O oceano aberto pode parecer sereno visto de cima, mas, debaixo da superfície, a vida desenrola-se com margens mínimas.
Alguns dos predadores mais potentes do mar não dependem apenas da força: sobrevivem graças a um equilíbrio constante de energia, em que quase não há espaço para falhas.
Uma investigação recente indica agora que essas margens estão a encolher - e que a explicação está, em parte, no funcionamento do próprio corpo.
Em espécies como o atum e certos tubarões, manter o corpo mais quente do que a água envolvente sempre foi uma vantagem. Essa característica dá-lhes velocidade, resistência e precisão que a maioria dos peixes não consegue igualar.
No entanto, com o aumento da temperatura do oceano, esse mesmo “superpoder” passa a ter um custo crescente - um custo que estes animais podem não conseguir contornar.
Corpos quentes em condições mais quentes
Ao contrário da maioria dos peixes, que acompanham a temperatura da água à sua volta, as espécies mesotérmicas conseguem produzir e reter calor no interior do corpo.
Essa temperatura interna mais elevada melhora o desempenho muscular e ajuda-as a percorrer grandes distâncias por vastas áreas oceânicas.
Só que esta capacidade tem um preço: estes peixes já vivem com necessidades energéticas muito superiores às de espécies típicas de “sangue frio”.
Uma diferença que, em tempos, era sustentável torna-se mais preocupante à medida que o ambiente muda.
O calor aumenta a necessidade de alimento
Para perceber quanta energia estes animais gastam, os investigadores acompanharam peixes em natação livre com pequenos sensores, capazes de registar tanto o calor corporal como a temperatura do oceano.
Desta forma, foi possível observar com mais clareza - em condições reais - como a produção e a perda de calor se influenciam mutuamente.
“Os resultados foram realmente bastante impressionantes – depois de termos tido em conta o tamanho do corpo e a temperatura, verificámos que os peixes mesotérmicos usam cerca de 3.8 vezes mais energia do que peixes ‘ectotérmicos’, ou de ‘sangue frio’, de tamanho semelhante, disse o Dr. Nicholas Payne”, primeiro autor do estudo, do Trinity College Dublin.
“Além disso, um aumento de 10°C (18°F) na temperatura corporal mais do que duplica a taxa metabólica de rotina de um peixe, o que, em termos práticos, significa que os predadores de corpo quente têm de consumir muito mais alimento para sustentar o seu estilo de vida.”
Mesmo uma subida moderada da temperatura obriga estes predadores a comer muito mais - e isso torna-se um problema sério quando o alimento nem sempre está disponível.
Corpos maiores retêm mais calor
À medida que estes peixes crescem, o quadro complica-se de formas que nem sempre são evidentes. Um corpo maior produz mais calor, mas perde-o com menos eficiência, criando um desequilíbrio que se agrava com o tamanho.
“Mas essa maior exigência energética é apenas parte da história, porque à medida que os peixes ficam maiores os seus corpos geram calor mais depressa do que o conseguem perder,” explicou o Dr. Payne.
“Isto cria um desfasamento impulsionado pela geometria e pela física básicas, porque corpos maiores retêm calor de forma mais eficaz e, nos mesotérmicos, taxas metabólicas elevadas amplificam este efeito.”
Na prática, isto significa que os grandes predadores acumulam um risco crescente de sobreaquecimento, sobretudo em águas mais quentes, onde o calor tem mais dificuldade em dissipar-se.
Limites que moldam o movimento
Com base nestes dados, os cientistas estimaram limites de temperatura a partir dos quais estes peixes começam a ter dificuldade em manter condições corporais estáveis.
Quando esses limites são ultrapassados, os animais são forçados a alterar o comportamento - e essas mudanças podem reduzir a eficácia enquanto predadores.
“Com base nos dados, conseguimos criar ‘limiares teóricos de equilíbrio térmico’, que são as temperaturas da água acima das quais peixes grandes não conseguem libertar calor com rapidez suficiente para manter temperaturas corporais estáveis sem mudarem o seu comportamento ou fisiologia,” assinalou o Professor Andrew Jackson.
“Por exemplo, um tubarão de corpo quente com 1 tonelada (cerca de 2,205 libras) pode ter dificuldade em manter o equilíbrio térmico em águas acima de cerca de 17°C (62.6°F).”
Ao atingir-se esse ponto, as opções deixam de ser flexíveis e passam a ser limitadas.
“Acima desses limiares, os peixes têm de abrandar, alterar o fluxo sanguíneo ou mergulhar para profundidades mais frias para evitarem um aquecimento perigoso, mas isso também tem um custo; pode tornar mais difícil encontrar alimento, ou capturá-lo, por exemplo – sobretudo se a sua principal arma for a velocidade e a potência,” acrescentou o Professor Jackson.
As opções de sobrevivência estão a diminuir
Estas limitações fisiológicas ajudam a compreender por que razão os grandes predadores oceânicos tendem a permanecer em regiões mais frias ou em águas profundas, muitas vezes mudando de localização com as estações.
À medida que as temperaturas do oceano continuam a subir, espera-se que essas áreas adequadas se tornem ainda mais pequenas.
“Esta investigação mostra que ser um predador de alto desempenho no oceano tem um custo maior do que apreciávamos anteriormente,” afirmou o Dr. Edward P. Snelling.
“À medida que os oceanos aquecem, estas espécies estão a ser empurradas para mais perto dos seus limites fisiológicos, o que pode ter consequências para onde conseguem viver e como sobrevivem.”
O que mais preocupa é que estes animais já operam com um orçamento energético muito apertado e que as alterações climáticas estão a reduzir ainda mais as suas opções, observou o Dr. Snelling.
“Compreender estas restrições é essencial se quisermos prever como os ecossistemas marinhos vão mudar nas próximas décadas.”
Peixes sob pressão crescente
Em paralelo, estes predadores enfrentam uma pressão adicional que não depende apenas da temperatura. A sobrepesca diminuiu tanto as suas populações como a disponibilidade de presas, tornando ainda mais difícil satisfazer necessidades energéticas que já são elevadas.
“As implicações são realmente preocupantes, porque esta nova descoberta coloca, essencialmente, estes animais numa ‘dupla ameaça’,” disse o Dr. Payne.
Segundo ele, muitos peixes mesotérmicos já são fortemente afectados pela sobrepesca - tanto da própria espécie como das espécies de que se alimentam - e, por isso, as suas necessidades energéticas acrescidas tornam-nos especialmente vulneráveis quando o alimento escasseia.
O Dr. Payne também recorreu ao passado para enquadrar o problema.
“As evidências fósseis sugerem que gigantes marinhos de corpo quente, como o famoso tubarão extinto Megalodon, sofreram de forma desproporcionada durante alterações climáticas passadas, quando os mares mudaram, e os oceanos actuais estão a mudar a uma velocidade sem precedentes, por isso, neste momento, os alarmes estão a soar bem alto.”
Aquilo que outrora os tornava dominantes coloca-os agora sob pressão em várias frentes.
A força, a velocidade e a resistência continuam a defini-los, mas a sobrevivência depende cada vez mais de como gerem o calor, a energia e um oceano em rápida transformação.
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