Às tantas da noite, quando tudo parece em silêncio, há quem comece a ouvir um zumbido constante. A sensação pode lembrar um motor ao longe, algures por perto.
Para algumas pessoas, é apenas incómodo. Para outras, interfere com o sono, aumenta o stress e pode até provocar mal-estar físico.
O que torna tudo ainda mais desconcertante é que, no mesmo local e à mesma hora, muitas pessoas não ouvem absolutamente nada.
Muitas vezes, o som parece mais intenso dentro de casa - sobretudo nos quartos durante a noite. Quem o ouve tende a ir à rua à procura de uma fonte evidente, mas não raro não encontra nada que o justifique.
O mistério do Hum espalha-se pelo mundo
Este fenómeno é conhecido como o Hum. Os primeiros relatos que chamaram a atenção surgiram em Bristol, em Inglaterra, em meados da década de 1970, quando residentes começaram a escrever cartas a descrever um som grave e inexplicável, aparentemente impossível de localizar.
A certa altura, suspeitou-se de grandes ventiladores industriais num armazém de uma loja de departamentos. No entanto, mesmo depois de o armazém encerrar, as queixas não desapareceram.
Mais tarde, surgiram relatos semelhantes noutras cidades britânicas, com particular destaque para comunidades costeiras como Plymouth, Southampton, Swansea e Hythe.
O enigma não ficou confinado ao Reino Unido. Na década de 1990, começaram a surgir denúncias em Taos, no Novo México, e em Kokomo, no Indiana.
Desde então, pessoas no Canadá, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Noruega e em várias cidades europeias têm descrito a mesma espécie de som.
Os relatos tornaram-se tão frequentes que, em 2012, o professor canadiano Glen MacPherson criou o Projeto Mapa e Base de Dados Mundial do Hum.
A iniciativa reúne testemunhos de pessoas de todo o mundo que acreditam ter vivido esta experiência.
À procura de uma fonte real
Ao longo dos anos, acumularam-se explicações de todo o tipo. Algumas apontam para ruído gerado pelo ser humano, vindo de sistemas de ventilação, bombas de calor, tráfego, fábricas ou aerogeradores.
Outras hipóteses defendem origens naturais, como ondas do oceano ou o vento a atravessar diferentes paisagens. E há ainda teorias mais invulgares que responsabilizam desde projectos governamentais secretos até extraterrestres.
Os cientistas, porém, têm seguido uma via mais prática: perceber se as pessoas que ouvem o Hum estão a captar sons reais de baixa frequência que passam despercebidos à maioria.
Há alguns anos, o investigador em audição Markus Drexl e colegas da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia (NTNU) exploraram esta questão com 28 pessoas na Alemanha que diziam ouvir zumbidos ou vibrações sem explicação.
A equipa avaliou se estes participantes teriam uma sensibilidade auditiva fora do comum, capaz de detectar sons de baixa frequência que a maior parte das pessoas não consegue ouvir.
“Sabemos que existem pessoas que ouvem sons de baixa frequência que, de facto, podem ser medidos, mesmo que outras não os oiçam. Mas não é assim tão fácil encontrar a origem destas ondas sonoras, porque localizar sons de baixa frequência é um desafio”, afirmou Drexl.
Sons de baixa frequência são difíceis de seguir porque os seus comprimentos de onda, muito longos, propagam-se a grandes distâncias. Um som pode parecer estar mesmo ali ao lado, quando a fonte verdadeira está a quilómetros.
Nem todos têm uma audição excepcional
Os investigadores submeteram os participantes a testes para verificar se eram especialmente sensíveis a sons de baixa frequência.
Os resultados surpreenderam. A maioria não apresentou uma audição acima da média. Só duas pessoas mostraram melhor desempenho em determinadas baixas frequências.
“Mesmo que o grupo que testámos fosse pequeno, isto ainda assim significa que a hipótese de ter uma audição especialmente boa para sons de baixa frequência não se confirma para a maioria das pessoas”, disse Drexl.
Isto sugere que, na maioria dos casos, uma audição excepcional dificilmente explica o Hum.
Os investigadores salientam, ainda assim, que algumas pessoas podem ter uma sensibilidade invulgar apenas em intervalos de frequência muito estreitos. As audiometrias habituais, por norma, não conseguem captar diferenças tão subtis.
Quando o ouvido “produz” som
O estudo também considerou uma possibilidade menos intuitiva. O ouvido interno - em particular uma estrutura chamada cóclea - pode gerar, por si próprio, sons muito fracos.
Estes sons, conhecidos como emissões otoacústicas, são um subproduto do sistema natural do ouvido que amplifica o som.
“A maioria de nós não ouve estes sons. No entanto, algumas pessoas conseguem, de facto, ouvir os sons que o próprio ouvido produz. E esses sons podem ser medidos de forma objectiva”, explicou Drexl.
Os cientistas conseguem detectar estas emissões com microfones sensíveis colocados no canal auditivo. Em certas situações, podem contribuir para tinnitus (acufenos), frequentemente descrito como um toque nos ouvidos.
“Uma hipótese era que os participantes do nosso grupo conseguiam ouvir emissões otoacústicas em baixas frequências. Foi por isso que testámos se as tinham”, diz Drexl.
No entanto, a equipa não encontrou indícios de que estes sons gerados pelo ouvido explicassem os relatos dos participantes.
Uma ligação aos acufenos
O estudo acabou por apontar para outra explicação possível.
“Depois, há pessoas que ouvem algo que não pode ser medido objectivamente. Acreditamos que as pessoas nesta categoria têm uma forma de tinnitus de baixa frequência”, afirmou Drexl.
O tinnitus (acufenos) afecta milhões de pessoas em todo o mundo. Ocorre quando alguém ouve um som sem que exista uma fonte externa a produzi-lo. Esse som pode assemelhar-se a um toque, zumbido, chiadeira, estalidos ou um humm contínuo.
Muitas pessoas, numa fase inicial, assumem que o som vem do ambiente. Só depois de o ouvirem repetidamente em locais diferentes percebem que a origem pode estar no próprio sistema auditivo.
Segundo os investigadores, isto parece explicar uma parte significativa dos relatos associados ao Hum.
“Com base nos nossos resultados, embora não tenhamos excluído casos de fontes sonoras físicas externas, sugerimos que o tinnitus subjectivo na gama de baixa frequência é frequentemente a causa de pulsações de percepções sonoras de baixa frequência”, disse Drexl.
O que ainda falta aprender
O estudo não esclarece todos os casos. Alguns sons de baixa frequência no ambiente são bem reais e mensuráveis. E pode haver pessoas que, de facto, conseguem ouvir sons que outras não detectam.
Ao mesmo tempo, o trabalho sublinha o quanto ainda se desconhece sobre a forma como os seres humanos percebem e processam sons muito graves e infrassom.
Os cientistas compreendem bastante melhor a audição em frequências mais elevadas do que os sons abaixo de cerca de 250 hertz - em particular, os que ficam abaixo de 20 hertz.
“O que sabemos sobre o sistema auditivo baseia-se principalmente na forma como captamos e processamos som com frequências mais altas. Sabemos menos sobre como o sistema auditivo lida e processa som de baixa frequência, ou infrassom”, disse.
O interesse pelo ruído de baixa frequência tem aumentado na última década, à medida que comunidades discutem possíveis efeitos associados a equipamento industrial, sistemas de transporte e outras tecnologias modernas.
“Se quisermos fazer uma avaliação rigorosa de sons de baixa frequência e de infrassom, primeiro precisamos de compreender melhor como os sistemas sensoriais processam som de baixa frequência e infrassom”, acrescentou.
Por agora, o Hum continua a ser uma das experiências mais invulgares relatadas por pessoas em todo o mundo.
Nalguns casos, a explicação pode estar no ambiente em redor. Em muitos outros, a resposta pode estar bem mais perto do que se imaginava.
O estudo completo foi publicado na revista PLOS One.
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