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Colossal Biosciences quer criar BioVaults para congelar o genoma de espécies ameaçadas

Cientista em laboratório com jaleco branco observa frasco, com autoclaves e imagens de animais em ecrãs ao fundo.

Uma start-up de biotecnologia dos EUA está a desenvolver um plano que parece saído de ficção científica - e pode transformar-se no derradeiro backup para milhares de espécies animais.

Há anos que investigadores alertam para um possível colapso da biodiversidade, mas uma empresa decidiu apostar numa ideia extrema: congelar em grande escala o material genético de animais ameaçados e guardá-lo para o futuro. A promessa é simples e ambiciosa ao mesmo tempo: se certos habitats deixarem de poder ser salvos, pelo menos a base genética de muitas espécies poderá persistir - e, quem sabe, até permitir um dia o seu regresso.

As espécies estão a desaparecer a um ritmo recorde - investigadores dão o alerta

Os indicadores mais recentes sobre o estado da natureza parecem retirar-se de um filme de desastre. O WWF refere que as populações globais de vertebrados - isto é, mamíferos, aves, répteis e anfíbios - diminuíram, em média, mais de dois terços ao longo de apenas algumas décadas. Em paralelo, a taxa de extinção actual está muitas vezes acima do que foi normal ao longo de milhões de anos.

Até meados do século, estimativas apontam que cerca de metade de todas as espécies animais hoje conhecidas poderá estar sob forte pressão ou já ter desaparecido. Entre os principais factores estão:

  • a destruição de habitats por agricultura, infra-estruturas de transporte e expansão urbana,
  • a crise climática, com ondas de calor, secas e fenómenos meteorológicos extremos,
  • a sobrepesca e a caça furtiva,
  • poluentes e espécies invasoras.

Com isto, os ecossistemas aproximam-se de pontos de ruptura. Quando espécies centrais desaparecem, tende a quebrar-se uma cadeia inteira de dependências - desde a polinização feita por insectos até ao controlo natural de pragas assegurado por aves ou morcegos.

Colossal Biosciences: armazéns ultracongelados para a vida

É precisamente neste contexto que surge a empresa norte-americana Colossal Biosciences. A marca tornou-se conhecida sobretudo por planos muito mediáticos para trazer de volta, em parte, espécies extintas como o mamute-lanoso, recorrendo à genética e a técnicas modernas de reprodução. Agora, a Colossal quer ir além da recuperação de casos isolados: o objectivo passa por proteger, como arquivo genético, uma fatia ampla da fauna ameaçada.

A ideia é criar uma rede global de BioVaults - armazéns de alta segurança, a temperaturas ultrabaixas, dedicados ao património genético do mundo animal. A equipa pretende ir reunindo e guardando amostras de mais de 10.000 espécies em risco. Numa primeira fase, avançará com 100 espécies consideradas particularmente vulneráveis por biólogos.

As BioVaults planeadas deverão funcionar como uma “apólice de seguro” para o material genético de animais ameaçados - independentemente do que venha a acontecer aos seus habitats.

O foco recai sobre amostras de tecido, linhas celulares e genomas completos. Tudo é conservado a temperaturas extremamente baixas, muitas vezes com azoto líquido a cerca de menos 196 graus Celsius. A meta é manter as células intactas durante décadas ou mesmo séculos.

O que significa vida “crioconservada”

A tecnologia por detrás desta estratégia chama-se crioconservação. Actualmente, já é usada em várias áreas - por exemplo, na medicina reprodutiva, em doações de esperma e óvulos, ou na preservação de sementes em bancos de germoplasma.

No caso dos animais, o processo, em termos gerais, funciona assim:

  1. Investigadores recolhem, de forma minimamente invasiva, tecido ou células isoladas de um animal.
  2. As amostras são tratadas em laboratório e, por vezes, multiplicadas até formarem linhas celulares estáveis.
  3. Com soluções protectoras e arrefecimento controlado, as células são congeladas de modo a evitar danos.
  4. As amostras seguem para tanques de armazenamento prolongado, são catalogadas e registadas digitalmente.

Quando a Colossal Biosciences fala em “crioconservação avançada”, está a referir-se a um modelo em que não se guardam apenas células isoladas, mas também conjuntos completos de dados do genoma, linhas de células estaminais e, idealmente, células com potencial para utilização futura em reprodução. Para a empresa, isto cria uma base para projectos futuros de De-Extinction (desextinção) - isto é, para tentar “recuperar” espécies já perdidas - e, também, para reforçar populações remanescentes muito pequenas.

Saída de emergência genética, não substituto da conservação

Há um ponto essencial: as BioVaults não são apresentadas como um passe livre para continuar a destruir o ambiente. A Colossal sublinha que esta iniciativa deve complementar o trabalho tradicional no terreno. Áreas protegidas, programas anti-caça furtiva ou a protecção de recifes de coral continuam a ser decisivos, porque só populações vivas conseguem manter os ecossistemas estáveis.

Assim, os armazéns de ultracongelação são pensados sobretudo como uma rede de segurança - para o cenário em que, apesar de todos os esforços, determinadas espécies desapareçam por completo. Nesse caso, pelo menos o seu “projecto genético” ficaria disponível para ser trabalhado com tecnologias futuras.

BioVaults distribuídas pelo mundo como rede de segurança

Nos planos da Colossal Biosciences, estes armazéns não ficarão concentrados num único local. A intenção é criar uma rede em vários países, para reduzir a vulnerabilidade a riscos políticos, catástrofes naturais ou falhas técnicas.

Objectivo Função prevista das BioVaults
Protecção da biodiversidade Armazenamento de longo prazo de tecidos, células e genomas de espécies ameaçadas
Investigação Base material para estudos sobre genética, adaptação e susceptibilidade a doenças
Desenvolvimento tecnológico Campo de testes para novos métodos como De-Extinction ou técnicas com células estaminais
Opção de emergência Recurso genético caso espécies se extingam na natureza

Mais tarde, a ideia é que estas amostras possam ser disponibilizadas a cientistas de todo o mundo. Isso permitiria, por exemplo, estudar como a diversidade genética se alterou ao longo do tempo ou que características podem ajudar certas espécies a sobreviver. Esse tipo de informação também pode apoiar o desenho de estratégias de reintrodução.

De-Extinction: regresso de animais há muito perdidos?

A empresa usa o termo “De-Extinction” para descrever a tentativa de reestabelecer espécies extintas - ou quase desaparecidas - com ferramentas biotecnológicas modernas. Na prática, isto pode assumir formas muito distintas: nalguns casos, o resultado aproxima-se mais de “espécies substitutas”, geneticamente muito próximas do original; noutros, trata-se de uma aproximação gradual através de cruzamentos e edição genética.

As amostras crioconservadas poderiam servir de ponto de partida. Em teoria, é possível obter células estaminais a partir de células congeladas e, daí, gerar mais tarde células germinativas ou até organismos completos. Estes métodos ainda estão numa fase inicial, embora o progresso esteja a acelerar.

Ao mesmo tempo, esta abordagem levanta questões de fundo: quem decide que espécies devem voltar? O que acontece se uma espécie reintroduzida perturbar ecossistemas existentes? E como evitar que soluções técnicas sejam interpretadas como substitutas da acção política?

Oportunidades, riscos e questões em aberto

Especialistas apontam tanto um potencial significativo como limites claros. Entre as oportunidades incluem-se:

  • bases de dados genéticas mais completas para espécies ameaçadas,
  • hipóteses de apoiar populações extremamente pequenas com programas de reprodução orientados,
  • novos conhecimentos sobre capacidade de adaptação e resistência a doenças,
  • possibilidade de estabilizar ecossistemas através de “espécies-chave”.

Do outro lado, persistem obstáculos importantes:

  • Do ponto de vista técnico, os métodos de De-Extinction continuam a ser muito caros e incertos.
  • Os enquadramentos legais para libertar estes animais na natureza estão longe de estar definidos.
  • Existe o risco de um sentimento enganador de segurança: “Se o congelamos, então podemos destruí-lo.”

Para que estas tecnologias sejam usadas de forma responsável, são necessárias regras claras, supervisão independente e acordos internacionais. Afinal, o material genético de uma espécie é também parte do património natural global.

O que significam conceitos como genoma e biodiversidade

Para interpretar iniciativas deste tipo, vale a pena clarificar alguns termos. “Genoma” é o conjunto total da informação hereditária de um organismo. Ele influencia características de um animal, a sua aparência, a sua robustez e a forma como reage ao ambiente.

Por sua vez, biodiversidade é mais do que contar espécies. Inclui:

  • a variedade de espécies,
  • a diversidade genética dentro de cada espécie,
  • a diversidade de habitats - da floresta tropical aos recifes de coral.

Quando a diversidade se perde em qualquer um destes níveis, o sistema como um todo torna-se mais frágil. É precisamente aqui que entram os arquivos genéticos: preservam, pelo menos em parte, essa diversidade invisível contida nas sequências de ADN.

Como a alta tecnologia e a conservação tradicional se podem complementar

No dia-a-dia de quem trabalha no terreno, as BioVaults pouco mudam para já: continuam a combater a caça furtiva, a reforçar áreas protegidas, a plantar árvores ou a acompanhar programas de reintrodução. Ainda assim, com o tempo, os dados genéticos podem ganhar mais peso nas decisões.

Exemplos práticos incluem:

  • seleccionar animais para programas de reprodução de modo a reduzir a consanguinidade,
  • reforçar populações com variantes genéticas raras e úteis,
  • analisar como as espécies se adaptam ao calor ou à escassez de água.

À primeira vista, a visão da Colossal Biosciences parece uma aposta arrojada contra a extinção. Mas também evidencia até que ponto a biotecnologia está a entrar em territórios que durante muito tempo pareceram leis imutáveis da natureza - como o desaparecimento definitivo de uma espécie. Se esta aposta resulta ou não dependerá não só de laboratórios e tanques de ultracongelação, mas, sobretudo, da disponibilidade humana para proteger os habitats dessas espécies.


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