Poços dormentes de petróleo e gás no Canadá libertam metano produzido por microrganismos a um ritmo cerca de 1.000 vezes superior ao que estimativas anteriores apontavam, segundo uma nova investigação.
Os resultados indicam que alguns poços continuam a contribuir para as emissões atmosféricas muito depois de o petróleo ou o gás que motivou a perfuração já ter desaparecido.
O que revelaram as amostras
Na análise de 401 poços não produtivos, o metano de origem microbiana surgiu com uma frequência muito maior do que a indicada por avaliações passadas.
Mary Kang, da Universidade McGill, associou uma parte relevante desta poluição subestimada à subida de gás a partir de formações pouco profundas no subsolo.
Em vez de substituir a explicação centrada apenas em fontes profundas, a evidência mostrou que poços envelhecidos podem libertar metano proveniente de mais do que uma camada subterrânea.
Essa sobreposição torna a fuga detectável antes de se perceber por completo qual o percurso que a está a alimentar.
Porque é que o gás pouco profundo importa
No subsolo, microrganismos geram metano microbiano - um gás formado por organismos minúsculos em ambientes sem oxigénio - e este estudo mostra que poços antigos conseguem ventilá-lo para a superfície.
Ao contrário do gás “cozinhado” em profundidade nas zonas petrolíferas, esta fonte mais superficial pode persistir para além do reservatório que as empresas perfuraram originalmente.
“Metano é um poderoso gás com efeito de estufa quando libertado para a atmosfera, independentemente da sua origem”, afirmou Kang.
Reduzir metano tem impacto rápido, porque este gás retém mais de 28 vezes mais calor do que o dióxido de carbono ao longo de um século.
Rastrear as origens do metano
Para distinguir uma origem de metano de outra, os investigadores analisaram assinaturas isotópicas estáveis - impressões digitais químicas que ajudam a revelar onde o gás se formou.
Esses indícios, juntamente com a própria composição da mistura gasosa, permitiram à equipa classificar as emissões de 100 poços amostrados.
Gases profundos de origem petrolífera tendem a vir acompanhados por outros gases mais pesados, enquanto muitos gases microbianos pouco profundos apresentam uma química mais simples.
Este retrato mais completo é relevante porque um plano de reparação pode falhar se as equipas interpretarem mal qual a camada que está a alimentar a fuga.
Gás de fontes pouco profundas e profundas
A maioria dos poços com fugas continuou a libertar metano termogénico, um gás formado quando matéria orgânica soterrada é aquecida durante milhões de anos no subsolo.
Ainda assim, o gás microbiano apareceu muito mais vezes do que a literatura anterior sugeria, alterando a visão habitual do que os poços inactivos emitem.
Várias amostras também aparentaram ser misturas, o que aponta para camadas superficiais e profundas a enviarem metano através da mesma infra-estrutura envelhecida.
Essa sobreposição ajuda a perceber porque é que contagens anteriores falharam uma parte significativa da contribuição microbiana.
Rotas através de poços antigos
Poços não produtivos podem funcionar como rotas verticais de escape, ligando camadas subterrâneas com gás a válvulas, cabeças de poço e fugas próximas da superfície.
No oeste do Canadá, um estudo de 2020 descreveu gás a escapar através do revestimento, de falhas no cimento e de percursos fora do poço.
“Contudo, a fonte exacta deste metano é muitas vezes pouco clara, porque o subsolo é um sistema complexo com múltiplas formações portadoras de gás”, disse Kang.
Essa complexidade significa que uma equipa pode selar a fuga visível e, mesmo assim, não bloquear o percurso que continua a abastecer a emissão.
Identificar as maiores fontes
Trabalho de campo anterior da McGill concluiu que os 12 por cento de poços emissores no topo eram responsáveis por 98 por cento das emissões.
Como uma fracção pequena concentra grande parte das fugas, médias gerais tendem a esconder os locais que mais contam.
O metano microbiano dificulta essa triagem, já que poços aparentemente discretos podem, ainda assim, libertar poluição climática a partir de formações mais rasas.
O resultado prático é directo: localizar rapidamente os piores emissores e, em paralelo, impedir que fugas menores se tornem fontes permanentes.
Uma nova forma de medir as emissões de metano
Estimativas mais antigas tratavam o metano microbiano como algo raro, em parte porque os gases profundos de origem petrolífera eram mais fáceis de identificar.
Aqui, a equipa combinou vários sinais químicos, em vez de confiar num único marcador que pode ser distorcido por misturas ou pelo movimento do gás.
Por vezes, gás profundo pode parecer enganadoramente “leve”, enquanto gases combinados tornam difusa a fronteira a partir do lado oposto.
Recorrer a mais do que um indício não eliminou todas as incertezas, mas reduziu a probabilidade de rotular mal as fugas.
O que as reparações precisam de bloquear
Programas de tamponamento e monitorização focam-se muitas vezes em poços já conhecidos por fugirem muito, mas o tipo de fonte influencia a solução adequada.
Gás a subir pelo principal tubo de aço pode exigir uma resposta, enquanto metano proveniente de formações adjacentes pode exigir outra.
Amostras recolhidas em válvulas perto do topo do poço por vezes apontaram para formações mais rasas, sugerindo que o equipamento à superfície pode denunciar percursos diferentes.
Isto pesa nos orçamentos, porque as equipas podem desperdiçar tempo a selar sintomas enquanto o canal subterrâneo permanece aberto.
Direcionar o metano de poços antigos de petróleo
O Canadá tem quase 500.000 poços não produtivos de petróleo e gás, e mesmo uma minoria com fugas pode somar emissões relevantes.
A maior parte desses poços encontra-se nas províncias ocidentais, onde longas histórias de exploração deixam um enorme passivo de limpeza.
A Califórnia e outras regiões de perfuração nos Estados Unidos documentaram poços com fugas semelhantes, o que mostra que o problema atravessa fronteiras.
O que muda agora é o mapa das fontes, já que alguns poços antigos parecem ventilar metano a partir de camadas que ninguém estava a visar.
Poços envelhecidos não são apenas equipamento abandonado: são vias activas de escape para metano, com mais do que uma origem no subsolo.
Esta nova leitura deverá orientar a monitorização para reparações ajustadas ao tipo de fuga, ao mesmo tempo que os investigadores testam como o gás continua a deslocar-se através da rocha enterrada.
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