Saltar para o conteúdo

APAV Hope: Carla Ferreira alerta para o efeito mimético nos homicídios de crianças em violência doméstica após quatro mortes em 2026

Menina com uma mulher sentadas à mesa a segurarem as mãos, com um ursinho e papel com desenho à frente.

Quatro crianças mortas em 2026 e os casos mais recentes

Nas últimas semanas, a morte de crianças em contexto de violência doméstica voltou a colocar o tema no centro do debate público. A propósito destes crimes, Carla Ferreira, responsável pelo projeto APAV Hope, chamou a atenção para o impacto que a ampla divulgação mediática pode ter junto de pessoas já inclinadas para a violência.

O alerta é feito depois de o Jornal de Notícias ter noticiado que, nos primeiros meses de 2026, morreram quatro crianças em contexto de violência doméstica - um número que iguala o total registado em todo o ano de 2022, apontado como o mais mortal para menores desde 2019.

O episódio mais recente aconteceu na madrugada de domingo, em Santarém. Um homem de 33 anos, com antecedentes por violência doméstica, terá saltado de um oitavo andar com a filha de 4 anos ao colo, causando a morte de ambos. O caso ocorreu poucos dias após o homicídio de uma menina de 8 anos, morta pela madrasta em Valpaços.

A responsável pelo projeto APAV Hope reforçou que a sociedade não pode tratar como normal um fenómeno que, só este ano, já vitimou quatro menores.

APAV Hope: Carla Ferreira alerta para o “efeito mimético”

Carla Ferreira, que coordena o projeto APAV Hope - Apoio a Vítimas de Homicídio, Terrorismo e Vitimação em Massa - defendeu que cada uma destas mortes deve obrigar a uma reflexão coletiva sobre o que falha na prevenção da violência. “Todos nós podemos ter falhado enquanto sociedade”, afirmou à agência Lusa.

Sobre os casos registados nas últimas semanas, a responsável pelo projeto APAV Hope voltou a alertar para o risco de mimetismo ligado à forma como estes crimes são divulgados. “Não é incomum que haja este efeito mimético”, afirmou, explicando que a exposição mediática pode funcionar como um estímulo adicional para quem já tem intenções violentas.

No mesmo sentido, sublinhou que, no caso das mortes de crianças em contexto de violência doméstica registadas nas últimas semanas, a grande visibilidade destes crimes pode aumentar o risco de mimetismo. “Não é incomum que haja este efeito mimético”, afirmou, insistindo que o destaque mediático dos casos pode servir de fator extra de motivação para pessoas com predisposição para agir de forma violenta.

Ainda assim, a especialista frisou que estes crimes devem continuar a ser noticiados. O ponto, defendeu, é garantir uma abordagem responsável, que não converta os casos em elementos de identificação para potenciais agressores. Para Carla Ferreira, o perigo maior é a sociedade começar a olhar para estes homicídios como se fossem acontecimentos banais.

“Não podemos achar que é normal que numa semana tenham morrido duas crianças em contexto de violência doméstica”, afirmou. “Não podemos dessensibilizar-nos relativamente a isto”.

A especialista acrescentou que muitos homicídios de crianças no seio familiar não são, necessariamente, fruto de impulsos momentâneos nem podem ser explicados apenas por problemas de saúde mental. Pelo contrário, referiu que tendem a enquadrar-se em padrões intencionais associados às dinâmicas próprias da violência doméstica.

“Há muita deliberação, muitas vezes há ameaças prévias, muitas vezes há pistas que vão sendo deixadas por quem acaba por praticar estes crimes”, explicou.

Segundo Carla Ferreira, estes homicídios surgem frequentemente em relações marcadas por poder, controlo e violência, em que as crianças acabam por ser instrumentalizadas para atingir ou punir o outro progenitor.

Prevenção, sistema sobrecarregado e impacto nas crianças

Embora reconheça que não é simples atribuir responsabilidades concretas sem conhecer ao detalhe cada situação, a responsável da APAV recordou que Portugal regista, todos os anos, cerca de 30 mil denúncias de violência doméstica - um volume que coloca uma pressão considerável sobre as autoridades e sobre o sistema judicial.

“Temos uma carga muito significativa de denúncias todos os anos”, afirmou, apontando a falta de recursos humanos nas forças policiais, no Ministério Público, nos tribunais e nos serviços de justiça.

Na sua perspetiva, essa sobrecarga pode traduzir-se em atrasos na avaliação de risco e no acompanhamento de ocorrências já sinalizadas, ainda que ressalve que cada caso tem as suas especificidades.

Para Carla Ferreira, há espaço para melhorar a resposta do sistema, desde logo garantindo uma recolha mais célere de prova junto das vítimas.

Nesse sentido, considerou crucial que as declarações para memória futura sejam feitas nas primeiras horas após a denúncia, de forma a preservar relatos que, muitas vezes, se tornam determinantes no processo criminal.

A especialista alertou também para um agravamento da severidade dos episódios de violência doméstica. Na sua análise, apesar de os números globais se manterem relativamente estáveis, os casos têm vindo a evidenciar níveis de gravidade mais elevados.

Na base desta tendência, apontou a disseminação de discursos de misoginia e de tolerância à violência, em particular através das redes sociais.

“Estamos também com um problema de raiz, que é termos cada vez mais um discurso de tolerância relativamente à violência como forma aceitável de resolver problemas”, disse.

Carla Ferreira salientou ainda que, há vários anos, as crianças deixaram de ser consideradas apenas testemunhas da violência doméstica, passando a estar legalmente reconhecidas como vítimas - mesmo quando não são o alvo direto das agressões.

De acordo com a especialista, crescer num contexto violento pode gerar consequências profundas ao nível psicológico, emocional, social e até económico, aumentando a probabilidade de ansiedade, dificuldades nas relações e até a reprodução futura de comportamentos violentos.

“As crianças vão absorver certos comportamentos como sendo normativos”, alertou.

Por fim, a responsável da APAV referiu que, nos casos conhecidos dos últimos anos, é frequente estarem envolvidos menores de idade mais baixa e que, em várias situações com grande exposição mediática, as vítimas são raparigas.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário