Não é o que aparece no organograma. É aquilo que dispara aqueles e-mails tardios com o assunto “Uma pergunta rápida…”.

Por isso, observei. Ouvi. Quando um tema voltava a aparecer em reuniões, em canais de Slack, nas conversas de corredor, eu tomava nota. Retenção de dados. Due diligence de fornecedores. Taxas de conclusão de formações. Todas aquelas pequenas folgas do compliance que podem magoar a organização se um dia falharem.

Depois escolhia uma área pequena e concreta e decidia: vou assumir isto de tal forma que mais ninguém precise de pensar no assunto.

É aqui que muita gente fica bloqueada. Esperamos por autorização. Esperamos pelo “projeto bonito”, com reunião de kickoff e uma apresentação com slides. Na prática, muitos dos problemas que travam os aumentos vivem na gaveta do “isto não é oficialmente de ninguém”.

Então comecei a levantar a mão de forma simples e sem drama. “Tenho andado a acompanhar os prazos das formações; posso consolidar isto para a equipa.” Ou: “Reparei que recebemos as mesmas perguntas sobre fornecedores todos os meses; posso fazer uma checklist simples.”

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Eu também não. Houve semanas em que eu só queria sobreviver à caixa de entrada. Mas sempre que tinha um bocadinho de energia, investia-o em tornar um problema repetido um pouco menor. Ao longo dos meses, isso acumulou.

“Ainda me lembro de um(a) gestor(a) sénior me dizer, num café: ‘Sabes porque é que voltámos a aumentar o teu salário? Tu não és de fazer barulho, mas quando uma coisa cai na tua secretária, deixa de ser um problema nosso.’”

Essa frase ficou comigo. Não tinha a ver com carisma. Tinha a ver com fiabilidade e sentido de responsabilidade.

Este foi o guião tosco e nada glamoroso que acabei por seguir:

  • Identifica uma dor recorrente na tua área que tenha consequências reais se for ignorada.
  • Mapeia, discretamente, como funciona hoje: quem mexe no quê, onde falha, e quanto custa em tempo ou risco.
  • Propõe uma correção pequena e realista, que não exija grande orçamento nem uma plataforma nova.
  • Regista o antes/depois em linguagem simples, que a tua chefia consiga repetir à chefia dela.
  • Leva o tema às avaliações e às conversas salariais com números, não com “sensações”.

O que mais me surpreendeu foi o quão poucas pessoas documentavam seja o que for. Quem o fazia - mesmo sem títulos como “lead” ou “manager” - começava a ver a remuneração mexer.

Repensar a ambição quando não queres o grande título

Há um alívio silencioso em admitir que, na verdade, não se quer gerir uma equipa grande nem passar o dia em reuniões consecutivas. Durante algum tempo, senti-me culpado(a) por isso. Como se não perseguir uma promoção significasse ser preguiçoso(a) ou sem ambição.

Mas o meu recibo de vencimento contava outra história. A empresa estava disposta a pagar mais por fiabilidade profunda do que por liderança superficial. Só que nem sempre tinha um título “arrumadinho” para isso.

Ambição não se move apenas na vertical. Pode ir para dentro. Para o lado. Para a mestria. Para seres a pessoa em quem confiam quando as coisas podem correr muito mal, muito depressa.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Assume problemas recorrentes e pouco apelativos Foca-te em tarefas que ninguém quer mas que toda a gente precisa, como acompanhar prazos ou uniformizar verificações Transforma-te num(a) colaborador(a) “indispensável” sem precisares de um novo título
Documenta o impacto com números simples Acompanha o antes/depois: menos atrasos, menos retrabalho, tempo poupado, menor risco Dá-te argumentos claros para avaliações e conversas salariais
Redefine a ambição como mestria Escolhe profundidade em vez de hierarquia; torna-te a pessoa de referência em vez de o(a) gestor(a) Ajuda-te a aumentar rendimentos mantendo uma função que combina com a tua personalidade

FAQ:

  • É mesmo possível ter aumentos sem promoção? Sim. Muitas empresas ajustam a remuneração dentro do mesmo título quando alguém reduz risco de forma consistente, poupa tempo ou entrega trabalho crítico. É menos visível do que uma promoção, mas acontece mais do que as pessoas imaginam.
  • Como é que peço um aumento se o meu título não mudou? Leva provas. Mostra uma ou duas áreas concretas em que as tuas responsabilidades ou o teu impacto cresceram, com exemplos específicos, datas e números simples. Enquadra a conversa no valor gerado, não apenas no esforço.
  • Que tipo de problemas devo “assumir” numa função de compliance? Procura tarefas repetidas que influenciem auditorias, prazos regulatórios, conclusão de formações, risco de fornecedores ou qualidade da documentação. Tudo o que possa custar dinheiro, reputação ou tempo se falhar.
  • Não corro o risco de ficar preso(a) a trabalho aborrecido se me voluntariar? Só se disseres que sim a tudo. Escolhe algumas áreas estratégicas que importem para o negócio e depois diz não - ou “não agora” - a tarefas laterais que não aumentem a tua influência nem as tuas competências.
  • Esta abordagem funciona apenas em compliance? Não. A mesma lógica aplica-se em finanças, RH, operações, apoio ao cliente e tecnologia. Onde existirem dores recorrentes, existe espaço para aumentar rendimentos sem mudar o título do cargo.

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