Um adulto de 50 anos e outro de 80 podem carregar um peso semelhante no cérebro, apesar das décadas que os separam. A diferença nem sempre está na idade. Milhares de exames de imagem indicam que a saúde metabólica deixa uma marca própria, distinta do desgaste habitual associado ao envelhecimento.
Esta conclusão pode ter utilidade prática, porque a saúde metabólica é, muitas vezes, passível de melhoria. Perfis metabólicos mais desfavoráveis foram associados a menor circulação cerebral e, nos testes cognitivos, os efeitos pareceram mais fortes nas mulheres - um padrão que os investigadores ainda estão a começar a decifrar.
Dois sinais identificados
O estudo foi conduzido por uma equipa do Montreal Neurological Institute, da McGill University, liderada pelo investigador Asa Farahani. Para isso, reuniram duas grandes coleções científicas que combinavam imagiologia cerebral detalhada com análises ao sangue e medições corporais.
Um dos conjuntos acompanhou perto de 600 adultos entre os 36 e os 100 anos. O outro recorreu a aproximadamente 3.000 participantes de uma base de dados britânica de saúde com recolha contínua ao longo de muitos anos. Em conjunto, os dados abrangeram um amplo intervalo da meia-idade à velhice.
Em vez de confrontarem uma medida corporal com uma região específica do cérebro, os autores usaram um método estatístico para vasculhar todo o conjunto à procura de ligações ocultas. Da análise emergiram dois sinais nítidos, cada um com a sua própria narrativa sobre a saúde cerebral. Um estava ligado à idade; o outro, não.
O padrão da idade
O primeiro sinal - e de longe o mais forte - foi determinado pela idade e confirmou o que os cientistas do cérebro já esperavam. À medida que as pessoas envelhecem, a camada mais externa do cérebro torna-se mais fina, a sua estrutura interna perde organização e as vias de abastecimento abrandam. É o desgaste normal.
O sangue demorava mais tempo a atravessar os vasos cerebrais e chegava em menor quantidade ao tecido. Além disso, surgiam com mais frequência manchas brancas associadas a lesão de pequenos vasos. Nada disto é inesperado para quem estuda o cérebro em envelhecimento.
Este sinal relacionado com a idade foi, de longe, o mais evidente nos dados, explicando a maior parte da ligação observada entre corpo e cérebro. O padrão manteve-se praticamente igual em ambos os sexos e confirmou-se nos dois grupos de investigação.
Uma segunda assinatura
O segundo sinal era mais discreto, mas mais revelador. Não dependia do número de aniversários. Em vez disso, acompanhava a saúde metabólica - o conjunto de indicadores ligados ao peso, glicemia, tensão arterial e colesterol.
Pessoas com maior peso corporal, glicemia e tensão arterial elevadas, valores hepáticos desfavoráveis e níveis baixos de colesterol HDL (o protetor) apresentavam algo em comum nos exames: fluxo sanguíneo mais fraco.
Trabalhos anteriores já tinham relacionado excesso de peso e glicemia elevada com alterações na estrutura do cérebro. O que este estudo mostrou com particular clareza, e que não tinha sido evidenciado de forma tão nítida antes, foi que o sinal metabólico atinge primeiro e com mais intensidade a circulação, e não tanto o volume do cérebro ou a sua “cablagem”.
Uma redução do fornecimento de sangue não é uma leitura inócua - um artigo separado concluiu que uma perfusão mais baixa pode anteceder a demência, surgindo anos antes de a memória começar a falhar.
Separado da idade
A preocupação mais óbvia era que este sinal metabólico fosse apenas a idade disfarçada. Como as pessoas mais velhas tendem a acumular mais problemas metabólicos, ambos os efeitos poderiam confundir-se facilmente nos dados.
Para testar isso, a equipa retirou matematicamente o efeito da idade de todas as medidas e refez a análise desde o início. Se o sinal metabólico fosse apenas uma variação do envelhecimento, teria desaparecido. Não aconteceu.
O padrão metabólico manteve-se intacto. A conclusão foi que idade e metabolismo deixam marcas separadas no cérebro. Assim, duas pessoas com décadas de diferença podem, ainda assim, exibir a mesma assinatura metabólica nas imagens cerebrais.
Quando as mulheres diferem
Imagens cerebrais, por si só, dizem pouco se não se relacionarem com a forma como a pessoa funciona no dia a dia. Por isso, a equipa comparou os dois sinais com resultados em testes cognitivos. Ambos deixaram rasto.
Quem apresentava um sinal de idade mais forte obteve resultados mais baixos em tarefas que exigem raciocínio rápido e adaptação no momento - aquilo a que os investigadores chamam flexibilidade cognitiva - enquanto preservava conhecimentos acumulados ao longo da vida. Já o sinal metabólico foi mais penalizador num grupo específico: as mulheres.
Entre as mulheres, perfis mais inclinados para problemas metabólicos associaram-se a pior desempenho nessas mesmas tarefas de pensamento flexível. Nos homens, não se observou uma descida equivalente.
Esta divisão está em linha com outros resultados, incluindo um estudo em que a síndrome metabólica se associou a dificuldades cognitivas sobretudo em mulheres.
A razão desta diferença ainda não está esclarecida - acredita-se que as hormonas sexuais influenciam o comportamento dos vasos sanguíneos, e as mulheres enfrentam taxas mais elevadas de doença de Alzheimer mais tarde na vida. Por isso, os investigadores consideram que esta disparidade entre sexos é um fio que vale a pena puxar.
O que isto pode mudar
A mensagem principal é clara. A idade deixa uma marca no cérebro, o metabolismo deixa outra, e apenas uma delas pode ser alterada. Peso, glicemia e tensão arterial respondem a alimentação, exercício e tratamento.
A investigação anterior sugere que o cérebro pode acompanhar essas melhorias. Num ensaio, idosos sedentários que começaram a praticar exercício aeróbio regular tiveram ganhos reais no fluxo sanguíneo cerebral. Cirurgia de perda de peso e alterações do estilo de vida mantidas durante um ano também produziram melhorias semelhantes.
Isto abre uma via prática. Uma análise sanguínea de rotina já inclui a maioria destes marcadores; por isso, as leituras de um check-up comum poderão, um dia, sinalizar risco para o cérebro muito antes de qualquer exame de imagem.
A mensagem de fundo é simples: o metabolismo pode ser uma das poucas influências no cérebro que envelhece que uma pessoa consegue, de facto, orientar.
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