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Orcas no Atlântico Norte: ataques coordenados ao leme ao largo de Portugal

Dois homens a observar e apontar para um grupo de orcas a nadar perto de um barco no mar.

O primeiro sinal foi um baque seco.

Não era uma onda nem o habitual estalo do Atlântico contra o aço, mas um golpe surdo e intencional vindo algures debaixo da popa. Os motores do navio tremeram. Veio um segundo embate, mais forte, e a vibração do convés subiu pelas botas da tripulação como um aviso. Do passadiço alguém gritou. No radar, o ecrã estava limpo. Lá em baixo, na água verde-escura ao largo da costa de Portugal, quatro silhuetas pretas e brancas rodavam com uma calma inquietante.

As orcas não pareciam desorientadas. Pareciam estar a seguir um plano.

Quando as baleias começam a responder

Nas rotas marítimas mais movimentadas do Atlântico Norte e ao largo da costa ibérica, as tripulações começaram a falar de orcas como os condutores falam de gelo negro. Sabe-se que existe. Só se espera que não esteja no caminho nesse dia.

Relatos que antes soavam a lenda chegam agora em forma de registos de ocorrência: grupos que se aproximam por trás, alinham-se junto ao leme e batem em simultâneo. Há embarcações que ficam sem governo em poucos minutos. Outras conseguem chegar ao porto a custo, com metal deformado e tripulações abaladas.

Quem está a bordo não esquece o som.

Um comandante espanhol de um navio de carga contou o instante em que a sua embarcação de 120 metros ficou de repente, e de forma assustadora, silenciosa. Depois de impactos repetidos perto da popa, o roncar habitual dos motores cessou - cada choque parecia um acidente de automóvel abafado pela água do mar. O navio seguia ao largo do Cabo Finisterra quando apareceu um pequeno grupo de orcas, a mover-se com um propósito perturbador.

Não saltavam, não brincavam.

Colocaram-se ao longo da popa e começaram a investir contra o leme em rajadas calculadas, como se estivessem a testar o ponto fraco de uma porta trancada. Em quinze minutos, a tripulação tinha perdido o controlo da direcção. Mais tarde, o comandante disse aos investigadores que já tinha passado por tempestades e avarias mecânicas, “mas nunca senti que algo lá fora nos estivesse a tomar por alvo”.

Biólogos marinhos que acompanham estes episódios há vários anos defendem que o padrão deixou de ser uma curiosidade. As autoridades espanholas e portuguesas registaram centenas de interacções desde 2020, muitas delas com danos em veleiros. Agora, multiplicam-se também os relatos vindos de navios comerciais e de pequenos cargueiros.

A palavra que os cientistas repetem é ‘coordenado’.

Estas orcas não estão a tocar nos cascos por acaso. Procuram o mesmo ponto, de forma semelhante, em diferentes grupos. Uma repetição deste tipo aponta para aprendizagem, memória e transmissão de comportamento dentro do grupo. Discute-se se tudo isto começou como reacção a um evento traumático - uma fêmea dominante ferida, uma colisão, um pulso de sonar muito intenso - ou como uma nova forma de brincadeira que saiu do controlo. Seja qual for a origem, as tripulações sentem que passaram a figurantes de uma história que não conseguem decifrar.

Como dizem os especialistas que as tripulações devem reagir num encontro com orcas

Entidades marítimas de Espanha, Portugal e a Comissão Baleeira Internacional começaram a divulgar discretamente uma espécie de “protocolo das orcas” para navios que atravessam estas águas. O primeiro passo é contraintuitivo: reduzir a velocidade. Parece que acelerar é mais seguro, mas isso também transforma o leme num alvo móvel mais apelativo e aumenta o ruído.

A recomendação é abrandar, manter um rumo estável sempre que possível e evitar manobras bruscas, feitas em pânico. Alguns comandantes chegam a parar totalmente os motores, deixando a embarcação à deriva enquanto o grupo se aproxima e observa. A lógica é simples: tornar o navio aborrecido. Uma embarcação inerte e silenciosa desperta menos interesse do que uma que faz barulho e agita um leme em rotação.

Outra orientação essencial é contrariar o impulso humano de “revidar”. Atirar objectos, lançar very lights para a água ou tentar “afugentar” as baleias pode intensificar a interacção e até provocar ferimentos. As autoridades sugerem manter-se afastado da popa - onde os animais concentram a atenção -, registar hora e posição GPS e fazer um pedido de assistência de forma calma se o governo ficar comprometido.

Todos conhecemos aquele momento em que o instinto grita “faz alguma coisa, qualquer coisa” só para não nos sentirmos impotentes. No mar, esse impulso pode piorar a situação. Tripulações que esperaram e aguentaram relatam que, muitas vezes, o episódio termina tão abruptamente como começa, com o grupo a afastar-se nas ondas como se tivesse dado por concluído um teste.

Sejamos realistas: quando o pânico entra e o barco começa a estremecer, quase ninguém consegue cumprir cada regra à risca. Os especialistas sabem-no, e os melhores falam com marinheiros sem qualquer julgamento.

Como me disse o etólogo marinho Renaud Martin, no seu pequeno escritório em Brest:

“Do ponto de vista das orcas, isto é uma experiência comportamental. Do ponto de vista da tripulação, é um ataque. Algures entre essas perspectivas, precisamos de cabeças frias e de melhores dados, não de medo.”

Para ajudar a manter essa “cabeça fria” a bordo, vários grupos de segurança oceânica pedem agora a armadores e mestres que preparem listas simples e visíveis para as tripulações que atravessam zonas de maior risco:

  • Informar a tripulação antes de entrar em áreas conhecidas de presença de orcas, como ao largo de Gibraltar e do Cabo Finisterra.
  • Designar uma pessoa para registar horários, posições e comportamentos se um grupo aparecer.
  • Treinar um procedimento de “navio silencioso”: como reduzir ou parar os motores com segurança e rapidez.
  • Manter os procedimentos de governo de emergência impressos e acessíveis.
  • Preparar frases de chamada em VHF para alertar o tráfego próximo sem dramatizar.

Este tipo de planeamento de baixa tecnologia não torna o mar menos indomável. Apenas dá às pessoas um guião quando o indomável se aproxima de repente.

O que estes ‘ataques coordenados’ dizem sobre nós

A expressão “ataques coordenados” tem, obviamente, um peso duro. Soa a título de guerra e, em parte, é por isso que se espalha tão bem pelas redes sociais e pelos noticiários. A realidade é mais complexa. As orcas são predadores de topo com vidas sociais invulgarmente sofisticadas, capacidade de imitação e memórias longas. Quando se fixam num comportamento - seja usar salmões mortos na cabeça como chapéus no Noroeste do Pacífico, seja atingir lemes no Atlântico Norte - esse padrão pode propagar-se dentro de um grupo como se fosse um meme.

A parte desconfortável é o que este episódio devolve como espelho da actividade humana no mar. As rotas de navegação multiplicaram-se, o ruído subaquático disparou e as colisões têm matado baleias em quase todos os oceanos. Entre alguns cientistas cresce a sensação silenciosa de que estamos a assistir a uma forma de adaptação não humana - talvez nascida do trauma, talvez da curiosidade - que entra em choque directo com as rotas do comércio global.

Da próxima vez que um comandante sentir aquele baque ameaçador por baixo da popa, a pergunta não será apenas “como saímos desta?”

Pode ser “o que temos andado a despejar neste oceano - e o que é que, finalmente, está a responder?”

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Comportamento centrado no leme As orcas visam repetidamente a popa e o aparelho de governo das embarcações, sobretudo no corredor do Atlântico Nordeste. Ajuda a perceber porque é que alguns navios ficam sem direcção e porque é que isto é relevante para a segurança e o comércio.
Protocolo de resposta de especialistas Reduzir a velocidade, evitar reacções agressivas, registar o encontro e aplicar técnicas de “navio silencioso”. Oferece passos práticos a seguir - ou a esperar - para quem viaja, navega à vela ou trabalha no mar em zonas afectadas.
Sinal ambiental mais amplo Os padrões sugerem aprendizagem e possível ligação a trauma, associados ao aumento da pressão humana sobre os oceanos. Leva o leitor a enquadrar os encontros com orcas numa história maior sobre como a vida selvagem reage a nós.

FAQ:

  • As orcas estão mesmo a atacar grandes navios comerciais agora? A maior parte dos danos documentados envolve embarcações mais pequenas, como veleiros, mas tripulações de alguns navios comerciais e de carga relataram encontros semelhantes, com foco no leme, nos mesmos pontos críticos do Atlântico.
  • Algum navio afundou por causa destas interacções com orcas? Perderam-se alguns iates à vela após repetidos impactos no leme, geralmente em condições de mar agreste, mas não há casos confirmados de grandes navios comerciais afundados devido a investidas de orcas.
  • Este comportamento está a espalhar-se para outros oceanos? Até ao momento, o padrão coordenado de atingir lemes está sobretudo registado ao largo da Península Ibérica e na região de Gibraltar; outras populações de orcas têm outras “peculiaridades culturais”, mas não este padrão específico.
  • As autoridades estão a fazer alguma coisa? Sim. As agências marítimas emitem avisos, actualizam cartas com zonas de maior risco e recolhem relatos para ajudar os cientistas a acompanhar e a compreender o comportamento sem recorrer a medidas letais.
  • Passageiros regulares em ferries ou navios de cruzeiro devem preocupar-se? O risco para grandes navios de passageiros continua baixo, porque o tamanho e os sistemas de governo são diferentes, embora os operadores estejam cada vez mais informados e treinados para seguir protocolos de precaução nas águas afectadas.

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