Um complexo monumental construído pelos maias há cerca de 3.000 anos foi concebido a partir de um mapa do cosmos, de acordo com novas observações no terreno.
Aguada Fénix como cosmograma: o monumento e o “mapa do cosmos”
Um levantamento detalhado do sítio de Aguada Fénix mostra que o monumento não só é muito maior do que as primeiras medições indicavam - organizado em forma de cruz, com eixos de 9 e 7.5 quilómetros (5.6 e 4.7 milhas) - como também foi pensado como um cosmograma, ou seja, uma arquitectura que simboliza o cosmos.
O que torna esta estrutura ainda mais singular é a ausência, no local, de sinais típicos de desigualdade social, como residências de elites ou esculturas de governantes.
Este conjunto de evidências aponta fortemente para a ideia de que sociedades igualitárias conseguiam realizar construções monumentais sem recorrerem a força coerciva exercida por uma hierarquia social estratificada e liderada por um rei.
Como a descoberta foi feita: LiDAR, Tabasco e novas escavações
A identificação de Aguada Fénix através de levantamentos LiDAR, no estado mexicano de Tabasco, perto do Golfo do México, foi notável por vários motivos.
O primeiro foi a sua dimensão: mesmo usando a estimativa inicial mais conservadora - 1.4 quilómetros ao longo do eixo mais comprido - já se tratava do maior sítio maia alguma vez encontrado. Além disso, ao contrário de muitas estruturas perdidas da Mesoamérica, da América Central e da América do Sul, não estava escondido na floresta, mas sim sob uma zona habitada. A isto somava-se a já referida falta de indícios de hierarquia social.
Entretanto, uma equipa de arqueólogos liderada por Takeshi Inomata, da Universidade do Arizona, realizou novas operações LiDAR, trabalho de campo e escavações. Os resultados indicam que Aguada Fénix é muito mais vasto e intricado - não apenas na sua extensão física, mas também no que revela sobre as pessoas que o construíram entre 1050 e 700 a.C.
"A par do apelo de cerimónias colectivas, banquetes e troca de bens, a construção de um cosmograma, materializando a ordem do Universo, provavelmente forneceu uma justificação para que um grande número de pessoas participasse sem força coerciva", escrevem os investigadores no artigo.
"O desenvolvimento de Aguada Fénix exemplifica as capacidades de organização humana sem desigualdade marcante, mas também sugere os desafios que construtores mais antigos enfrentaram."
Estrutura em cruz, eixos processionais e obras hidráulicas
Ao analisarem a implantação do monumento, os investigadores concluíram que se trata de uma espécie de cruz encaixada, com eixos longos que convergem para o núcleo do monumento. Esse núcleo, situado num planalto artificial, inclui no centro duas fossas em forma de cruz, igualmente encaixadas.
Cada um dos eixos longos era formado por um corredor e por um par de aterros-vias. O corredor foi escavado no solo, enquanto os aterros-vias foram construídos acima do nível do terreno, um de cada lado. O corredor mais extenso, que se prolonga para noroeste, mede 6.3 quilómetros. Os autores avançam a hipótese de que estas passagens teriam sido usadas em procissões rituais de entrada e saída do centro cerimonial do monumento.
Na zona do eixo ocidental, onde a estrutura atravessa a Laguna Naranjito, os construtores iniciaram um sistema de canais que poderá ter reflectido a importância ritual da água. Esses canais ficaram por concluir, o que sugere que os construtores encontraram limites, tanto ao nível das competências técnicas como da capacidade de mobilizar e coordenar a construção.
Pigmentos e simbolismo direccional mais antigo conhecido na Mesoamérica
Foi no centro cerimonial de Aguada Fénix, no Planalto Principal, que surgiram alguns dos achados mais marcantes das escavações. Exactamente no ponto central das fossas em cruz encaixadas, os arqueólogos localizaram depósitos de pigmento num esconderijo especial, dispostos segundo uma ordem direccional. O pigmento azul de azurite foi colocado a norte; a malaquite verde, a leste; e o ocre amarelo com goethite, a sul.
Este achado constitui o exemplo mais antigo conhecido de simbolismo mesoamericano das cores por direcção - um motivo que mais tarde apareceria em cosmogramas maias, associando os pontos cardeais do mundo aos elementos codificados nas cores.
"Já sabíamos que há cores específicas associadas a direcções específicas, e isso é importante para todos os povos mesoamericanos, até para os povos nativos da América do Norte", afirma Inomata.
"Mas nunca tínhamos pigmento real colocado desta forma. Este é o primeiro caso em que encontrámos esses pigmentos associados a cada direcção específica. Por isso, foi muito entusiasmante."
Dentro destas fossas, os investigadores encontraram também oferendas de conchas marinhas e peças esculpidas em jade e pedra verde - crocodilos, aves e até uma mulher a dar à luz - todas dispostas na mesma forma de cruz. Este padrão também parece alinhar-se com a lógica do cosmograma, com as conchas colocadas nos lados a assinalar a água.
De acordo com os autores, estes resultados trazem pistas relevantes tanto sobre as limitações como sobre as possibilidades da organização humana. Por um lado, a construção ficou inacabada, apesar de Aguada Fénix poder ter sido utilizado durante centenas de anos.
Por outro, a escala do monumento é absolutamente impressionante, exigindo uma estimativa de 10.8 million dias-pessoa para construir apenas o Planalto Principal, além de mais 255,000 dias-pessoa para os canais e a barragem.
"A construção de um cosmograma que representa a ordem do Universo e do tempo provavelmente motivou muitas pessoas a participar nas actividades de construção sem serem coagidas", escrevem os investigadores.
Inomata desenvolve esta ideia: "As pessoas têm esta ideia de que certas coisas aconteceram no passado - que havia reis, e que os reis construíram as pirâmides, e por isso, nos tempos modernos, é preciso gente poderosa para alcançar grandes coisas", diz.
"Mas quando se vêem os dados reais do passado, não era assim. Portanto, não precisamos de uma desigualdade social muito grande para alcançar coisas importantes."
O artigo foi publicado na Science Advances.
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