As atrocidades na esquadra do Rato
Há semanas que não consigo afastar da mente as barbaridades praticadas na esquadra do Rato por vários agentes da PSP. O rol de horrores chega a revirar o estômago aos mais resistentes: agressões brutais (incluindo com luvas de boxe), enforcamentos com um cinto, bastões extensíveis introduzidos no ânus, humilhações de toda a espécie. Importa enumerá-las para que se compreenda a escala da crueldade.
E é igualmente importante lembrar que as vítimas não eram aleatórias: foram escolhidas a dedo - pessoas em situação de sem-abrigo, toxicodependentes e imigrantes. Gente particularmente vulnerável, que em teoria teria menos capacidade de denunciar e criar problemas. Uma cobardia predatória sem paralelo.
Vídeos, WhatsApp e a cumplicidade entre colegas
Como se não bastasse, os registos em vídeo da tortura circulavam em grupos de WhatsApp onde estavam vários agentes, exibidos como se fossem troféus de feitos “gloriosos”, entre risos, chacota e cumplicidade de colegas.
"Uma coisa do outro Mundo", nas palavras do próprio Luís Neves, que tem dado sinais de firmeza perante os prevaricadores.
A resposta institucional: PSP, GNR e Administração Interna
Em dois meses, o ministro da Administração Interna expulsou 11 agentes da PSP e nove militares da GNR por "comportamentos desviantes". A ideia transmitida é inequívoca - e indispensável: quem desonra a farda que enverga não pode permanecer na polícia.
Sobre este caso em concreto, foram já detidos 24 agentes da PSP, por suspeitas de terem torturado cidadãos vulneráveis entre 2024 e 2025, tanto na esquadra do Rato como na do Bairro Alto.
O polícia que investigou e denunciou
Há, porém, um outro detalhe desta história que me tem deixado a pensar. O jornal "Expresso" relatou que, em 2024, quando começaram a surgir os primeiros rumores, um operacional decidiu apurar por iniciativa própria o que se passava e acabou por denunciar a situação aos seus superiores hierárquicos.
Sobre essa pessoa, sabe-se muito pouco. Não conhecemos o rosto, o nome, o trajecto, nem o que a moveu. E talvez nunca venhamos a saber, até por razões de segurança.
Ainda assim, não consigo evitar sentir uma admiração funda por esse polícia que, ao suspeitar de condutas indignas dentro da sua própria casa, teve a audácia de ir atrás, investigar e denunciar. Ao contrário de tantos outros - desde logo os que integravam os tais grupos de WhatsApp -, não permitiu que o corporativismo e os alegados pactos de silêncio se sobrepusessem à dignidade humana e à obrigação profissional.
Também não consigo deixar de sublinhar a coragem de pôr o dedo na ferida, mesmo com o risco evidente de vir a sofrer represálias.
E é impossível não o ligar aos versos incontornáveis de Manuel Alegre, em "Trova do vento que passa": "Mesmo na noite mais triste, em tempo de servidão, há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não."
Obrigada, caro polícia. Por mostrar do que é feita a bravura e por ser exemplo para quem honra a farda. Muito lhe devemos.
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