Nova proposta dos EUA para a Marinha Uruguaia
No começo de 2025, a Zona Militar informou que o Governo dos EUA voltou a colocar em cima da mesa, para o Uruguai, a transferência de um navio de patrulha oceânica de médio alcance da classe Reliance destinado à Marinha Uruguaia.
Esta abordagem de Washington não é inédita. Entre 2021 e 2022, no mandato do presidente Luis Lacalle Pou e com Javier García à frente do Ministério da Defesa, o tema já tinha sido abordado de forma extra-oficial. A razão era evidente: os EUA viam com preocupação a presença da China State Shipbuilding Corporation (CSSC) - um grande estaleiro estatal chinês - entre os concorrentes do concurso internacional para construir dois navios de patrulha oceânica, concurso esse em que a CSSC acabou por alcançar a pontuação mais elevada.
Em dezembro de 2022, depois de o Congresso autorizar a transferência no âmbito do programa de Artigos de Defesa Excedentes (EDA), a proposta norte-americana foi formalizada através de uma nota diplomática.
Já em 2023, na sequência da decisão do Governo uruguaio de anular o concurso internacional que atribuía a construção à CSSC e perante a inexistência de uma alternativa definida de OPV (Navio de Patrulha Oceânica), os EUA voltaram a insistir na oferta de um navio de patrulha da classe Reliance.
Contexto político e diplomático com a China
O enquadramento actual desta oferta tem pontos de contacto relevantes com os momentos anteriores. Desde logo, a incerteza em torno da continuidade da construção dos dois OPVs no estaleiro de Cardama - caso que, neste momento, está sujeito a avaliação judicial e política - aumenta a possibilidade de a Marinha uruguaia voltar a ter de abandonar o programa de OPV, tal como já aconteceu. Nesse cenário, a proposta dos EUA surge como um movimento oportuno e com peso estratégico.
Em segundo lugar, convém sublinhar que as actuais autoridades têm procurado retomar a proximidade diplomática com a República Popular da China, algo que não terá passado despercebido em Washington. Recorde-se a visita realizada em 2025 pela Ministra da Defesa, Sandra Lazo, ao estaleiro chinês que “ganhou” o concurso entretanto anulado - referido acima -, ao mesmo tempo que foi alvo de críticas por não ter visitado o estaleiro de Cardama durante a sua deslocação a Espanha.
Também esta semana, por coincidência ou não, um navio da Marinha uruguaia chegou, pela primeira vez, a um porto uruguaio em visita oficial. Apesar de se tratar de um navio-hospital - e de o seu simbolismo ser menor do que o de uma unidade de combate -, o contexto e a presença destacada de autoridades uruguaias na agenda da visita conferem-lhe um valor político e diplomático significativo.
De forma paralela, o Governo prepara uma visita oficial à China para o início do próximo mês. A comitiva, de grande dimensão, será liderada pelo presidente Yamandú Orsi e integrará igualmente vários ministros, dirigentes de instituições públicas, líderes empresariais e representantes sindicais. A avaliação é de que poderá tratar-se da maior delegação a acompanhar um presidente numa viagem ao estrangeiro. Ainda assim, há um elemento distintivo face a deslocações anteriores: o contexto internacional - e, em particular, o do continente - mostra-se sensível à política externa agressiva do presidente Trump, sobretudo no caso de governos de esquerda.
Navios da classe Reliance: dimensões, origem e comparação
Os navios da classe Reliance da Guarda Costeira estão entre os mais pequenos navios de patrulha oceânica, com 62 metros de comprimento e 1.200 toneladas de deslocamento. Ficam abaixo das classes de maior porte: a classe Hamilton (115 m / 3.250 t) e a classe Famous (82 m / 1.800 t). Foram, além disso, os primeiros navios deste tipo a serem construídos, entre 1964 e 1969.
Programa EDA, custos e limitações operacionais
Entre 1986 e 1996, as unidades da classe Reliance passaram por um ciclo de manutenção de meia-vida, destinado a modernizar equipamentos e maquinaria. O programa EDA, por sua vez, abrange material considerado excedentário, isto é, que foi desactivado. Neste caso, trata-se de navios muito antigos; mesmo contando com a modernização de meia-vida, passaram já mais de 30 anos. Isso implica, no mínimo, um esforço de manutenção e de actualização para assegurar a continuidade das operações durante mais alguns anos.
Além disso, o EDA prevê que as embarcações sejam transferidas sem custos, mas estabelece que a entrega seja feita em boas condições operacionais - o que, neste caso, traduz-se num encargo a suportar pelo Uruguai. Em 2022, as três embarcações de patrulha costeira da classe Marine Protector, transferidas pelo mesmo programa, tiveram um custo de US$ 5 milhões (as três). Aqui, a estimativa poderá situar-se em cerca de US$ 10 milhões. Assim, a oferta não constitui uma resposta que cubra as necessidades actuais da Marinha relativamente aos OPVs planeados; se o objectivo for aproximar-se dessas exigências, a classe Hamilton aparenta ser mais adequada pelas suas características.
Risco do projecto Cardama e leitura estratégica da proposta
Se o projecto de construção no estaleiro de Cardama falhar, a Marinha poderá enfrentar um cenário particularmente crítico: vários anos sem as embarcações necessárias para assegurar a soberania sobre um vasto espaço marítimo - superior, inclusivamente, ao seu território continental. Neste enquadramento, a transferência de navios de patrulha da classe Reliance ganharia um significado distinto.
Ainda assim, no ambiente político actual, a proposta dos Estados Unidos de doação de material excedentário parece, sobretudo, um movimento estratégico para ponderação do Governo uruguaio, mais do que o resultado de uma avaliação estritamente técnica por parte da Marinha.
Também poderá interessar-lhe: “O Paraguai é nosso aliado estratégico na região”, afirmou o embaixador de Taiwan no Paraguai, José Chih-Cheng Han, em entrevista
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário