Os rios tropicais, quentes, fervilham de peixes de uma forma que os cursos de água frios do norte raramente conseguem igualar.
E há outra regra que costuma parecer quase infalível: quanto maior é a bacia hidrográfica, mais longa tende a ser a lista de espécies - e o calor dos trópicos empurra essa lista ainda mais para cima.
Um levantamento global confirmou este padrão em mais de uma centena de sistemas fluviais, recorrendo ao ADN que vai à deriva na água.
Mas, ao mesmo tempo, os investigadores identificaram o ponto a partir do qual essa tendência começa a perder força.
Contar peixes sem redes
Cada peixe deixa rasto. Células da pele, escamas e dejectos soltam-se e seguem com a corrente, e cada fragmento transporta um excerto do ADN do animal.
Foi precisamente essa “assinatura” flutuante que o novo estudo procurou ler.
A monitorização com ADN ambiental dispensa que os cientistas toquem - ou sequer vejam - um animal vivo.
Na prática, basta recolher uma amostra de água, extrair o ADN e comparar as sequências com uma base de dados de espécies de peixes já conhecidas.
Sob coordenação de cientistas da Universidade de Zurique (UZH) e da Universidade de Yunnan, na China (YNU), a equipa reuniu amostras de 113 sistemas fluviais.
As recolhas vieram de 2 000 locais distribuídos por cinco continentes.
O primeiro autor do estudo, Yan Zhang, investigador de pós-doutoramento, integrou toda a informação para construir um retrato à escala mundial.
O que a água revela
A partir do ADN ambiental, a equipa estimou quatro dimensões distintas da biodiversidade.
Isto é relevante porque o simples número de espécies, por si só, deixa de fora muito do que determina o funcionamento real de um rio.
Uma dessas dimensões é a mais directa: quantos tipos de peixe existem numa determinada área.
Outra pergunta se estão representados diferentes papéis ecológicos e se há mais do que uma espécie capaz de desempenhar cada função - de modo que a perda de uma única espécie não crie um vazio importante.
A terceira dimensão avalia quão distantes estão os peixes na árvore da vida, distinguindo um rio dominado por parentes próximos de outro que inclui linhagens antigas.
A última mede a variedade genética dentro de cada espécie.
Porque é que os rios quentes não são iguais
Que rios maiores sustentam mais vida era o esperado. À medida que uma bacia de drenagem aumenta, tende a reunir mais espécies.
O que surpreendeu foi o peso da temperatura neste resultado.
Em zonas quentes, a subida foi muito mais acentuada. Com bacias maiores, as espécies acumulavam-se rapidamente em rios tropicais; já em rios de clima frio, o ganho de espécies acontecia a um ritmo bem mais lento.
Ao que tudo indica, o calor facilita a concentração de diversidade à medida que os rios crescem - até certo limite.
Trabalhos anteriores já tinham sugerido esta ligação ao clima, mas nunca com um método aplicado de forma uniforme a tantos rios.
Ao ler o mesmo tipo de ADN em todo o lado, a equipa conseguiu comparar, em condições equivalentes, um curso de água tropical e outro polar.
A impressão digital humana
Depois, o sinal humano apareceu nos dados. Onde a actividade humana era mais intensa, a vantagem típica dos climas quentes diminuía e a acumulação íngreme de vida, que o calor normalmente permite, tornava-se mais plana.
Até esta análise, ninguém tinha separado, num único quadro consistente e à escala global, o efeito do clima da pressão humana sobre os rios do mundo.
Estradas, cidades, agricultura e barragens entram todos na categoria de “pegada humana”, e o estudo não consegue atribuir as perdas a um único factor em particular.
“Verificámos que os efeitos da actividade humana variaram entre regiões, o que sublinha a necessidade de medidas de protecção adaptadas localmente”, disse Florian Altermatt, professor de ecologia aquática na Universidade de Zurique.
Os peixes de água doce já estão entre os animais mais pressionados do planeta, com cerca de um quarto das espécies de água doce ameaçadas de extinção.
Ao que parece, a pressão humana não afecta apenas rios isolados: chega a alterar as regras gerais que determinam onde a vida se concentra.
As várias faces da diversidade
Essa pressão não atingiu de forma igual as quatro dimensões de biodiversidade.
Três indicadores - o número de espécies, a diversidade de “funções” ecológicas e a variedade genética dentro das espécies - sofreram os impactos mais fortes nas maiores bacias.
Detectar os declínios mais acentuados precisamente nesses grandes sistemas contraria a intuição de que “maior” significa estar melhor protegido.
Já a métrica que reflecte quanta história evolutiva um rio conserva seguiu o sentido oposto: foi nos pequenos cursos de cabeceira que mais se perdeu, com um alívio progressivo em bacias maiores.
Nesses ribeiros muitas vezes ignorados, o desaparecimento de uma única linhagem pode apagar milhões de anos de evolução que não existem noutro lugar.
Só ao avaliar, em simultâneo, várias dimensões de biodiversidade é que este contraste se tornou evidente.
Uma ferramenta para protecção
O que a equipa demonstrou é robusto: um método repetível, baseado na leitura de ADN retirado directamente da água de rios em todo o mundo, consegue acompanhar várias dimensões da vida dos peixes ao mesmo tempo.
Além disso, a abordagem permite distinguir a influência do clima da pressão exercida pela actividade humana.
Os levantamentos tradicionais são lentos e dispendiosos, o que deixa as regiões mais remotas e ricas em espécies com pouca vigilância.
Em comparação, uma amostra de água recolhe-se depressa e é simples de obter em milhares de locais. Assim, torna-se viável acompanhar mudanças na biodiversidade à escala global.
Uma monitorização mais rápida também ajuda a cumprir metas internacionais assumidas por governos, incluindo o compromisso de travar a perda de biodiversidade nesta década.
Para Altermatt, a mudança mais profunda é a que está a acontecer na própria forma de fazer ciência.
A investigação em biodiversidade está a transformar-se numa ciência de dados: ao juntar evidência a esta escala, tornam-se visíveis padrões que nenhum levantamento isolado conseguiria alcançar.
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