Estar sempre disponível, aceitar tudo o que aparece e até ter orgulho em “fazer tudo ao mesmo tempo” pode soar, à primeira vista, a dedicação. Na prática, porém, este padrão pode travar projectos, aumentar a probabilidade de erros e fazer com que as promoções passem ao lado. Por detrás desta aparente força, há muitas vezes um hábito que, com o tempo, mina o desempenho, a saúde e as hipóteses de progressão.
Multitasking – porque é que no trabalho se torna um tiro pela culatra
Em entrevistas de emprego, surge com frequência na lista das supostas qualidades: ser “bom em multitasking”. Muita gente acredita que conseguir gerir várias coisas em paralelo é prova de grande resistência à pressão. No dia a dia, isso traduz-se num reflexo quase automático: dizer “sim” a mais uma tarefa, acumular pedidos e saltar de item em item na lista.
No início, a sensação é sedutora: agenda cheia, caixa de entrada a rebentar, a impressão de que se é indispensável. Só que, muitas vezes, esta actividade constante não corresponde a um ganho real de produtividade; é, antes, um sinal de perda de foco. A investigação aponta que trocar continuamente de tarefa tende, no longo prazo, a prejudicar mais do que a ajudar.
“O multitasking parece produtivo - mas, na realidade, distribui tanto a nossa atenção que a qualidade, a memória e a motivação acabam por sofrer.”
Um estudo de 2016 concluiu que manter-se de forma prolongada num modo de tarefas paralelas está associado a alterações em regiões do cérebro ligadas ao controlo cognitivo, à motivação e à regulação emocional. Outros trabalhos indicam também uma relação com pior desempenho da memória de trabalho e da memória de longo prazo, além de maior vulnerabilidade a distracções.
Acresce um ponto essencial: o tempo que se julga ganhar é, muitas vezes, uma ilusão. A psicologia não fala de “fazer várias coisas ao mesmo tempo” no sentido literal, mas sim de alternância rápida entre tarefas. Cada mudança exige energia mental e pequenos instantes de reorientação; somados ao longo do dia, transformam-se em perdas de produtividade - e em mais stress.
Como o multitasking corrói as suas oportunidades de carreira
As consequências não ficam pela concentração e pelo bem-estar. Quem vive em sobrecarga e em simultâneo permanente também fragiliza a própria imagem profissional. Para quem lidera equipas, não conta a agitação em si, mas resultados consistentes, fiabilidade e pensamento estratégico.
- Mais erros, menos confiança: pequenas falhas repetidas, detalhes esquecidos ou prazos falhados fazem com que as chefias duvidem da capacidade para responsabilidades maiores.
- Trabalho superficial: com e-mails, chats e chamadas a interromper, falta espaço para aprofundar temas a sério. Isso trava a evolução técnica.
- Perfil pouco definido: participar em tudo, mas raramente pensar até ao fim e assumir a responsabilidade completa por algo, dá uma impressão de substituibilidade - péssimo sinal para promoções.
- Imagem de stress: pressa constante, nervosismo e conversas pouco focadas notam-se. Muitas chefias tendem a escolher para funções de liderança pessoas mais calmas e concentradas.
Assim, um comportamento que deveria transmitir empenho é facilmente interpretado como falta de priorização ou de organização. Em vez de “high performer”, pode ficar com a reputação de ser trabalhador, mas difícil de orientar e de gerir.
Sinais típicos: como identificar o seu padrão de multitasking
Muita gente só se apercebe tarde do quanto o dia está dominado por actividades paralelas. Olhar com atenção para a rotina pode ser desconfortável. Indícios frequentes:
- Começa dois ou mais projectos ao mesmo tempo, sem fechar nenhum de forma visível.
- Nas deslocações para o trabalho, tem sempre rádio ou podcast a tocar, muitas vezes ao mesmo tempo que faz scroll no telemóvel.
- Fala ao telefone enquanto, em paralelo, escreve uma nota ou um e-mail.
- Mantém a televisão ligada enquanto responde a mensagens no portátil.
- Em reuniões, dá por si a deslizar em redes sociais.
- Ouve alguém e, simultaneamente, vai escrevendo uma lista de tarefas para mais tarde.
Cada situação, isoladamente, parece inofensiva. No conjunto, porém, treina o cérebro para estar sempre a saltar. E, com isso, torna-se cada vez mais difícil manter concentração prolongada - precisamente nas tarefas que mais pesam para subir na carreira e negociar aumentos.
Porque dizer “não” é muitas vezes mais inteligente do que dizer sempre “sim”
No centro do multitasking está, muitas vezes, uma atitude: a crença de que é preciso aceitar tudo para não parecer pouco empenhado. Esse receio leva muitos profissionais a carregar demais - e, ironicamente, a perder qualidade.
Por isso, especialistas em carreira defendem uma mudança de perspectiva. O que conta não é o volume de tarefas aceites, mas a capacidade de definir prioridades e planear com antecedência. Comunicar com clareza o que é realisticamente exequível transmite profissionalismo, não fraqueza.
“Um ‘não’ deliberado à décima tarefa extra pode valer mais na carreira do que dez projectos feitos a meio gás.”
Sobretudo em trabalho de conhecimento, projectos complexos ou funções de liderança, a “trabalho profundo” é determinante: compreender temas difíceis, desenhar estratégias e ponderar riscos. Isso raramente acontece entre notificações a aparecer e cinco documentos abertos e inacabados.
Estratégias para sair da armadilha do multitasking
Quando o hábito de alternar sem parar já é automático, é possível corrigir o rumo com passos simples. A chave é recuperar mais monotasking - isto é, trabalho focado numa coisa de cada vez - no dia a dia.
1. Blocos de tempo para trabalho concentrado
Marque períodos fixos em que se dedica apenas a uma tarefa. Por exemplo:
- 25–50 minutos de trabalho num projecto sem e-mails nem janelas de chat.
- Depois, 5–10 minutos de pausa ou pequena organização.
- Só então mudar para o bloco seguinte.
Este método é semelhante à conhecida técnica “Pomodoro” e ajuda a treinar a mente para permanecer mais tempo no mesmo assunto.
2. Reduzir as notificações de forma radical
O telemóvel e o computador são os grandes motores do multitasking. Desactive sons e pop-ups que não sejam realmente indispensáveis. Defina horários específicos para tratar e-mails e mensagens, em vez de abrir cada notificação no momento em que chega.
3. Combinar regras claras com a equipa
Diga a colegas quando está facilmente contactável e quando precisa de foco. Muitos mal-entendidos nascem da expectativa de resposta imediata. Com comunicação transparente, protege os seus períodos de concentração e, ao mesmo tempo, passa uma imagem profissional.
4. Priorizar tarefas em vez de as acumular
De manhã - ou na véspera - escreva as três tarefas mais importantes do dia. Esse é o seu núcleo. O resto vem depois, por ordem. Assim, evita gastar o dia com temas secundários e deixar para trás o que é decisivo.
O que o multitasking faz ao stress, ao descanso e à vida pessoal
Os efeitos do multitasking no trabalho tendem a estender-se para lá do horário. Quem passa o dia a saltar de estímulo em estímulo chega ao fim da tarde cansado, mas agitado por dentro. O cérebro fica em “modo de varrimento”, à procura de mais impulsos - redes sociais, streaming, notícias.
Isto enfraquece a recuperação e, com o tempo, pode favorecer problemas de sono, irritabilidade e um nível de stress cronicamente elevado. Para quem tem ambição de carreira, o risco é claro: sacrifica a regeneração e, assim, reduz a capacidade de render nos momentos que realmente contam - apresentações, reuniões com clientes ou projectos decisivos.
Quando agir em paralelo pode, ainda assim, fazer sentido
Apesar dos riscos, um paralelismo limitado pode ser útil em contextos específicos. Tarefas rotineiras, com pouca exigência mental, por vezes combinam bem: arrumar enquanto se fala ao telefone, fazer actividades físicas leves com um podcast, ou rever e-mails no passadeira.
| Situação | Adequado para actividade paralela? |
|---|---|
| Reunião estratégica complexa | Não, é necessária concentração total |
| Copiar dados ou aguardar a conclusão de um processo no sistema | Sim, de forma limitada, para preencher pequenos tempos mortos |
| Desenvolver um conceito criativo ou preparar uma proposta | Em geral não, o foco melhora a qualidade |
| Organizar material, arquivar documentos | Sim, é possível ouvir conteúdos de áudio em paralelo |
O essencial é ser honesto na avaliação: a tarefa principal exige esforço mental elevado? Se sim, merece atenção sem interrupções - é aí que se “ganham pontos” na carreira, não no malabarismo apressado de pequenas coisas.
Quando se compreende o impacto do próprio estilo de trabalho no desempenho cerebral, na percepção externa e na trajectória profissional, torna-se mais fácil ajustar hábitos de forma consciente. O objectivo não é um quotidiano rígido e mecanizado, mas um dia a dia com mais espaço para concentração, prioridades claras e pausas reais. É isso que aumenta a probabilidade de o esforço, o talento e a ambição serem notados no momento certo.
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