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Como evoluem os hábitos nos animais

Raposa, rato, macaco e um pássaro observam um dispositivo de madeira e um portátil com desenho de cérebro.

Are habits beneficial to animals?

Durante mais de um século, a psicologia tem olhado para os hábitos humanos: quando surgem, porque se mantêm e como se quebram. Só que, nessa conversa, os hábitos dos animais quase nunca entram.

Raramente alguém se pergunta se um pássaro cantor ou um esquilo terrestre cria hábitos “com um propósito”. Um grupo de investigadores decidiu pôr essa hipótese à prova.

Construíram simulações evolutivas para testar se criar e largar hábitos poderia dar aos animais uma vantagem de sobrevivência mensurável.

Os resultados vão contra a forma como a área tendia a pensar sobre o tema.

A investigação sobre hábitos nunca foi pouco ambiciosa quando se trata de pessoas. A grande lacuna, até há pouco tempo, era do lado animal – ninguém tinha testado se a capacidade de formar e quebrar hábitos traz uma vantagem evolutiva.

Olof Leimar, professor de zoologia na Universidade de Estocolmo, liderou o trabalho com colegas de universidades no Reino Unido e na Alemanha.

O objetivo era perceber se formar e quebrar hábitos representa um tipo de flexibilidade comportamental que a seleção natural favoreceria.

Quando uma ação se torna automática, liberta atenção que o cérebro, de outra forma, gastaria a decidir o passo seguinte.

Essa atenção “extra”, raciocinou a equipa de Leimar, pode ser desviada para algo que ajude o animal a manter-se vivo.

Building a virtual forager

Para testar a ideia, os investigadores criaram milhares de animais digitais e deixaram-nos evoluir ao longo de centenas de milhares de gerações.

Cada um enfrentava um problema familiar: encontrar alimento enquanto se mantinha alerta ao que o pudesse comer.

Cada criatura tinha oito fontes possíveis de comida, cada uma com uma recompensa diferente e desconhecida.

Separar o que era bom do que era mau implicava prová-las uma a uma – o lado de tentativa e erro da procura de alimento que exige atenção total. Um animal de cabeça baixa numa zona de alimentação é um alvo fácil.

É por isso que tantas espécies comem menos e vigiam mais quando há predadores por perto.

Um animal virtual que conseguisse fixar-se numa fonte de alimento fiável, automatizando essa escolha e libertando atenção, tinha uma vantagem real sobre outro que continuasse a experimentar indefinidamente.

Animal habits free up attention

Assim que um hábito se estabelecia, o animal deixava de precisar de pensar onde comer a seguir. A atenção libertada podia ser usada diretamente para procurar sinais de perigo.

Este vaivém entre explorar opções novas e assentar numa opção conhecida é um problema clássico de procura de alimento que os investigadores estudaram em muitas espécies.

O ganho foi impressionante. Os forrageadores virtuais que aprenderam quando formar e quebrar hábitos sobreviveram cerca de 85% das suas “vidas” simuladas, comparando com aproximadamente 62% daqueles que continuaram a explorar sem parar.

A ingestão de alimento quase não desceu. Os animais tiveram quase menos um quarto de mortes, com praticamente nenhum custo nutricional.

A surprising twist

É aqui que o modelo gerou algo inesperado. Se explorar não aumentasse o risco de ser comido, poderia parecer lógico que os hábitos nunca evoluiriam. Aconteceu o contrário.

Até este estudo, isso contrariava a intuição dominante de que os hábitos só compensam quando a distração é perigosa.

A equipa sugere que, quando um animal está a ter bons resultados, continuar a explorar arrisca levá-lo a algo pior, pelo que o hábito pode proteger um bom desfecho.

Tratam isto como uma explicação plausível, não como um mecanismo observado diretamente.

Mesmo sem pressão de predação, os hábitos demoraram mais a fixar-se e trouxeram ganhos menores. A ameaça de ser apanhado tornou tudo mais rápido e mais marcado.

When habit formation sped up

Uma fonte de alimento com recompensas previsíveis permitia que os animais virtuais entrassem rapidamente numa rotina. Recompensas “ruidosas”, imprevisíveis, prolongavam esse processo em cerca de três vezes.

Os psicólogos já tinham observado o mesmo padrão em pessoas, e o modelo evolutivo replicou-o.

A formação de hábitos também acelerou quando a vantagem de fazer “multitarefa” era maior – quando libertar atenção trazia uma redução mais grande no risco de predação, os animais fixavam a rotina mais depressa.

Esta ligação parece óbvia em retrospetiva, mas ninguém a tinha testado antes.

Alimentar-se e vigiar o perigo competem entre si nos animais reais. Este compromisso foi confirmado, estudo após estudo.

Remover essa tensão, mesmo que só por algum tempo, afinal vale bastante.

When habits backfire

Os hábitos nem sempre são a melhor escolha. Quando o ambiente mudava depressa demais e prestar atenção a novas fontes de alimento não trazia um benefício real de sobrevivência, o modelo fez evoluir animais que dispensavam hábitos por completo.

Quebrar um hábito mostrou-se tão importante quanto formá-lo. Os forrageadores virtuais aprenderam a procurar sinais claros de mudança ambiental – uma nova estação, uma mudança de local – e a abandonar a rotina assim que esses sinais apareciam.

Quando não havia nenhum sinal disponível, uma sequência de refeições dececionantes podia tirar o animal do hábito.

Esse mecanismo de recurso funcionava, mas com menos fiabilidade, sobretudo quando as recompensas alimentares já eram imprevisíveis à partida.

Evolution of animal habits

O trabalho estabelece o que faltava à área: um caso evolutivo concreto para explicar porque é que formar e abandonar hábitos seria favorecido pela seleção natural numa grande variedade de condições ecológicas.

Os ecólogos comportamentais passam a ter também uma ferramenta prática. Medindo quão depressa uma criatura reage a um predador “modelo”, os investigadores podem perceber se se formou um hábito de procura de alimento.

Isto cria um sinal testável e mensurável que não existia antes de este estudo fornecer a estrutura.

Back to our routines

A Dra. Sasha Dall é coautora do estudo no Centre for Ecology and Conservation, na Universidade de Exeter.

“Do café da manhã aos caminhos habituais para casa, os hábitos são muitas vezes vistos como comportamentos automáticos e sem pensamento. Mas o nosso estudo sugere que os hábitos podem ter evoluído por uma boa razão: ajudam os animais a sobreviver”, afirmou a Dra. Dall.

O “mecanismo” por trás da formação de hábitos provavelmente ajudou os nossos antepassados a navegar um mundo em que os predadores eram uma realidade constante.

Construídos para mudanças ambientais lentas, esses hábitos podem não estar bem ajustados à vida moderna, onde o mundo muda muito mais depressa do que antigamente.

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