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Reciprocidade e “amizade” nos estorninhos-superbos (Lamprotornis superbus), segundo um estudo da Universidade de Cornell

Ninhos de aves coloridas num tronco de árvore com filhotes a serem alimentados numa savana com pessoa a observar.

A capacidade de cooperar e agir em conjunto não é exclusiva dos seres humanos; na verdade, é uma das estratégias mais eficazes de sobrevivência colectiva em toda a árvore da vida - desde as trocas entre simbiontes até aos gestos de entreajuda entre desconhecidos na rua.

Nesse quadro de cooperação, pode caber algo a que chamamos amizade: laços sociais fortes e duradouros entre indivíduos não aparentados da mesma espécie. Em animais não humanos, porém, reconhecer isso com segurança é difícil - mas investigadores acabam de identificar, em aves, um padrão que se parece muito com esse tipo de relação.

Cooperação, laços sociais e o que pode parecer “amizade”

Em espécies sociais que vivem em comunidades grandes, colaborar é essencial. É frequente ver ajuda entre familiares, mas alguns animais vão além dos vínculos de parentesco.

Por exemplo, vacas podem preferir a companhia de certos parceiros não aparentados. Golfinhos machos podem estabelecer laços sociais assentes em competências partilhadas. Morcegos-vampiro mostram partilha recíproca de alimento. E, naturalmente, primatas não humanos constroem ligações sociais duradouras. Este tipo de comportamento social fora do âmbito familiar já foi observado até em gralhas.

20 anos de observações de estorninhos-superbos (Lamprotornis superbus)

Mais de duas décadas de registos sobre estorninhos-superbos (Lamprotornis superbus), analisados por uma equipa liderada pela bióloga Alexis Earl, da Universidade de Cornell, revelam exemplos claros de ajuda recíproca: prestar assistência a membros não aparentados do bando, com a expectativa de que o favor seja devolvido mais tarde.

"Esta é a primeira evidência realmente sólida de reciprocidade numa ave com reprodução cooperativa", disse à ScienceAlert o ornitólogo Dustin Rubenstein, também da Universidade de Cornell, "e uma das provas mais fortes de que a reciprocidade acontece fora dos humanos".

Demonstrar estas relações em animais selvagens, no entanto, está longe de ser simples. O trabalho da equipa baseou-se em observações de estorninhos em estado selvagem na África Oriental, onde os bandos variam entre sete e 60 indivíduos.

Estes pássaros são conhecidos como reprodutores cooperativos: indivíduos que não são os pais ajudam a criar as crias. O conjunto de dados, recolhido entre 2002 e 2021, abrange nove bandos e 40 épocas de reprodução.

Para dar contexto às observações, os investigadores recolheram também ADN de parte das aves, de modo a apurar o grau de parentesco genético entre elas.

Reciprocidade no ninho: quem ajuda quem - e porquê

A partir das observações, os cientistas registaram episódios de assistência, quando as aves eram vistas a levar alimento para um ninho ou a ajudar na defesa do ninho. Em seguida, identificaram os indivíduos envolvidos em cada acto de ajuda.

Como seria de esperar, a maior parte da ajuda recíproca surgiu entre indivíduos aparentados. Ainda assim, a reciprocidade não se ficou pelos núcleos familiares dentro do bando.

"Outros estorninhos, normalmente imigrantes que entram no grupo, formam estas relações sociais fortes com indivíduos não aparentados e retribuem a ajuda ao longo do tempo", afirmou Rubenstein. "Esses imigrantes não têm familiares com quem possam cooperar na reprodução, por isso têm de construir novas relações sociais ao juntarem-se ao grupo".

Segundo os autores, este resultado contraria a suposição de que as aves se ajudam nas responsabilidades parentais apenas por altruísmo associado à selecção de parentesco. Mesmo quando existem parentes disponíveis para apoiar, algumas aves não aparentadas ajudam-se mutuamente, alternando entre os papéis de progenitor e de ajudante de uma época de reprodução para a seguinte.

Rubenstein observou ainda que as aves parecem criar laços mais próximos apenas com alguns indivíduos específicos, o que sugere que essas relações não são aleatórias, mas escolhidas de forma deliberada. Provavelmente não dá para ir tão longe ao ponto de lhes chamar "melhores amigos" - isso poderia ser antropomorfismo -, mas também não é uma comparação totalmente descabida.

"Penso que este estudo mostra que as aves cooperam por muitas razões diferentes. Os estorninhos precisam de ajudantes para criar a descendência. Podem recrutar parentes, que beneficiam dos genes que partilham com as crias, ou podem recrutar indivíduos não aparentados através da formação de laços sociais de longo prazo", disse Rubenstein.

"Isto pode ser considerado análogo a formar uma amizade".

A investigação foi publicada na Nature.

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