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O traço de personalidade que envenena empresas ao roubar o mérito e quebrar a confiança

Jovem mulher e homem de negócios apertam as mãos num escritório moderno, enquanto colega observa surpreso.

À primeira vista, está tudo impecável: o projecto avança, os números batem certo e a equipa trabalha até tarde. Só que, nos bastidores, pode estar a ganhar força uma dinâmica que corrói a motivação, mina a confiança e empurra pessoas para a demissão - por causa de um único traço de personalidade, muitas vezes desvalorizado.

Quando outras pessoas te roubam o mérito

Imaginemos um escritório como tantos outros. Dois colegas passam meses a construir uma campanha, um novo produto ou uma estratégia interna. Chega o dia da apresentação. À frente, aparece apenas um deles - e vende as ideias como se tivesse sido o único a “apagar a luz” no escritório, noite após noite.

Foi exactamente isto que aconteceu com uma colaboradora numa agência de marketing digital. Investiu horas intermináveis em análises, conceitos e diapositivos. Em reunião atrás de reunião, o parceiro de projecto tomava a palavra e mostrava o trabalho dela como se fosse dele. Para o chefe, os louros chegavam intactos; para ela, ficava apenas aquele desconforto persistente no estômago.

"Quem, de forma continuada, se apropria do sucesso dos outros destrói a confiança mais depressa do que qualquer prazo falhado."

Ao início, ela ainda acreditava que a situação se endireitaria: “um dia ele vai referir-me”, “um dia vai dizer que fui eu quem lançou as bases”. Não aconteceu. O que veio a seguir foram felicitações da gestão - dirigidas exclusivamente a ele. O resultado foi previsível: frustração, noites mal dormidas, conversas longas com amigos e família. No fim, surgiu o passo que muita gente reconhece, mas de que poucos falam abertamente: a demissão, apesar de o trabalho, em si, ser algo de que ela gostava.

Porque este traço de carácter é tão perigoso

A especialista de Harvard Heidi K. Gardner aponta este comportamento como um dos maiores bloqueios à colaboração verdadeira. O termo técnico pode ser "apropriação do reconhecimento". No dia-a-dia, a sensação é bem mais crua: alguém rouba-te publicamente o mérito.

Na leitura de Gardner, por trás deste padrão costumam estar dois factores:

  • Falta de fiabilidade: quem se atribui resultados alheios mostra que promessas, justiça e lealdade têm pouco peso.
  • Falta de competência: não é raro que, por trás de uma performance confiante, exista um conhecimento técnico surpreendentemente superficial.

É precisamente isto que torna estas pessoas tão nocivas para as organizações: para cima, parecem fortes, seguras e assertivas - mas, por dentro, vão envenenando o clima. A confiança entre colegas desfaz-se, a cooperação quebra, e o conhecimento circula menos, porque ninguém quer voltar a ser usado.

"Quebradores de confiança" no escritório: sinais de alerta no dia-a-dia

Como perceber que se está perante um destes "quebradores de confiança"? Gardner e outros psicólogos do trabalho descrevem padrões recorrentes:

  • Em reuniões, fala sempre a mesma pessoa em nome de toda a equipa do projecto.
  • Em apresentações, surgem apenas um ou dois nomes - apesar de terem participado muitas pessoas.
  • Os êxitos são sublinhados com entusiasmo, mas as fontes e os contributos quase nunca são mencionados.
  • Quando aparece crítica, de repente passa a ser “nós”; a responsabilidade dilui-se por todos.
  • As conversas de feedback com chefias acontecem sem a presença do resto da equipa.

Muitas destas pessoas nem se apercebem do quanto os outros contribuem para o seu “sucesso”. E menos ainda do nível de pressão que isso gera. Com o tempo, instala-se um ambiente em que crescem a desconfiança e o cinismo - o oposto de qualquer cultura de equipa forte.

Quando a incompetência aparece mascarada de autoconfiança

Há ainda outro ponto: muitas vezes, quem faz mais barulho é precisamente quem sabe menos. A psicologia tem um nome para isto: o efeito Dunning-Kruger. Pessoas com pouca competência numa área tendem a sobrestimar-se de forma acentuada - em parte porque lhes falta o conhecimento necessário para reconhecer a própria incompetência.

"Quem sabe pouco tem mais dificuldade em avaliar as próprias falhas - e sente-se mais depressa como um especialista."

Os psicólogos observam este padrão repetidamente no quotidiano profissional:

  • Colegas que dão “dicas de especialista” sem serem solicitados, apesar de dominarem pouco o tema.
  • Líderes que emitem juízos duros sem compreenderem os detalhes de um projecto.
  • Colaboradores que respondem com grande segurança - mas, tecnicamente, de forma errada.

Por trás desta postura, existe muitas vezes um défice de metacognição - isto é, a capacidade de observar os próprios pensamentos e competências com distanciamento. Quem não se questiona de forma crítica dificilmente nota o quão limitado é o seu domínio. O resultado é sempre semelhante: muita exposição, pouca substância.

Sou eu parte do problema?

É uma pergunta desconfortável, mas essencial: em quantas situações apresentamos trabalho de equipa como se fosse exclusivamente nosso - às vezes por stress, outras vezes por simples distração?

Um exemplo concreto: numa conversa a sós, o chefe elogia a sua apresentação. A resposta imediata é “Obrigado, foi um prazer” - ou faz questão de referir que dois colegas trataram dos números, trouxeram ideias e melhoraram os diapositivos?

Uma frase curta como “Sem a Lisa e o Mehmet, nunca teria conseguido fazê-lo assim” muda tudo. Mostra que ali está alguém que não se apropria sozinho do mérito. E é precisamente essa atitude que reforça a confiança, mesmo que mais ninguém esteja a ouvir.

Como os trabalhadores se podem proteger no dia-a-dia

Quem passa, repetidamente, pela experiência de ver outros a enfeitar-se com o seu trabalho pode criar alguns mecanismos de protecção:

  • Tornar o contributo visível: enviar resultados intermédios por e-mail para a equipa, com todas as pessoas envolvidas em CC. Assim, fica claro quem acrescentou o quê.
  • Clarificar papéis: antes de arrancar, registar por escrito quem é responsável por cada parte. Ajuda mais tarde na atribuição de mérito e na avaliação.
  • Intervir nas reuniões: apresentar de forma breve os próprios contributos, em vez de deixar que uma única pessoa faça toda a exposição.
  • Procurar apoio: falar com colegas de confiança ou com chefias quando o padrão se repete.
  • Definir limites: se alguém apresenta ideias alheias como suas com frequência, abordar o tema de forma factual, mas inequívoca.

O que as empresas podem fazer, de forma concreta

O traço “o mérito é todo meu” não é apenas um problema de personalidade - é um factor de negócio com impacto real. Quem quer uma cultura saudável tem de o enfrentar de forma directa.

Problema Medida possível
O desempenho de alguns indivíduos é sobrevalorizado Introduzir objectivos de equipa, tornar o sucesso colectivo mais visível
Pouca transparência sobre contributos Registos de projecto, documentos partilhados, responsabilidades bem definidas
A confiança dentro da equipa diminui Rotinas regulares de feedback, moderação por lideranças neutras
Falta de reconhecimento para quem contribui em silêncio Formar líderes, incentivar perguntas específicas sobre o contributo de todos

Aqui, as lideranças têm um papel decisivo. Não devem ouvir apenas a voz mais alta; devem perguntar de forma intencional: quem fez a análise? quem testou? quem refinou o conceito? Assim, quem “faz de conta” sem substância é identificado mais depressa.

Porque partilhar reconhecimento não é um "soft skill"

À primeira vista, dividir o reconhecimento pode parecer algo “fofo”, quase apenas simpático. Na prática, há aí um factor competitivo duro: equipas onde o mérito é atribuído de forma justa trabalham com mais abertura, mais rapidez e mais criatividade.

Quando alguém sabe que o seu trabalho é visto, traz ideias, arrisca experiências e partilha conhecimento. Quando teme que outros saiam pela porta com os louros, retrai-se. Em sectores dinâmicos, isso pode ser a diferença entre um líder inovador e um seguidor lento.

No fim, o traço tóxico que contamina as empresas é surpreendentemente simples de descrever: pessoas que acumulam reconhecimento como se fosse um tesouro. Quanto mais cedo as organizações detectarem e enfrentarem estes padrões, mais depressa preservam o recurso mais valioso - a confiança de quem ali investe, todos os dias, tempo e energia.

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