Em Carvide, deixou de haver aulas na escola básica desde que a tempestade “Kristin” atingiu Leiria. O edifício ficou “sem remédio”. Onde antes funcionava a cantina, veem-se agora apenas algumas paredes de pé. O recreio está coberto de telhas e vidros partidos e o telhado já não protege como devia. Ainda assim, as aulas não pararam. Os 59 alunos continuam a estudar a poucos metros do antigo edifício escolar.
Se antes todas as turmas partilhavam o mesmo espaço, hoje estão separadas. De um lado da estrada, numa sala da igreja da freguesia, as crianças do 1º ano treinam a última letra do abecedário e as do 3º já têm fichas preparadas para começarem uma composição. Do outro lado, a curta distância, as duas turmas restantes, também do 1º ciclo, funcionam na Casa do Povo.
Os dois locais foram adaptados e convertidos em “autênticas salas de aula”, com material e mobiliário da antiga escola, recuperados com a ajuda dos pais. Como se esperaria, as mesas e cadeiras pequenas estão orientadas para os quadros. Cada lugar reconhece-se pelas mochilas diferentes. E, em cima de cada secretária, há um porta-lápis e fichas preenchidas com a letra de quem aprendeu a escrever há pouco. As três professoras garantem que o ensino é o mesmo, embora com mais “criatividade”, porque a internet falha. “Manteve-se tudo igual, apenas mudámos de lugar”, explica Rosário Mestre.
O almoço é tomado na sede dos escuteiros - também ali perto -, mas os intervalos acontecem nos próprios espaços onde decorrem as aulas. “Na Casa do Povo, o espaço exterior é pequeno, mas nas pausas fazemos questão de juntar todos os alunos”, acrescenta a professora. Assim, pelo menos três vezes por dia, para lanchar e brincar, a turma de Rosário Mestre repete o mesmo percurso: saem da igreja, organizam-se em fila indiana e, atentos ao trânsito, atravessam a estrada até à Casa do Povo.
Sem estes pequenos percursos e visitas ocasionais, seria ainda mais complicado perceber exactamente onde decorrem as aulas, porque, a partir da rua principal, não é óbvio onde ficou a nova escola. Não há placas nem sinalização. Porém, quando o recreio ganha vida, são os gritos, a agitação e as canções memorizadas que denunciam onde as crianças continuam a aprender em Carvide.
Quando o vento volta
Nos intervalos, com pouco tempo para brincar, quase não há espaço para conversas demoradas. O que se ouve são incentivos à corrida - “Anda!” - e indicações como “é a tua vez”, enquanto trocam a corda para saltar. Não há muito que partilhar, pelo menos não tanto como havia logo depois da intempérie.
Logo após a tempestade, sim, as crianças chegavam com um novelo de histórias. Até as mais reservadas descreviam, a quem quisesse escutar, dias dominados por vento e chuva intensos: como os pais tentaram “segurar nos vidros” e “proteger os bens”, pondo em risco a “própria segurança”. “Repetiam o que os adultos diziam em casa”, relata a professora Sandra Boiça, e até tentavam aconselhar-se entre si. E, apesar dos estragos, as partilhas traziam um optimismo discreto. “Foi só a casa que ficou destruída. Pelo menos estamos vivos”, diziam.
Na Escola Básica e Secundária Henrique Sommer, na Maceira, as narrativas foram dando lugar aos “ses”. Os alunos “mais velhinhos”, que “tiveram mais perceção da gravidade” da tempestade, montavam hipóteses e tentavam calcular como teria sido a destruição se houvesse gente na rua, na escola ou no trabalho, explica a directora do agrupamento, Eugénia Gomes.
Ainda assim, foi graças à partilha, sublinha o director do Agrupamento de Escolas de Marrazes, Jorge Edgar, que muitos perceberam que não eram caso único. “Conseguiram entender que na casa dos outros também chovia e que não havia telhados. Regressar à escola ajudou-os a lidar e, principalmente, a entender que isto não aconteceu só com eles.”
Cem dias depois, as histórias já ficaram para trás. O que não desapareceu foi o medo, diz Sandra Boiça. Basta o vento começar a levantar - na escola ou em casa - para regressarem o murmúrio e a inquietação. “Voltam sempre a falar nisso”, afirma a docente. E a pergunta repete-se: “Será que vai voltar a acontecer?”
O mesmo acontece até com estudantes do 12º ano, em Maceira. “Estes dias vão ficar-nos para sempre”, conta Mafalda Cunha, de 18 anos. O “caos destroçou-os”, mas também os ensinou a “valorizar os avisos” e a prepararem-se “para a eventualidade de um novo fenómeno”. Mesmo assim, quando o vento aperta, “o coração ainda dispara”.
Obras à porta
A “nova normalidade” em Carvide, porém, não será permanente. A escola básica vai ser requalificada e ampliada pela Câmara Municipal de Leiria. A autarquia, que já aplicou cerca de €3 milhões em reparações em escolas e prevê investir mais €1,2 milhões, espera que os alunos possam regressar ao espaço renovado no início do próximo ano lectivo. Até lá, resta-lhes aguardar alguns meses por um “espaço mais resiliente” e mais preparado para responder a fenómenos extremos.
Já nas escolas-sede do Agrupamento de Escolas de Marrazes e do Agrupamento de Escolas Henrique Sommer, na Maceira, as intervenções não deverão avançar com a mesma rapidez, uma vez que as obras dependem do Estado.
Em Marrazes, o mau tempo tornou evidentes, de forma brusca, fragilidades que o edifício - com 51 anos - já deixava adivinhar. O impacto foi maior no bloco B, onde o primeiro piso está interdito. As escadas foram bloqueadas com um armário comprido; ainda assim, há quem consiga passar por uma frincha estreita. Degrau a degrau, o ar pesa mais. A luz entra apenas através de uma placa provisória transparente, colocada para impedir a chuva de entrar e travar “a contínua degradação do edifício”. Aqui, preservam-se as memórias de “dias apocalípticos”, descreve Jorge Edgar. Existem dez salas “completamente degradadas”: perderam a cor por causa da água que insistiu em infiltrar-se e estão agora tomadas por marcas de humidade, bolor e pó. Nos cantos, como se estivessem de castigo, amontoam-se cadeiras e móveis sem recuperação, ao lado de baldes colocados ao jeito de armadilhas para apanhar as pingas nos dias de chuva.
Os danos, contudo, não ficaram limitados a esses espaços: a sala de artes, os laboratórios e o pavilhão gimnodesportivo também sofreram “pela força tremenda da natureza” e ficaram “completamente comprometidos”, lamenta Jorge Edgar.
Com 32 turmas do 2º e 3º ciclos do ensino básico, foi inevitável reorganizar tudo para não prejudicar as aprendizagens. As salas perdidas deram lugar a dez contentores, as turmas passaram a ter salas fixas e os horários foram refeitos. Numa das extremidades do recinto, foi ainda montada uma tenda branca para acolher as actividades desportivas. E a comunidade escolar uniu-se em limpezas e trabalhos de recuperação.
“Em casa, houve alunos que perderam muito conforto.” Alguns foram viver com os avós e outros tiveram de receber familiares. “Mas ganhou-se um sentido de comunidade muito interessante, porque pais e alunos juntaram-se para recuperar o nosso espaço”, explica o director. “Isto só mostra a importância da escola.”
Um T0 para cada turma
À entrada, alinham-se os contentores - um após o outro - formando uma faixa branca que passou a fazer parte do cenário. Num dos primeiros monoblocos, a professora Cecília Duarte prepara-se para começar uma aula de inglês. Os alunos vão ocupando o mesmo lugar de sempre, que mantêm há cerca de três meses. A sala parece nova, praticamente sem marcas. Não há desenhos nas paredes e as únicas cores vivas que escapam ao habitual cinzento das estruturas são trazidas pelas roupas e mochilas dos alunos.
Antes de avançar para a matéria, a docente pergunta à turma 5º F como está a correr a adaptação. Há quem goste da novidade e do ar condicionado dos contentores; outros sublinham o lado negativo do espaço reduzido. “As outras salas eram maiores”, ouve-se. “E tínhamos internet”, acrescentam. “Aqui, é tudo muito estreito e branco”, insistem. Ainda assim, nem tudo é desfavorável. Pelo menos, não precisam de partilhar o “T0 com ninguém” nem de “andar com as coisas às costas”, recorda a professora. A turma concorda. “De qualquer das formas, temos de aguentar, porque vem aí uma escola nova.”
O director antecipa que a requalificação estará prestes a arrancar. “Estamos na fase da contratação pública. O grande desafio é perceber se haverá candidatos e se o processo vai acontecer sem sobressaltos.” Mesmo assim, a ansiedade é evidente: “Gostaríamos de ter tudo concluído dentro de dois anos e meio.”
Na Escola Básica e Secundária Henrique Sommer, na Maceira, repete-se um cenário semelhante. Também ali a tempestade piorou a situação de blocos com mais de 40 anos. O que deu para reparar, foi sendo resolvido, mas muitas salas continuam sem condições. “As coberturas voaram todas. Só havia destruição”, recorda Eugénia Gomes.
As 29 turmas, do 5º ao 12º, estão agora espalhadas por 15 contentores e salas readaptadas. A internet continua a não funcionar devidamente e os “bons projetores” não podem ser usados nos monoblocos, porque as estruturas não estão preparadas para “segurar” os equipamentos. O regresso aos dias “normais” ainda não chegou.
Apesar disso, com a rotina já estabilizada, encaram de forma mais serena o vento e a chuva que lhes levaram parte da escola. “Foi um mal que veio desencadear um processo de requalificação já desejado há muito tempo”, admite Eugénia Gomes. Ao contrário de outras escolas visitadas pelo Expresso, aqui ainda não se discutem datas, mas já se pressente “a luz ao fundo do túnel. Só esperamos que não demorem muito tempo a começar”.
Destes dias fácticos, também as escolas retiram aprendizagem. “No futuro, tem de haver ajustes nas formas como construímos os edifícios escolares porque vamos estar expostos, cada vez mais, a fenómenos extremos”, atira Jorge Edgar. E, acrescenta Eugénia Gomes, os avisos e a prevenção têm de ser levados a sério no dia a dia. Fica ainda a certeza de que, perante o “incontrolável”, enquanto houver “força”, “tudo se adapta e é recuperável”.
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