Há microrganismos a viver nos rios em que quase ninguém pensa, enquanto, em silêncio, realizam parte do trabalho ecológico mais decisivo nos ecossistemas de água doce.
Os fungos aquáticos decompõem matéria orgânica, ajudam a degradar contaminantes e alimentam os ciclos de nutrientes que mantêm os rios a funcionar.
Um novo estudo alerta que as alterações climáticas estão a colocar essas funções em risco. E isso não acontece sobretudo através da poluição por nutrientes que domina grande parte das conversas sobre a saúde dos rios.
Segundo os autores, as maiores ameaças vêm do aumento das temperaturas, de secas mais longas e do desaparecimento gradual das árvores que margeiam as zonas ribeirinhas.
A investigação foi liderada por cientistas da Universidade de Barcelona e do Instituto de Investigação em Alterações Globais da Universidade Rey Juan Carlos, em Espanha.
Identificar os maiores factores de stress
A equipa recorreu a dados de 62 rios em sete regiões ibéricas, num trabalho que envolveu 19 investigadores de Espanha, Portugal, Alemanha e Suíça.
O estudo está ligado ao Observatório Ibérico de Rios (IberRios), que utiliza os rios da Península como uma espécie de “experiência natural” para compreender como as pressões ambientais remodelam os ecossistemas aquáticos.
A variedade de climas e de solos presentes nesses 62 rios cria um conjunto de dados invulgarmente robusto para separar quais são, afinal, os factores de stress mais determinantes.
A diversidade dos fungos aquáticos
Os fungos aquáticos não são carismáticos: não ficam bem em fotografia e raramente aparecem em documentários de vida selvagem.
Ainda assim, o papel que desempenham é estrutural. São eles que degradam as folhas, os ramos, a madeira morta e o restante material vegetal que cai nos rios, transformando-o em formas que outros organismos conseguem aproveitar - e, pelo caminho, contribuindo também para degradar certos contaminantes químicos.
Em termos práticos, funcionam como o sistema digestivo do rio.
E a diversidade destes fungos importa pelo mesmo motivo que qualquer diversidade ecológica importa: espécies diferentes fazem coisas diferentes.
Quando uma comunidade perde variedade, torna-se menos capaz e menos resiliente - e aumenta a probabilidade de falhar quando as condições mudam.
Foi precisamente isso que os investigadores quiseram clarificar: quais são as pressões humanas e as alterações associadas ao clima que estão a causar mais danos a esta comunidade.
A poluição por nutrientes não tem um papel dominante
À partida, esperava-se que a poluição por nutrientes - nitratos e fosfatos provenientes da agricultura e do escoamento urbano - surgisse como um dos principais motores do declínio dos fungos. Mas não foi isso que os dados mostraram.
Aida Viza é investigadora na Universidade de Barcelona e na Universidade RPTU Kaiserslautern-Landau, na Alemanha.
“Contudo, contrariando as nossas expectativas, o aumento de compostos químicos como o nitrato e o fosfato, associado a impactos agrícolas e/ou urbanos, quase não teve influência na biodiversidade ou nas funções dos fungos aquáticos”, afirmou Viza.
“Isto pode dever-se ao facto de os rios ibéricos terem uma grande disponibilidade de nutrientes e de os fungos não necessitarem de grandes quantidades para desempenharem as suas funções.”
Em toda a Europa, a gestão dos rios tem colocado grande ênfase na redução da poluição por nutrientes - e com bons motivos, tendo em conta o que o excesso de azoto e fósforo pode fazer à qualidade da água em muitos contextos.
Mas, pelo menos no caso destes rios e destes fungos aquáticos, não é daí que vem o impacto principal. Melhorar a gestão de nutrientes, por si só, não protegerá os organismos que fazem este trabalho ecológico específico.
De onde vem, afinal, o dano
Os sinais mais claros de ameaça estavam ligados ao clima e à paisagem. A perda de floresta ripícola - as árvores e os arbustos que acompanham as margens e sombreiam a água - revelou-se particularmente decisiva.
Essa vegetação ajuda a manter os rios mais frescos, reduz a quantidade de luz solar que atinge o leito e suaviza oscilações de temperatura que colocam sob stress as comunidades microbianas.
“A perda de floresta ripícola tem efeitos negativos nos fungos, pois aumenta a exposição à luz solar e a temperatura no leito do rio”, disse Viza.
Quando as árvores são removidas - para agricultura, urbanização ou simplesmente devido à degradação lenta de margens negligenciadas - as condições no fundo do rio alteram-se de formas com que os fungos aquáticos têm dificuldade em lidar.
A isso somam-se o aumento das temperaturas de base e secas estivais mais prolongadas, intensificando a pressão.
A Península Ibérica já convive com períodos sazonais de seca muito marcados. Não é raro haver rios que abrandam até quase um fio de água, ou que deixam mesmo de correr durante meses.
Com as alterações climáticas, esses intervalos estão a alongar-se e as temperaturas de verão estão a subir. O que antes eram dois meses de condições difíceis tende a tornar-se três, ou quatro.
O sedimento ajuda - até certo ponto
Existe, no entanto, um amortecedor parcial. Os sedimentos do rio oferecem condições de temperatura e humidade mais estáveis do que a água exposta acima.
Durante períodos severos, as comunidades microbianas no sedimento conseguem manter alguma actividade quando a superfície se torna demasiado hostil - um refúgio natural que dá aos rios mais resiliência do que teriam de outra forma.
“Estes resultados mostram dados promissores para os rios. No entanto, devemos ter em conta que, com as alterações climáticas, estas condições desfavoráveis serão cada vez mais prolongadas e que a capacidade de refúgio oferecida pelo sedimento é limitada”, afirmou Viza.
Um refúgio que aguenta durante dois meses pode não aguentar cinco. O sedimento não é uma solução: é um atraso, e as condições contra as quais está a amortecer estão a agravar-se.
O que poderia ser feito
A mensagem prática é clara: proteger os fungos aquáticos passa por restaurar as árvores ribeirinhas e por limitar a extracção de água, sobretudo no verão.
Não se trata de intervenções complicadas ou inéditas - a restauração ripícola é defendida há décadas, por vários motivos.
O contributo deste estudo é reforçar, com dados, que essa pode ser uma das medidas mais importantes para este grupo específico de organismos.
“Uma dessas acções poderia ser, por exemplo, aumentar a sombra através da restauração da floresta ripícola ou impedir a extracção excessiva de água, especialmente durante o verão”, disse Cayetano Gutiérrez, do Instituto de Investigação em Alterações Globais.
Os fungos que vivem nestes rios têm feito o seu trabalho quase sem serem notados desde que os rios existem. Não precisam de reconhecimento - precisam de sombra, de água e de um verão que não dure demasiado tempo.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário