Poucos assuntos dividem tanto quem vive com gatos como a pergunta: cortar as unhas - sim ou não? Aquilo que parece uma simples rotina de higiene pode, para o felino, ser doloroso, stressante e, no limite, ter impacto duradouro na sua vida. A chave está em perceber se estamos apenas a aparar a pontinha ou a interferir com a função natural do gato.
Aparar as unhas ou remover as unhas: uma diferença enorme
No dia a dia, muita gente fala de forma imprecisa sobre “cortar unhas”. Do ponto de vista técnico, porém, há duas realidades totalmente diferentes:
- Aparar suavemente a ponta da unha - uma espécie de “manicure”, quando as unhas ficam demasiado compridas.
- Remoção cirúrgica das unhas (onicectomia) - uma intervenção drástica em que são removidas partes dos ossos dos dedos.
A cirurgia para remover as unhas por completo é proibida em muitos países, incluindo Alemanha, Áustria e Suíça - e por boas razões. O gato não perde apenas as unhas: perde, na prática, uma parte relevante dos próprios dedos.
"Uma intervenção cirúrgica nos ossos dos dedos retira ao gato a capacidade de andar, trepar e defender-se de forma normal."
As consequências a longo prazo podem incluir:
- deformações nos membros anteriores
- dores crónicas ao andar
- sobrecarga dos ombros e da coluna
- alterações comportamentais, como agressividade ou eliminação fora da caixa
Isto não é “cuidado” nem “higiene”: é mutilação. Quando alguém fala em “remover” unhas, está a referir-se a um procedimento cruel - não a um simples aparar.
Podemos mesmo cortar as unhas aos gatos?
A resposta curta é: por vezes sim, mas muitas vezes é melhor não. As unhas não são um acessório inútil; são ferramenta e arma.
O gato precisa delas para:
- trepar e manter o equilíbrio
- marcar território e arranhar superfícies adequadas
- se defender, sobretudo no caso de gatos com acesso ao exterior
- alongar e esticar a musculatura
Em gatos saudáveis que arranham com frequência, as unhas costumam gastar-se sozinhas o suficiente. Nesses casos, cortar regularmente é desnecessário e pode criar mais stress do que benefícios.
Quando pode fazer sentido cortar as unhas
Há situações em que aparar cuidadosamente as pontas pode ser útil - ou até necessário:
- gatos seniores, que se mexem menos e quase já não arranham
- gatos de interior com pisos macios e poucas opções de arranhar que sejam estáveis
- gatos cujas unhas começam a enrolar e podem vir a crescer para dentro das almofadas
- tutores com pele muito sensível, quando o gato arranha sem querer com frequência
Em animais idosos ou doentes, uma médica veterinária consegue verificar rapidamente se existe necessidade clínica. Se as unhas estiverem claramente demasiado compridas ou já a curvar em direcção às almofadas, “esperar para ver” raramente é a melhor solução.
Quando é melhor não pegar na tesoura
Há bons motivos para não cortar unhas por hábito ou apenas por razões estéticas:
- em gatos jovens e saudáveis com acesso ao exterior - precisam das unhas no seu território
- em gatos muito medrosos, que encaram qualquer toque nas patas como ameaça
- quando faltam boas opções de arranhar e o problema real está no ambiente
"Se os gatos arranham os móveis, isso não é um 'defeito de carácter', mas um problema de maneio: faltam locais adequados para arranhar ou estão colocados em sítios pouco atractivos."
Como cortar as unhas do seu gato correctamente
Se, depois de falar com a veterinária, decidir aparar as unhas, é essencial fazê-lo com cuidado. Pressa e força só tornam tudo pior para todos.
A preparação certa
Antes do primeiro corte, vale a pena treinar um pouco. Assim, a experiência tende a ser muito mais tranquila:
- habituar o gato, com regularidade, a ser tocado nas patas e nos dedos
- escolher apenas momentos calmos, por exemplo após comer ou brincar
- comprar um corta-unhas próprio para animais (não uma tesoura de unhas para humanos)
- garantir boa iluminação, para distinguir bem a parte “viva” da unha
Muitos tutores usam reforço com petiscos: toca-se rapidamente na pata, recompensa-se e volta-se a deixar o gato em paz. Desta forma, o animal não associa a rotina apenas a stress.
Passo a passo: aparar as unhas sem drama
Durante o corte em si, estes passos ajudam:
- colocar o gato numa posição em que se sinta seguro - ao colo ou numa superfície antiderrapante
- segurar a pata dianteira e, com uma pressão suave na almofada do dedo, fazer a unha sair
- cortar apenas a ponta transparente; nunca avançar para a parte rosada (onde passam nervos e vasos sanguíneos)
- mais vale cortar menos e repetir, se necessário, algumas semanas depois
- fazer uma pausa entre patas e, no caso de gatinhos, manter as sessões particularmente curtas
"Se surgir qualquer dúvida, é melhor parar e pedir a um veterinário ou a uma auxiliar de veterinária que mostre como fazer o corte no sítio certo."
Se, na primeira vez, se sentir inseguro, pode fazer todo o procedimento na clínica veterinária e aproveitar para observar com atenção.
Perigos de um corte mal feito
Um corte no ângulo errado pode tornar-se rapidamente desconfortável ou doloroso. Se a parte rosada for atingida, há sangramento e o gato pode associar a experiência a medo.
Possíveis consequências de um corte feito sem técnica:
- reacções de defesa intensas, com arranhões ou mordidelas
- recusa futura de deixar tocar nas patas
- inflamações, caso bactérias entrem pela unha lesionada
- sobrecargas, se se cortar demasiado e o gato adoptar posturas de compensação por dor
Também do ponto de vista emocional um episódio traumático pode deixar marcas. Alguns animais passam a desconfiar de qualquer rotina de cuidados - desde escovar até ir ao veterinário.
Como os arranhadores e o ambiente evitam problemas
Muitos conflitos à volta das unhas seriam menores se a casa fosse mais adequada às necessidades do gato. O felino não arranha por maldade: arranha porque tem essa necessidade.
Podem ajudar, por exemplo:
- vários arranhadores estáveis em divisões diferentes
- pranchas de arranhar perto de locais de descanso preferidos
- superfícies verticais e horizontais, consoante a preferência do gato
- estímulos como erva-gateira ou alguns petiscos no arranhador
Quem quer proteger os móveis pode cobrir zonas mais vulneráveis com tapetes de arranhar. Assim, o gato aprende onde é bem-vindo descarregar energia.
O que as médicas veterinárias dizem sobre unhas e saúde
Veterinários observam problemas de unhas com frequência em gatos muito obesos ou com pouca actividade. Movem-se pouco, arranham menos e as unhas continuam a crescer sem desgaste natural.
Algumas doenças, como a artrose, também reduzem o movimento. Nesses casos, as unhas podem alongar demasiado e aumentar o risco de crescerem para dentro das almofadas. A médica veterinária avalia então se é necessário um aparar regular e profissional.
"O comprimento das unhas é um factor de saúde - sobretudo em gatos idosos, com excesso de peso ou doentes, convém verificar as patas com regularidade."
Muitas clínicas disponibilizam-se para ensinar aos tutores como identificar unhas demasiado compridas e como agir em casa se surgir uma urgência.
Como reduzir o stress ao cortar as unhas
Se tiver de aparar com alguma regularidade, convém tornar a rotina o mais confortável possível. Ajuda criar rituais: o mesmo local, a mesma base, a mesma voz calma.
Alguns gatos cooperam melhor depois de uma sessão de brincadeira mais intensa ou após comerem. Outros precisam de uma segunda pessoa que ajude a segurar de forma suave, sem imobilizar à força. Violência ou contenção brusca agravam sempre o problema.
Em animais particularmente ansiosos, podem ser úteis sprays de feromonas calmantes ou sessões curtas de treino com reforço positivo. O mais importante mantém-se: nada de insistir a qualquer preço. Se o ambiente se deteriorar, cortar poucas unhas por sessão é suficiente.
Unhas, sofá e segurança: olhar para o conjunto
No fim, não se trata apenas de alguns milímetros de queratina, mas da relação entre pessoa e animal. Quem compreende o seu gato percebe que as unhas são, ao mesmo tempo, cuidado, ferramenta e meio de comunicação.
Se for necessário cortar, que seja por uma necessidade clara e bem fundamentada - nunca por conveniência ou preferência estética. Como regra prática: quanto mais naturais e adequadas forem as condições de vida, menos vezes o corta-unhas precisa sequer de sair da gaveta.
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