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100 dias de solidão em Milagres, Leiria: autarcas após a tempestade “Kristin”

Voluntária e idoso a cumprimentarem-se numa aldeia afetada por desastre, com destroços e igreja ao fundo.

100 dias depois da tempestade “Kristin” em Milagres, Leiria

Já passaram 100 dias desde o dia trágico em que a presidente da Junta de Freguesia de Milagres, no concelho de Leiria, foi convocada para a primeira reunião destinada a fazer o ponto de situação dos enormes estragos deixados pela tempestade “Kristin”. Eram seis da tarde e, ao atravessar uma estrada marcada pela destruição, Vânia Sousa ligou o rádio - o único canal de comunicação que, então, ainda funcionava.

O que ouviu apanhou-a desprevenida: o noticiário falava apenas do Benfica e do jogo da Liga dos Campeões. Essa sensação de abandono não a largou até hoje; perante uma devastação de grande escala, a região parecia ter ficado entregue a si própria.

Resposta no terreno: Vânia Sousa, Gonçalo Lopes e os autarcas

Apesar disso, Vânia Sousa não se rendeu. Com a sua equipa e com amigos, avançou de porta em porta. Durante semanas, foi procurar notícias de cada pessoa; encaminhou apoios e coordenou, no terreno, a ajuda de centenas de voluntários. Pelo caminho, encontrou uma solidariedade que soava a outros tempos e deparou-se com situações de quase abandono que nunca imaginara existirem.

Recorreu também ao presidente da Câmara de Leiria, que nunca lhe faltou com tempo nem com apoios. Vânia Sousa e Gonçalo Lopes não são exceção: representam um grupo de autarcas que demonstrou como, quando tudo arde (ou o vento leva), o poder local continua a ser uma âncora. São eles que sustentam a recuperação, que garantem alojamento a quem dele precisa, que abraçam quando isso é mais urgente.

“Cem Anos de Solidão” e a sensação de abandono

Em “Cem Anos de Solidão”, Gabriel García Márquez narra um século da história de uma cidade e transforma-a numa metáfora da solidão da América Latina pós-colonial: países já independentes, mas deixados à sua sorte, presos em ciclos de violência, exploração e esquecimento - “sem segunda oportunidade na terra”, como escreve o Nobel.

Nestes nossos 100 dias de solidão, em que também houve tragédias e uma persistente sensação de abandono, sobressai, contudo, o valor humano dos autarcas, tantas vezes esquecidos. É graças a eles que existe ali “uma segunda oportunidade na terra” - um serviço inestimável para todos nós, de norte a sul do país. A todos e a cada um deles, o nosso obrigado!

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