A história do meteorito de Chinguetti continua a ser um mistério particularmente intrigante.
Diz-se que, em 1916, foi recolhido em África um fragmento rochoso de ferro e pedra com 4,5 quilogramas (10 libras), retirado do topo de uma enorme “montanha de ferro” com cerca de 100 metros de largura (328 pés) - alegadamente um meteorito gigantesco.
Apesar de várias expedições ao longo das décadas, a existência desse corpo maior, que teria dado origem ao fragmento, nunca foi verificada. Agora, um grupo de investigadores voltou a seguir esta pista.
Se tal “montanha de ferro” for real, poderá ser, de longe, o maior meteorito do planeta. Para o tentar localizar, cientistas do Imperial College London e da Universidade de Oxford, no Reino Unido, pretendem recorrer a mapas de anomalias magnéticas (como as geradas por grandes massas de ferro) para procurar sinais compatíveis com um bloco metálico enterrado.
A recolha do fragmento e o relato de Gaston Ripert
O fragmento mais pequeno foi inicialmente obtido por um funcionário consular francês, o capitão Gaston Ripert. Segundo o próprio, teria sido vendado e conduzido até à “colina de ferro” por um chefe local.
O meteorito recebeu o nome da cidade próxima de Chinguetti, na Mauritânia, no noroeste de África. Todas as tentativas posteriores de reencontrar a suposta montanha de ferro - incluindo buscas que se prolongaram até aos anos 1990 - falharam em identificar o local onde Ripert afirmou ter sido levado.
Entretanto, um estudo publicado em 2001 concluiu que o fragmento, um mesosiderito (mistura de metal e silicato), não poderia ter vindo de uma massa com um volume superior a 1,6 metros de diâmetro, com base numa análise química do metal.
Perante isto, coloca-se a dúvida: Ripert terá mentido - ou terá apenas interpretado mal o que viu?
Porque é que a “montanha de ferro” nunca foi confirmada
Os investigadores mais recentes que retomaram a procura do meteorito de Chinguetti admitem que a resposta pode não ser nem uma coisa nem outra. Por exemplo, a ausência de uma cratera de impacto poderia explicar-se se o meteorito tivesse entrado com um ângulo muito baixo antes de atingir o solo.
Além disso, as buscas anteriores podem ter falhado por motivos mais prosaicos: a massa de ferro pode ter ficado coberta por areia; os instrumentos da época podem não ter sido suficientemente precisos; ou a área de procura pode ter sido mal definida devido às indicações pouco específicas deixadas por Ripert. Todas estas hipóteses são consideradas num novo artigo.
Um detalhe do relato original é, para os autores, especialmente revelador. Ripert descreveu uma característica na colina de ferro: teria encontrado “agulhas” metálicas alongadas e tentou, sem sucesso, arrancá-las à pancada com o seu fragmento menor.
O artigo sugere que essas estruturas dúcteis poderiam corresponder a fases de níquel-ferro conhecidas como “estruturas de Thomson”. Como este conceito era desconhecido em 1916, os investigadores defendem que é pouco provável que Ripert tivesse inventado uma observação tão específica.
Nova estratégia para localizar o meteorito de Chinguetti
Pela primeira vez, a equipa recorreu a modelos digitais de elevação, dados de radar e entrevistas com condutores locais de camelos para restringir as zonas onde Ripert poderá ter sido levado, usando como referência o seu relato de uma deslocação equivalente a meio dia de viagem.
Tendo em conta a altura de dunas que podem estar a ocultar um grande meteorito, o grupo delimitou áreas prioritárias e solicitou ao Ministério do Petróleo, Energia e Minas da Mauritânia dados de levantamentos aeromagnéticos dessas localizações. Até ao momento, o acesso a essa informação ainda não foi concedido.
Como alternativa, seria possível fazer uma prospeção pedestre na região à procura do meteorito desaparecido, embora isso pudesse exigir várias semanas.
“Se o resultado for negativo, a explicação da história de Ripert continuaria por resolver; no entanto, os problemas das agulhas dúcteis e a descoberta coincidente do mesosiderito manter-se-iam”, escrevem os investigadores.
As novas conclusões do grupo ainda não foram revistas por pares, mas podem ser consultadas no servidor de preprints arXiv.
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