As folhas não suportam apenas peso. A cada passo, pequenas vibrações propagam-se pelo tecido da folha, gerando sinais que alguns animais conseguem detetar e interpretar.
Uma lagarta com apenas um dia de vida - e pouco maior do que cerca de 1,6 mm - parece ser um desses casos.
Ao “ler” esses tremores, a lagarta poderá estar a distinguir quem se aproxima - e quão perigoso é - antes mesmo de o visitante chegar perto.
Lagartas-bebé defendem o seu território
Estas crias são lagartas verrugosas da bétula (Falcaria bilineata), recém-eclodidas que se instalam em folhas de bétula e amieiro. Cada indivíduo toma a ponta da folha como um pequeno território e defende-o com vigor.
Trabalhos anteriores já tinham mostrado que estes recém-nascidos protegem a sua parcela através de vibrações, tamborilando e raspando o corpo contra a folha para afastar lagartas rivais.
O que ainda não tinha sido testado era como este mesmo “residente” reage quando quem sobe para a folha é algo muito mais letal.
Jayne Yack, bióloga na Universidade Carleton, em Ottawa, Canadá, decidiu observar o fenómeno.
A sua equipa deixou uma cria estabelecer-se numa folha, apontou um laser à superfície para captar até os tremores mais ténues e filmou o que acontecia à medida que os visitantes chegavam.
Três tipos de problema
Os investigadores fizeram entrar três tipos de visitante em cada folha já ocupada. Um deles era outra lagarta verrugosa da bétula, uma rival que tentava tomar o lugar.
Os outros eram joaninhas - os escaravelhos a que muita gente chama “joaninhas” - que apareciam como larvas jovens ou como adultos.
Para a lagarta residente, a diferença era literalmente entre vida e morte. As joaninhas adultas foram implacáveis, matando 43% das lagartas com que foram emparelhadas. Já as larvas não mataram uma única.
O mais impressionante foi a forma como uma mesma lagarta tratou cada visitante. Perante uma rival, um escaravelho jovem e um escaravelho adulto, a mesma cria mostrou três respostas distintas.
Um truque antigo das lagartas
A joaninha adulta desencadeou a reação mais dramática. À medida que se aproximava, a residente calou-se e ficou imóvel, sem sequer tentar assustar o “gigante”.
Depois, abandonou a posição. Algumas lagartas atiraram-se da folha nos 5 segundos seguintes à chegada do escaravelho, ficando suspensas por um fio de seda até o perigo passar.
Descer pendurada num fio de seda é um velho truque das lagartas. Um estudo anterior acompanhou este comportamento em muitas espécies.
Como os escaravelhos davam pouca atenção a essas vibrações, os sinais de aviso não traziam vantagem real e podiam até denunciar a localização da lagarta.
Ficar quieta e largar-se da folha foi, por isso, a estratégia mais segura.
Quando as lagartas mantiveram a posição
Uma lagarta rival recebeu o tratamento oposto. Em vez de ficar em silêncio, a residente aumentou o tamborilar e a raspagem, emitindo um sinal de poucos em poucos segundos à medida que a intrusa se aproximava da valiosa ponta.
Desta vez, aguentou-se muito mais tempo. Só se atirou da folha quando a rival chegou efetivamente até ela e houve contacto. Contra outra lagarta, a ponta da folha valia uma luta a sério.
Esse ruído é dirigido a outras lagartas, não aos escaravelhos. Os investigadores acreditam que o tamborilar constante funciona como uma espécie de linha de propriedade entre rivais, e que os predadores o ignoraram por completo.
A resposta às joaninhas jovens
As joaninhas jovens deixaram a residente indecisa. A chegada provocou algum tamborilar no início, ligeiramente mais do que quando a lagarta estava sozinha, como se estivesse a testar se um aviso poderia resultar.
Mas a sinalização cessou quando a larva se aproximou. O ruído deu lugar à cautela.
A lagarta também demorou mais a decidir-se, chegando a esperar até 40 segundos antes de abandonar a folha - muito mais do que a fuga quase imediata perante um adulto.
O toque pode explicar esta confusão. Os passos leves e arrastados de uma larva de joaninha produzem vibrações semelhantes às de outra lagarta, levando a residente a tratar inicialmente a recém-chegada como rival, até perceber a ameaça e ficar em silêncio.
Pistas em cada passo
Cada intruso trazia a sua própria assinatura vibratória. Quando a equipa registou os tremores de cada um a atravessar a folha e comparou características como intensidade e tom, as três fontes surgiram claramente distintas.
Uma joaninha adulta pesa muito mais do que as outras, cerca de 25 vezes mais do que uma lagarta intrusa, e os seus passos geraram as vibrações mais fortes na folha - o que provavelmente dá à residente um aviso precoce, muito antes do contacto.
Uma revisão sobre a forma como os insetos percecionam o mundo mostra quão finamente eles leem vibrações que se propagam pelas plantas.
Mais revelador ainda: as residentes muitas vezes começaram a defender-se antes de algo lhes tocar, reagindo quando um atacante ainda estava a cerca de 2,54 cm de distância.
Para um animal tão pequeno, isso corresponde a muitos comprimentos do corpo de antecedência - tudo inferido apenas a partir da folha.
Um mundo sensorial escondido
Até este trabalho, estas lagartas eram conhecidas como pequenos “senhorios” que zumbiam contra intrusos. Agora há indícios de que a mesma cria consegue distinguir um predador mortal de um vizinho insistente.
As lagartas podem até diferenciar um predador de outro através das vibrações dos passos que se aproximam. Isto oferece aos biólogos uma nova forma de pensar a vida nesta escala.
Se um inseto com um dia de vida consegue avaliar o perigo apenas pelos passos, os canais vibratórios escondidos em folhas e no solo podem transportar muito mais informação de vida-ou-morte do que se reconhecia.
Este trabalho dá aos investigadores uma oportunidade rara de observar a avaliação de ameaças a uma escala minúscula, com todo um drama predador-presa a desenrolar-se numa única folha.
“É espantoso que lagartas com 1/20 do tamanho de um grão de arroz tenham capacidades sensoriais tão sofisticadas”, disse Yack.
Crédito da imagem: Emilie Mauduit
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