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O silêncio dos insectos: como trazer o zumbido de volta

Mulher jovem debruçada a cuidar de flores coloridas num jardim rural ao fim da tarde.

Os insectos que, no verão, cosiam o ar numa espécie de tecido vivo estão a rarear - até em sítios onde o solo nunca provou pesticidas. Os lugares tranquilos já não são um refúgio garantido.

Fim de Junho, ao amanhecer, num planalto alto. A relva está húmida, o céu parece acabado de estrear e as flores silvestres abriram “loja” para o dia: pequenos sóis, minúsculas pistas de aterragem. Agacho-me e fico à espera do movimento: abelhas a esbarrarem nas pétalas, moscas-das-flores suspensas no ar, grilos a marcarem o compasso nos caules. Passam dez minutos. Depois vinte. Um único abelhão cruza o prado como um autocarro atrasado e some-se no silêncio. Já todos sentimos esse instante em que, de longe, tudo parece normal, mas falta qualquer coisa essencial. Um prado sem o seu murmúrio pode parecer saudável - até nos aproximarmos. Há outra força a actuar.

Quando o zumbido desaparece longe dos campos

Se caminhar até ao coração de um vale protegido, é natural esperar a abundância de outros tempos. Não há camiões de herbicida. Não há monoculturas de milho a quilómetros. E, no entanto, o ar pode soar “fino”. À noite, dançam menos traças sobre as pedras do rio. Onde a água costumava ficar fria o verão inteiro, erguem-se menos plecópteros. É como se alguém tivesse baixado o volume. Numa visita isolada, a falta quase não se apanha - tal como uma divisão que recordamos mais clara, mais viva, mas sem conseguirmos explicar porquê. Depois repara-se no tempo que uma andorinha leva a arranjar uma refeição, e a quietude começa a pesar mais do que o som.

Os registos de longo prazo confirmam esta sensação precisamente em locais feitos para serem “seguros”. Na Alemanha, armadilhas colocadas em áreas protegidas apontaram para uma descida de cerca de 75% na biomassa de insectos voadores ao longo de algumas décadas. Em parcelas florestais, dos trópicos às zonas temperadas, foram registadas quebras acentuadas de artrópodes, mesmo com agricultura distante. Em áreas alpinas, observam-se menos abelhões de grande altitude à medida que os verões ficam mais quentes e mais secos. Gestores de parques repetem a mesma queixa: lâmpadas que antes ficavam entupidas de traças agora mal ficam salpicadas no vidro. O declínio aparece mesmo onde os pulverizadores nunca passam.

O que está a espremer a vida destes cantos “limpos”? Ondas de calor que torram larvas em solos pouco profundos. Secas que transformam ribeiros em fio de água morna, pobre em oxigénio. Iluminação nocturna que desorienta, desidrata e atrai insectos para um gasto de energia que não conseguem suportar. Azoto transportado pelo ar a partir do tráfego e da pecuária, a engordar plantas que abafam as flores silvestres de que os insectos dependem. Fragmentação que parte a paisagem em ilhas do tamanho de um insecto. E os nossos hábitos de “arrumação” também contam: relvados demasiado perfeitos, folhas sopradas para longe, margens seladas. Uma pressão, isolada, poderia ser tolerável. O problema é a pilha.

Pequenas mudanças que devolvem o som ao ar

Comece pela luz. Troque as lâmpadas exteriores por tons âmbar quentes (2000–2700 K), instale sensores de movimento e use resguardos para direccionar a luz para baixo. A noite escura também é habitat. Reserve um metro quadrado para ficar mais selvagem e alimente-o com folhas de outono, não com casca decorativa. Plante uma escada nativa de floração em três épocas: no início, salgueiro ou açafrão; a meio do verão, centáurea, escabiosa, milefólio; no fim, hera ou ásteres. Acrescente um tabuleiro de água pouco fundo com pedras para pouso. Uma regra simples que costuma resultar: 3–2–1 - três plantas nativas por época de floração, dois pontos de água, um canto “desarrumado”. Isto já é um pequeno refúgio.

Há erros comuns que continuam a repetir-se. “Hotéis para abelhas” decorativos, demasiado compactos, acabam por ser hotéis para parasitas; prefira furos profundos e variados e faça limpeza anual. Corte a relva menos vezes e evite cortar quando as flores estão no auge. As armadilhas eléctricas para insectos? Na maioria dos casos eliminam ajudantes, não os que picam. Colocar colmeias de abelha-melífera em jardins pequenos pode retirar alimento às abelhas selvagens; antes de trazer “gado”, aumente a oferta de flores. Fale com vizinhos sobre luzes mais fracas e sobre adiar a época de corte. Sejamos realistas: ninguém cumpre tudo isto todos os dias. Ainda assim, mudanças pequenas partilhadas valem mais do que uma rotina perfeita a solo.

Os cientistas repetem-me que a solução não tem nada de exótico. É habitat, água, escuridão e calendário - feito localmente, repetido em muitos sítios. E mais um ingrediente: paciência, porque muitos insectos precisam de dois anos para voltar a estabilizar.

“Reconstruam o que é comum, e o extraordinário chega por si,” disse-me um entomólogo à beira de um ribeiro que agora corre baixo em Agosto.

  • Use LEDs âmbar e temporizadores no exterior; a escuridão é uma ferramenta de conservação.
  • Deixe folhas e caules até à primavera; os polinizadores do próximo ano estão a dormir aí.
  • Plante espécies nativas pelo calendário de floração, não pela paleta de cores.
  • Troque relva por flores em manchas - sem obsessão pela perfeição.
  • Pense em água: micro-poças com seixos podem salvar um dia de voo.

Um futuro frágil, mas ainda ao nosso alcance

Depois de se notar o silêncio, deixa de dar para o “desouvir”. Ainda assim, as recuperações podem ser rápidas quando se retiram pressões - até nas cidades: contagens de traças a subir quando as luzes passam a âmbar, diversidade de abelhas a aumentar quando os canteiros urbanos usam plantas nativas, libélulas a regressar quando as lagoas ganham sombra e mais oxigénio. Em cumes remotos, o princípio é o mesmo - sombrear um curso de água, reabrir um corredor, deixar as flores ganhar liberdade nas margens - e as pequenas asas voltam. O mundo não precisa que nós adoremos os insectos; precisa que lhes demos espaço para viver. Partilhe esta ideia na próxima conversa à porta de casa ou no início de um trilho. A solução não será dramática - e talvez seja esse o segredo. Trabalho discreto para uma crise discreta costuma durar.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
As noites escuras contam Luzes quentes, com resguardo e accionadas por movimento reduzem a desorientação e a perda de energia Mudança simples e rápida que ajuda insectos que voam à noite
O desarrumado vence o arrumado Folhas, caules e cantos “selvagens” acolhem larvas e adultos em hibernação Habitat de baixo custo que qualquer quintal ou varanda pode oferecer
Escada de floração nativa Flores do início, meio e fim da época tapam a “falha” de alimento Mais polinizadores, melhor frutificação, cor viva durante meses

Perguntas frequentes:

  • Porque é que os insectos estão a colapsar onde não há agricultura nem pulverização? Vários factores acumulam-se: verões mais quentes, secas mais longas, luz à noite, deposição de azoto e habitats fragmentados. Cada um reduz a sobrevivência e a reprodução.
  • Vivo num apartamento. Posso mesmo ajudar? Sim. Cultive ervas nativas num parapeito solarengo, coloque na varanda um prato de água com seixos e mude as luzes da varanda para âmbar com temporizadores. Partilhe plantas e sementes no prédio - as redes contam.
  • Devo instalar uma colmeia de abelha-melífera para “salvar as abelhas”? As abelhas selvagens precisam mais de flores e locais de nidificação do que de novos concorrentes. Reforce primeiro a alimentação; se tiver abelhas, faça-o onde o alimento é abundante e diverso.
  • As armadilhas eléctricas e as luzes da varanda fazem diferença? As armadilhas eléctricas matam, em grande número, insectos que não picam. As luzes da varanda podem esgotar e prender traças. Escolha LEDs quentes, resguardos e sensores de movimento para devolver a noite ao habitat.
  • Um quintal sem pesticidas é suficiente? É um excelente começo, mas não chega. Acrescente água, sombra, plantas nativas e refúgios sem perturbação. Depois combine com vizinhos para ligar essas boas manchas ao longo da rua.

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