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Acordo União Europeia–Mercosul: 25 anos para decidir

Dois homens de terno apertam as mãos numa reunião, com documentos e balança de justiça numa mesa de madeira.

Quando arrancaram as negociações do acordo entre a União Europeia e o Mercosul, eu tinha apenas 15 anos. Estávamos no final de 2001. As notas e moedas de euro ainda cheiravam a novo, e a minha roupa vinha impregnada de óleo de motores a dois tempos. À sua maneira, eram dois aromas a prometerem a mesma coisa: liberdade.

Desde essa altura, o mundo virou-se do avesso de tal forma que custa pôr isso em palavras. Eu também mudei… fiz 40 anos há poucos dias. Pelo caminho, casei, sou pai de dois filhos e perdi metade do cabelo - esta última parte não deve ter uma ligação direta com as duas primeiras. Penso eu…

Um quarto de século de negociação do acordo União Europeia–Mercosul

Trago estas memórias para enquadrar o tempo que foi necessário até chegarmos à assinatura do acordo Mercosul: 25 anos. Um quarto de século para fechar um acordo comercial que, hoje, é amplamente aceite como estratégico. Um intervalo que diz muito sobre a maneira como a Europa decide - ou, mais precisamente… sobre o tempo que leva a decidir.

O mundo mudou e a Europa habituou-se a adiar

O mundo que existia quando estas conversações começaram já deixou de existir. A China ainda não era a fábrica do planeta. Os Estados Unidos continuavam a defender o comércio livre sem notas de rodapé. A indústria automóvel europeia vendia tecnologia e estatuto sem sentir no corpo a concorrência sistémica. E, pior: passei pela entrada de uma escola secundária e não encontrei uma única Yamaha DT50 estacionada à porta.

Agora num registo mais sério - porque o assunto assim o pede - estas referências servem para sublinhar a lentidão estrutural que se instalou na Europa. Durante 25 anos, o tratado esteve refém de equilíbrios políticos internos, de receios setoriais legítimos - sobretudo na agricultura - e de uma incapacidade persistente de assumir cedências. Optámos por empurrar com a barriga, em vez de decidir. Só que o mundo não fica à espera.

Neste entretanto que quase dá para uma vida inteira, a China avançou de forma agressiva na América Latina: consolidou relações comerciais, industriais e políticas e foi ocupando terreno. Os Estados Unidos foram oscilando entre abertura e protecionismo, tornando o comércio transatlântico cada vez mais imprevisível. Na Europa não ficámos parados - seria injusto dizê-lo… -, mas acomodámo-nos em demasia.

O resultado é evidente. A indústria automóvel europeia ficou espremida entre tarifas voláteis, mercados a encolher e uma pressão regulatória interna sem equivalente noutras geografias.

O que o acordo União Europeia–Mercosul significa para a indústria automóvel europeia

É neste enquadramento que o acordo entre a União Europeia e o Mercosul deve ser interpretado. Não como um exercício académico de comércio internacional, mas como uma decisão de sobrevivência económica. Para o setor automóvel, a eliminação de tarifas que chegam aos 35%, o acesso a um mercado de milhões de veículos e a diversificação das cadeias de abastecimento (incluindo matérias-primas críticas para a transição elétrica) só podem ser encarados como uma boa notícia.

A relevância que este acordo poderá ter para a indústria automóvel europeia fica bem evidente nos números que avançámos nesta notícia:

Vinte e cinco anos depois, a conclusão é incómoda porque nos obriga a encarar o nosso próprio imobilismo: não fomos capazes de escolher que tipo de economia queríamos ser. Aberta, defensiva ou contemplativa.

A aprovação política do acordo com o Mercosul não resolve tudo. Não apaga os problemas da indústria automóvel europeia nem assegura crescimento automático. Mas faz algo decisivo: cria novas possibilidades. Num mundo em que tudo parece mais apertado e com menos oportunidades, isso já não é pouco. 700 milhões de consumidores ficaram agora mais próximos de nós - e nós deles.

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