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T. rex e os tiranossauros gigantes aos 74 milhões de anos: a tíbia misteriosa do Novo México

Arqueólogo mede osso fóssil gigante num sítio de escavação arqueológica em deserto rochoso.

Durante décadas, os paleontólogos trabalharam com uma ideia dominante sobre T. rex: os verdadeiros colossos teriam surgido tarde. Acreditava-se que os tiranossauros que ultrapassavam 4 toneladas - o tipo de predador que acabaria por dar origem a T. rex - só apareciam nos últimos poucos milhões de anos antes do asteróide pôr fim à era dos dinossauros.

Agora, um único osso da perna encontrado no Novo México está a baralhar essa linha temporal. Com 74 milhões de anos - cerca de 7 milhões de anos antes de T. rex surgir em qualquer registo fóssil -, o osso exibe características anatómicas de um predador que, segundo o entendimento actual, ainda não deveria ter atingido tamanha dimensão.

Um tiranossauro aproxima-se do tamanho gigante de Sue

O Dr. Nicholas Longrich, paleontólogo da University of Bath, liderou a equipa que voltou a analisar o osso. No inventário científico, é identificado como NMMNH P-25085: uma tíbia esquerda, parte da perna abaixo do joelho.

A peça tem cerca de 97 centímetros de comprimento e 13 centímetros de largura na zona do corpo do osso. O exemplar foi recolhido no Hunter Wash Member da Kirtland Formation, no noroeste do Novo México.

Camadas de cinza vulcânica situadas acima e abaixo do estrato rochoso permitem datá-lo de aproximadamente 74 milhões de anos. Isso coloca o animal cerca de 7 milhões de anos mais antigo do que o célebre esqueleto de Tyrannosaurus rex conhecido como Sue.

Ainda assim, o tamanho da tíbia indica que este animal do Novo México já se aproximava da escala de Sue. Pelas estimativas da equipa, tratava-se de um predador com cerca de 4 a 5 toneladas.

Interpretar a anatomia

Um único osso pode conter muita informação. Neste caso, destacavam-se um perfil robusto, um eixo praticamente rectilíneo e uma expansão inferior longa e triangular.

A combinação destas três características não é observada nos tiranossauros mais pequenos que percorriam a América do Norte na mesma época. Em vez disso, elas aparecem mais tarde - em T. rex e no seu “primo” asiático, Tarbosaurus.

Assim, a questão não era apenas o tamanho. Foi a forma que levou a equipa a suspeitar de que o osso não pertencia à espécie sob a qual tinha sido inicialmente catalogado.

Três possíveis respostas para um tiranossauro gigante

Longrich e os seus coautores apresentaram três hipóteses. A tíbia poderia pertencer a um indivíduo excepcionalmente grande de Bistahieversor sealeyi, o tiranossauro de porte médio já conhecido nesses níveis geológicos e descrito num estudo anterior.

Outra possibilidade é que represente uma linhagem totalmente nova de tiranossauro gigante - um grupo que teria atingido este tamanho por um percurso evolutivo próprio e que, até agora, não deixou mais vestígios no registo fóssil.

Em alternativa, o osso pode ser de um membro precoce do grupo que acabaria por originar T. rex - um ramo profundo da árvore genealógica a emergir cerca de 10 milhões de anos antes de a espécie aparecer.

A resposta mais provável

A primeira hipótese não encaixa bem. Bistahieversor sealeyi atinge um máximo de cerca de 2.5 toneladas. Além disso, a sua tíbia tem uma morfologia diferente: curva e afunila de formas que simplesmente não correspondem ao osso de Hunter Wash.

A segunda hipótese - uma linhagem desconhecida - não pode ser excluída por completo. No entanto, a forma do osso não aponta nesse sentido. Quando a equipa comparou a anatomia com a de tiranossauros já conhecidos, o resultado foi um agrupamento com T. rex e os seus parentes mais próximos.

Depois de percorrerem as comparações, os investigadores concluíram que o animal de Hunter Wash era, muito provavelmente, um membro inicial dos Tyrannosaurini - o grupo de predadores de grande porte que deu origem ao próprio T. rex.

Pátria meridional para tiranossauros gigantes

Durante grande parte do Cretácico Superior, um mar pouco profundo dividia a América do Norte em duas. A oeste existia uma massa continental chamada Laramidia, que se estendia do Alasca até ao que hoje é o México.

Na metade norte, circulavam tiranossauros mais pequenos e esguios. Já o sul parece ter produzido um tipo distinto de predador - mais pesado, mais poderoso e a seguir uma trajectória evolutiva própria.

Um artigo de 2024 que descreveu Tyrannosaurus mcraeensis no sul do Novo México já tinha sugerido que os maiores tiranossauros teriam surgido primeiro a sul - e não a norte.

O osso de Hunter Wash empurra esse padrão vários milhões de anos mais para trás, indicando que a linhagem que viria a produzir T. rex já gerava gigantes enquanto os parentes do norte permaneciam de tamanho médio.

Mais antigo do que o esperado

Até este estudo, não havia qualquer fóssil que colocasse um tiranossauro desta dimensão tão recuado quanto 74 milhões de anos.

A comunidade científica assumia que os tiranossauros verdadeiramente gigantes só apareciam mais tarde, nos derradeiros poucos milhões de anos antes do impacto do asteróide que encerrou o Cretácico.

O exemplar de Hunter Wash altera essa cronologia. Um predador com provável peso de 4 a 5 toneladas já percorria o sul de Laramidia muito antes de T. rex surgir no registo fóssil.

O que vem a seguir

O que os investigadores conseguem agora afirmar, pela primeira vez, é que tiranossauros gigantes já estavam presentes no sul de Laramidia há 74 milhões de anos - bem antes de T. rex aparecer em qualquer parte do registo.

Se esta identificação se confirmar, a hipótese de uma origem meridional para T. rex ganha um ponto de partida muito mais antigo - milhões de anos antes do que a evidência anterior permitia.

Serão necessários mais fósseis para confirmar se o animal de Hunter Wash pertence ao próprio T. rex ou a um ramo ligeiramente mais antigo da mesma família. Colecções de museus no Utah, no Texas e no México guardam fragmentos de tiranossauros que merecem uma nova revisão.

Algumas dessas gavetas podem afinal conter o próximo capítulo desta história - ossos que passaram décadas à espera de que alguém colocasse a pergunta certa.

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