Se é verdade que algumas comunidades escandinavas ficaram conhecidas pela arte do saque, também reuniam comerciantes e artesãos de grande nível. A metalurgia, a carpintaria, a ourivesaria e, de forma muito marcada, o têxtil confirmam-no: em Søften foi identificado o maior local de produção conhecido da era viking alguma vez posto a descoberto.
A arqueóloga Liv Stidsing Reher-Langberg, do Moesgaard Museum, conduziu dez meses de escavações num terreno em Søften, na Jutlândia dinamarquesa. Desde a década de 1990 que a área era muito visitada por detetores e curiosos, que encontravam repetidamente antigas moedas de prata sem que isso despertasse o interesse das autoridades arqueológicas. Um projecto urbano que incluía uma estrada e uma zona industrial acabou por impor uma intervenção preventiva, iniciada em agosto de 2025.
Debaixo da camada superficial surgiu um vasto complexo com 100 000 m², datado entre 600 e 950 d.C., dedicado à produção têxtil, com numerosos equipamentos e estruturas preservados. Pela dimensão e pela forma como está organizado, o achado ajuda a desfazer (se ainda fosse preciso) a velha imagem popular de povos “bárbaros” e desordenados associada durante muito tempo às sociedades escandinavas deste período.
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“Viking” como actividade, não como “povo”
O termo “viking” referia-se antes de mais a uma prática - não a uma identidade - e nunca existiu um “povo viking”. Entre os séculos VIII e XI, alguém que vivia na Noruega, na Suécia ou na Dinamarca identificava-se sobretudo pela sua região ou pelo seu clã, e não como “viking”. Em nórdico antigo, “víkingr” significava “pirata”, “maraudador” ou, num sentido mais amplo, “aquele que parte numa expedição marítima”. Na maioria das vezes era para negociar; ocasionalmente, para pilhar territórios inimigos.
O “viking” era, portanto, a própria expedição e quem nela participava dizia “fara í víking”, expressão que se traduz literalmente por “partir em incursão” ou “partir para a rapina”. No resto do ano, os homens eram agricultores, criadores de gado, caçadores ou artesãos. Durante uma estação, podiam optar por “fara í víking” para enriquecer e, depois, regressavam para cuidar das suas terras. Tratava-se de uma condição temporária, encarada como actividade económica.
Nacionalismo romântico e a invenção de um herói “puro”
Esta realidade, claro, não se ajustava ao grande objectivo político do século XIX: a construção dos Estados-nação modernos. Na Suécia, na Dinamarca, na Noruega e nos Estados germânicos em processo de unificação, o nacionalismo romântico, os governos e os intelectuais precisavam de um relato comum forte: era necessário inventar um povo de origem “pura”, separado dos restantes.
A figura do viking, viril e indomável, foi exaltada ao limite, e consolidou-se a imagem do bárbaro feroz, mas nobre, capaz de competir no imaginário colectivo com o passado glorioso do Império Romano ou da Grécia antiga. Admitir que estes homens passavam, na verdade, três quartos do tempo a cultivar cevada, a discutir o preço da seda com mercadores árabes ou a fabricar pentes de osso tinha pouco heroísmo para os manuais escolares de uma monarquia ou de uma república.
Capacetes com cornos e a estética pop da “selvajaria”
O sueco August Malmström foi dos primeiros, na década de 1850, a pintar guerreiros nórdicos com capacetes alados. Richard Wagner completou a transformação: para a primeira apresentação integral do Anel dos Nibelungos em Bayreuth, em 1876, o figurinista Carl Emil Doepler trocou as asas por cornos bovinos e a imagem ficou cristalizada na cultura popular, de onde nunca mais saiu.
Em várias produções de Hollywood, como Os Vikings (1958), O 13.º Guerreiro (1999) e a série Vikings do History Channel lançada em 2013, mesmo quando as personagens não usam capacetes com cornos, a fidelidade histórica continua a ser secundária. Presos a uma estética hiper-viril de couros justos e tatuagens, muitos realizadores limitam-se a reciclar o velho mito da brutalidade primária. Videojogos como God of War (2018) ou Assassin’s Creed: Valhalla (2020) pegam na mitologia nórdica e reduzem-na a um folclore pop, estridente e caricato.
Ainda que alguns filmes (O Guerreiro Silencioso, The Northman) tenham ajudado a corrigir parte destes estereótipos, continuam a ser excepções num oceano de entretenimento padronizado. O cliché permanece, ainda hoje, profundamente enraizado na mente do grande público, e a memória colectiva insiste em colocar estes povos no papel de figurantes violentos de uma Idade Média imaginada.
Um complexo industrial no coração da Jutlândia
Søften, Aros (Aarhus) e a escala do centro de produção
Feita esta breve clarificação, regressemos ao achado da equipa de Liv Stidsing Reher-Langberg. Søften situa-se na península da Jutlândia, a dez quilómetros a norte de Aarhus (Aros na era viking), que já era então um centro régio e um nó essencial do comércio internacional. No complexo identificado, foram contadas 82 “grubenhaus”, casas semi-enterradas que funcionavam ao mesmo tempo como oficinas e habitação.
Por toda a área de 100 000 m², existiam sectores especializados dedicados ao tratamento do linho, incluindo fúsulas para fiar a fibra em bruto e pesos de tear vertical, usados para manter os fios sob tensão durante a tecelagem.
Separada das zonas de trabalho, uma única residência dominava o conjunto do centro produtivo e pertenceria, ao que tudo indica, a uma figura de grande poder, responsável por centralizar recursos e produção. Kasper Andersen, historiador do Moesgaard Museum, sublinha: “Quando se produz a esta escala, não pode ser apenas para responder às necessidades locais.” E acrescenta: “É preciso entendê-lo numa perspectiva internacional muito mais ampla.”
O local funcionava como uma verdadeira unidade manufacturada, ligada à nobreza de Aros e orientada para mercados que as rotas comerciais vikings conectavam até Bizâncio.
Têxteis, transição económica (600–950 d.C.) e rotas de comércio
O intervalo cronológico de 600–950 d.C. abrangido pelo sítio de Søften coincide com uma das grandes transições da história nórdica: a passagem de uma economia rural dispersa para uma rede urbana e comercial muito mais estruturada. A produção têxtil, em particular a do linho, intensificou-se de forma marcada neste período: era um produto estratégico de exportação para os dinamarqueses e também indispensável para vestir as elites.
Já as velas dos “langskip” (navios de guerra) e dos “knarr” eram tecidas integralmente em lã e a sua produção exigia uma organização produtiva em grande escala, da qual Søften pode ser um exemplo representativo. Análises futuras às fibras encontradas no local poderão ajudar a determinar com precisão a sua natureza (lã, linho, cânhamo ou urtiga) e, possivelmente, reconstituir os circuitos comerciais que ligavam Søften aos grandes entrepostos da época: Hedeby, na Dinamarca; Birka, na Suécia; Kaupang, na Noruega; ou Truso, na actual Polónia.
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