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Cientista francês aponta o gatilho da febre do Atlântico desde 2020: menos enxofre dos navios

Homem observa tablet com mapa térmico no convés de navio, com outro navio e mar ao pôr do sol ao fundo.

Um investigador francês acredita ter identificado o fator decisivo.

Os oceanos já vinham demasiado quentes há muito tempo. No entanto, desde 2020, a temperatura no Atlântico disparou para patamares recorde que até surpreenderam climatólogos experientes. Um cientista francês analisou ao pormenor o que está por detrás desta vaga extrema de calor no mar - e chega a uma conclusão que muitos, até aqui, encaravam apenas como um detalhe periférico das políticas climáticas.

Atlântico com febre: o que mudou desde 2020

Desde meados do século XX, as temperaturas do mar têm aumentado de forma contínua, em linha com o que os modelos climáticos antecipam num planeta com concentrações crescentes de gases com efeito de estufa. Mas por volta de 2020 há uma viragem: as curvas inflectem de forma acentuada, sobretudo no Atlântico Norte. Em 2023 e 2024, registam-se valores muito acima de todos os máximos anteriores.

O investigador francês - especialista em física oceânica e dados climáticos - fez uma avaliação minuciosa das séries de medições da superfície do Atlântico. No conjunto entram dados de satélite, medições por boias, observações de navios e reanálises, nas quais se agregam vários conjuntos de dados. A conclusão é clara: o aumento dos gases com efeito de estufa, por si só, não explica este salto.

"O aquecimento global fornece a tendência de longo prazo - mas um impulso adicional catapultou o Atlântico para uma verdadeira fase de febre."

Perante isso, procurou factores que tenham mudado de forma marcada nos últimos anos. E encontrou-os, ironicamente, numa notícia aparentemente positiva: navios mais limpos.

Regras mais apertadas para navios - e, de repente, menos protecção face ao sol

Desde o início de 2020, passaram a vigorar em todo o mundo limites mais rigorosos para o teor de enxofre nos combustíveis usados por navios de alto-mar. A Organização Marítima Internacional (IMO) reduziu drasticamente o máximo permitido. As companhias de navegação tiveram de se adaptar - com combustíveis mais refinados, sistemas de filtragem ou formas alternativas de propulsão.

Como consequência, os gases de escape de cargueiros e petroleiros passaram a libertar muito menos dióxido de enxofre para a atmosfera. A concentração destas substâncias ao longo das grandes rotas marítimas, incluindo no Atlântico Norte, caiu de forma acentuada.

Como os gases de escape dos navios afectam as nuvens e a luz solar

À primeira vista, a mudança parece um ganho inequívoco: menos poluentes atmosféricos, ar mais limpo para cidades costeiras e para quem trabalha em portos. O cientista francês, porém, chama a atenção para um efeito físico secundário desconfortável: compostos de enxofre nos escapes contribuem para a formação de partículas finas que funcionam como núcleos de condensação das nuvens.

  • Mais partículas no ar favorecem nuvens mais claras e mais densas.
  • Nuvens mais claras reflectem uma maior fracção da radiação solar de volta para o espaço.
  • Assim, menos radiação chega à superfície do mar - e o aquecimento é mais lento.

Quando essas partículas diminuem, as nuvens sobre os oceanos tornam-se mais finas ou alteram a sua estrutura. Resultado: mais luz solar atinge a água. É precisamente este mecanismo que o investigador aponta como um dos principais motores do recente aquecimento extremo do Atlântico.

"Menos enxofre sobre os oceanos significa menos 'protector solar' - numa fase em que o sistema climático já está, de qualquer forma, sobreaquecido."

Até 80 por cento menos enxofre - desaparece um amortecedor climático

As medições indicam que, em algumas zonas oceânicas muito navegadas, a carga de partículas com enxofre diminuiu desde 2020 em até 80 por cento. O investigador compara este efeito a tirar de repente uns óculos de sol que o sistema climático vinha a usar, sem o notar, durante anos.

As suas simulações sugerem que esta redução da poluição do transporte marítimo contribui de forma mensurável para o aquecimento adicional da superfície do Atlântico. O mecanismo, por si só, não chega para explicar toda a vaga de calor, mas intensifica-a de modo significativo.

Na análise, o investigador também contabiliza outros factores:

  • situações persistentes de alta pressão sobre o Atlântico Norte, com pouco vento e pouca mistura das camadas de água,
  • oscilações naturais como o El Niño, que deslocam padrões globais de tempo e de circulação,
  • alterações no pó do Sara, transportado para o Atlântico e igualmente relevante para a radiação.

Apesar destes papéis secundários, a sua leitura mantém-se: a redução súbita das emissões de enxofre funciona como um “interruptor” adicional, capaz de aquecer o Atlântico de forma muito mais intensa num curto espaço de tempo.

Porque a protecção do clima e a qualidade do ar podem entrar em choque

O estudo evidencia um dilema. Do ponto de vista ambiental, baixar poluentes atmosféricos é - e bem - um sucesso. Menos enxofre traduz-se em menos chuva ácida, menos partículas finas e menos doenças respiratórias. Para as pessoas em cidades portuárias, trata-se de um ganho importante em saúde pública.

Ao mesmo tempo, fica patente que parte destes poluentes tinha um efeito colateral de arrefecimento no sistema climático. Eles ocultavam uma parcela do aquecimento real provocado pelos gases com efeito de estufa. Quando esse “véu” desaparece, a força do aquecimento global torna-se mais visível.

Factor Efeito na qualidade do ar Efeito no clima
Combustíveis marítimos com baixo teor de enxofre ar significativamente mais limpo, menos partículas finas menos partículas com efeito de arrefecimento, mais aquecimento à superfície
Gases com efeito de estufa como CO₂ quase nenhum efeito directo na respiração aquecimento de longo prazo da atmosfera e dos oceanos
Formação de nuvens sobre o mar influenciada indirectamente por partículas determina quanta luz solar chega aos oceanos

Consequências do aquecimento do Atlântico: tempestades, peixes, degelo

As temperaturas recorde no Atlântico não são apenas um sinal abstracto do clima. Têm impacto directo no tempo, nos ecossistemas e no nível do mar. Um oceano mais quente significa mais energia disponível para tempestades tropicais. Os furacões podem formar-se mais depressa e tornar-se mais intensos quando atravessam águas muito quentes.

Em latitudes mais a norte, os ecossistemas marinhos perdem o seu equilíbrio. Espécies de águas frias recuam, enquanto peixes que preferem temperaturas mais elevadas se expandem. A actividade piscatória tem de se ajustar a novas distribuições de stocks. Zonas costeiras enfrentam mais stress térmico para aves marinhas, corais e pradarias marinhas.

Um Atlântico mais quente também influencia o degelo na Gronelândia. Água mais quente infiltra-se sob as frentes glaciares, acelera o recuo e contribui para a subida do nível do mar. O investigador francês alerta que vários destes processos podem sobrepor-se.

Explicação: o que é uma onda de calor marinha?

A expressão “onda de calor marinha” não se refere apenas a alguns dias mais quentes. Os especialistas usam o termo quando, num local, a temperatura da água do mar permanece durante vários dias ou semanas claramente acima do valor sazonal típico.

  • O limiar é geralmente definido para os primeiros metros da superfície.
  • Muitos estudos científicos usam como referência os cinco ou dez por cento mais quentes dos registos históricos.
  • Quanto mais longa for a duração, maior tende a ser o dano para organismos que toleram apenas intervalos de temperatura estreitos.

No Atlântico, as análises do cientista francês identificam várias ondas deste tipo em sequência. Isso amplifica o stress, porque os ecossistemas quase não conseguem recuperar entre episódios.

O que estes resultados significam para a política climática futura

O trabalho deixa um recado directo: quando os países reduzem poluentes atmosféricos, têm de reduzir ainda mais depressa os gases com efeito de estufa no mesmo período, para conter o impulso adicional de aquecimento. Caso contrário, podem surgir fases em que o sistema climático reage com mais força do que muitos modelos indicavam até agora.

Para isso, especialistas apontam várias vias:

  • expansão maciça das energias renováveis para substituir combustíveis fósseis,
  • programas de eficiência na indústria e nos transportes,
  • electrificação reforçada do transporte marítimo perto da costa,
  • investigação em combustíveis mais amigos do clima, como amoníaco verde ou metanol.

O investigador sublinha ainda a importância de redes de medição densas nos oceanos. Só com boias, dados de navios e satélites é possível detectar estes saltos precocemente. Quanto mais precisos forem os dados, melhor os modelos conseguem antecipar a evolução futura no Atlântico.

Exemplo prático: o que mares mais frescos conseguiriam fazer

Para tornar a escala do problema mais concreta, especialistas recorrem frequentemente a uma comparação: só em 2020, estima-se que todos os oceanos, em conjunto, tenham absorvido cerca de 20 sextilhões de joules de calor. Uma parte dessa energia está no Atlântico. Se essa quantidade fosse armazenada na atmosfera em vez de na água, as temperaturas do ar já teriam aumentado de forma muito mais drástica.

Os oceanos funcionam, assim, como um enorme tampão térmico. Quanto mais quentes já estiverem, mais este sistema de amortecimento se aproxima dos seus limites. Com o impulso adicional associado à redução dos gases de escape dos navios, o Atlântico aproxima-se desses limites em algumas regiões. Para o investigador francês, trata-se de um sinal de alerta que vai muito além do transporte marítimo.

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