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Multitasking e a armadilha do bom aluno: incompetência estratégica para retomar a sua carreira

Jovem a trabalhar num portátil, sentado numa mesa com caderno, café e auscultadores junto a uma janela.

Em entrevistas de emprego e nos primeiros meses numa nova função acontece quase sempre o mesmo: queremos impressionar, mostramos uma motivação máxima e respondemos “sim” a tudo o que aparece. Multitasking, disponibilidade permanente, ir sempre mais além - à primeira vista, soa a candidato ideal. Só que um psicólogo deixa um alerta: por trás desta postura há, muitas vezes, um padrão perigoso que, com o tempo, acaba em sobrecarga, estagnação e frustração.

A armadilha do bom aluno no trabalho

Quando o perfeccionismo e a fome de aprovação passam a mandar

Muitos profissionais comportam-se no local de trabalho como os antigos “alunos de 20”: querem provar que são fiáveis, rápidos e conscienciosos - e, no fundo, desejam ser elogiados por isso. Cada tarefa concluída torna-se um pequeno certificado de que se é “bom o suficiente”.

É precisamente aqui que nasce o problema: a satisfação pessoal começa a depender, cada vez mais, da validação externa. Elogios, e-mails com “Obrigado!”, palmadinhas nas costas da chefia - tudo isso funciona como uma dose que se quer repetir. Para garantir essa “dose” vezes sem conta, muitas pessoas vão acumulando cada vez mais trabalho.

Quem precisa de se provar o tempo todo acaba, um dia, por já não trabalhar a partir de força interior, mas sim por medo de não ser suficiente.

O resultado é previsível: a lista de tarefas cresce, as pausas encolhem e o cérebro fica em esforço contínuo, como se estivesse sempre no limite. No fim do dia, sobra muitas vezes apenas cansaço - e a sensação de que, apesar de tudo, não se fez o bastante. Um sinal clássico de que o “bom aluno” interior tomou o comando.

Estar ocupado não é o mesmo que ser produtivo

O nosso cérebro gosta de actividade, mas não consegue executar, de facto, várias tarefas complexas ao mesmo tempo. Aquilo a que chamamos multitasking é, na realidade, um “salto” constante entre assuntos - e é exactamente isso que nos torna mais lentos e mais propensos a erros.

Quem responde a e-mails durante uma videoconferência, alterna sem parar entre dois projectos grandes ou, em reunião, já está a mexer na apresentação de amanhã, paga um preço elevado. A concentração parte-se em fragmentos, a atenção salta de um lado para o outro e, no fim, tudo parece mais cansativo do que precisaria de ser.

Do ponto de vista psicológico, acontece o seguinte: a actividade permanente cria a sensação de “fiz imensa coisa”. Mas, de forma objectiva, a qualidade do resultado fica abaixo do que seria possível se o trabalho fosse feito em sequência.

Quando se torna insubstituível - e acaba no sítio errado

Mais esforço, mais tarefas - mas muitas vezes as erradas

Nos escritórios, existe uma regra não escrita: o trabalho migra para quem o executa de forma fiável. Quem se sente responsável por tudo, acaba mesmo por receber - tudo.

À primeira vista, isto parece reconhecimento, mas transforma-se facilmente numa armadilha. Quem apaga todos os fogos, salva o layout de cada colega, escreve actas continuamente, organiza agendas ou resolve “num instante” problemas técnicos torna-se depressa um balcão de apoio interno.

Quem está sempre disponível atrai, como um íman, sobretudo tarefas desagradáveis e pouco visíveis.

E são precisamente essas tarefas que consomem tempo e energia, mas raramente trazem reconhecimento claro ou avanço na carreira. Em vez de investirem em temas estratégicos, muitos profissionais de alto desempenho ficam presos em “trabalhos paralelos” que nem aparecem no currículo.

O preço da versatilidade: a sua competência fica diluída

As empresas valorizam especialistas com um perfil facilmente identificável: “É a especialista em análises complexas”, “Ele é a pessoa certa para negociações delicadas”. Já quem faz um pouco de tudo é frequentemente visto apenas como um “quebra-galhos” útil.

O que parece uma vantagem pode, na prática, enfraquecer a sua posição. Se, dia após dia, está a melhorar apresentações, a arrumar folhas de Excel de outras pessoas e a salvar projectos de forma improvisada, a liderança tende a lembrar-se mais da sua actividade constante do que de conquistas fortes e específicas.

  • competência nuclear clara = maior valor no mercado
  • leque de tarefas demasiado amplo = percepção difusa
  • disponibilidade permanente para ajudar = risco de ficar preso num papel de “ajudante”

Quando a energia se dispersa, perde-se perfil. E um perfil pouco nítido torna negociações de salário, promoções ou redefinição de responsabilidades muito mais difíceis.

Incompetência estratégica: porque não tem de saber fazer tudo

Escolher conscientemente o que sabe - ou o que mostra

Na psicologia do trabalho existe um conceito chamado “incompetência estratégica”. Não significa fazer-se de desentendido de propósito, mas sim decidir com inteligência quais as competências que deve tornar visíveis no emprego - e quais não precisa de oferecer.

Consegue arranjar a impressora em segundos? Faz slides bonitos a uma velocidade recorde? Óptimo - mas será mesmo necessário que toda a gente o saiba? Quem coloca imediatamente cada competência extra ao serviço do grupo está, sem querer, a garantir que ainda mais tarefas secundárias lhe vão parar às mãos.

Incompetência estratégica significa: proteger a sua energia, não oferecendo todas as suas capacidades a toda a hora.

Isto não é trair a equipa; é autoprotecção. A sua função principal não é resolver todos os pequenos problemas nos bastidores, mas sim entregar trabalho excelente onde a sua competência nuclear realmente está.

Que batalhas valem a pena - e quais não?

Um passo decisivo é priorizar de forma clara onde vai gastar o seu capital mental. Um sinal de alerta de que a sua energia está a fragmentar-se são padrões típicos de multitasking como:

  • começar, ao mesmo tempo, dois projectos grandes
  • ler documentos complexos enquanto, em paralelo, ouve um podcast
  • escrever um documento importante e, ao mesmo tempo, estar activo no chat da empresa
  • durante uma reunião de análise, estar constantemente a percorrer o calendário no smartphone
  • ouvir um colega e, simultaneamente, rabiscar listas de tarefas de forma nervosa

Quem elimina estas combinações de forma consistente sente, muitas vezes, um efeito inesperado: mais calma interior, menos erros e pensamentos mais claros.

Como recuperar o controlo da sua carreira

Deitar fora velhos mitos de desempenho

Muita gente continua a acreditar que multitasking é sinal de inteligência e capacidade fora do comum. A investigação aponta o oposto: alternar permanentemente entre estímulos prejudica a memória, consome mais energia e reduz a qualidade do que se entrega.

Uma pessoa concentrada, que durante duas horas não está disponível e depois apresenta um resultado forte, actua de forma mais profissional do que alguém que está acessível em todos os canais e trabalha, ao mesmo tempo, em cinco temas - mas sempre a meio gás.

“Não estou disponível neste momento” pode ser uma frase altamente profissional no mundo do trabalho.

Quem se permite dizer isto está a comunicar: o meu trabalho merece atenção total. Não é ego; é a base de um desempenho sustentável.

Novas regras para mais foco e menos auto-sabotagem

Para que a rotina mude a sério, são necessárias medidas claras e simples. Por exemplo:

Problema Nova regra
Interrupções constantes por e-mail e chat Definir horários fixos para tratar mensagens
Dizer “sim” por impulso a tarefas extra Resposta padrão: “Vou confirmar rapidamente se isso cabe no meu tempo”
Sensação de se afogar em tarefas secundárias Uma vez por semana: separar a lista entre tarefas nucleares e tarefas extra
Expectativas pouco claras da chefia Perguntar de forma directa por prioridades e critérios de sucesso

Quem estabelece estes limites costuma notar rapidamente efeitos positivos: menos caos mental, dias mais claros e mais satisfação com o próprio desempenho.

Exemplos práticos de limites saudáveis

Como soa um “não” profissional

Muitas pessoas evitam a palavra “não” por receio de conflito. No entanto, quando é dita de forma factual e educada, raramente soa agressiva. Por exemplo:

  • “Hoje já não tenho margem para isso; caso contrário, o projecto X vai sofrer.”
  • “Consigo assumir isso a partir de quinta-feira; antes disso, só daria para fazer pela metade.”
  • “Para este tipo de tarefa, eu não sou a melhor opção; a pessoa Y está muito mais próxima do tema.”

Estas frases mostram firmeza sem parecer falta de cooperação. Protegem os seus recursos e devolvem o foco à sua função principal.

O que “foco” significa, na prática, no dia-a-dia

Trabalhar com foco não é um ideal esotérico; no essencial, é simples:

  • escolher uma tarefa e definir claramente o que deve ficar feito na próxima hora
  • desligar notificações no computador e no telemóvel
  • anotar pensamentos intrusivos em poucas palavras, em vez de reagir imediatamente
  • ao fim de 60–90 minutos, fazer uma pausa verdadeira - sem ecrã

Quem trabalha assim sente, muitas vezes, em poucos dias: a sensação de estar sempre a correr atrás do prejuízo diminui. O trabalho torna-se mais tangível e os progressos mais claros.

Com isso, cresce também uma forma de auto-confiança silenciosa, mas sólida: não por fazer tudo, mas por fazer o que importa - e fazê-lo realmente bem. Aí está o centro de uma carreira saudável e sustentável, longe do papel do “ajudante para tudo” que, no fim, acaba sobretudo numa coisa: exausto.

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