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Como o sulfoxaflor pode comprometer a reprodução dos abelhões

Investigador em laboratório a segurar uma abelha com luvas, com desenhos de abelhas e flores ao fundo.

Na maioria das vezes, o perigo de um pesticida é fácil de identificar. As abelhas atravessam campos tratados, desorientam-se e morrem, e os cientistas ficam com poucas dúvidas sobre o que correu mal.

Há, porém, químicos que não deixam um rasto assim tão evidente. Uma abelha pode alimentar-se deles, regressar à colmeia e continuar como se nada tivesse acontecido.

Só que, no interior do seu corpo, o mecanismo que garante a geração seguinte pode já estar a desligar-se.

Mais do que um mata-abelhas

Os agricultores dependem de produtos químicos para manter as pragas das culturas sob controlo, e cada novo pesticida é apresentado como mais “limpo” do que o que vem substituir. O sulfoxaflor, introduzido em 2013, encaixa nesse argumento.

O composto visa insectos que se alimentam de seiva, como os pulgões, em culturas que incluem soja e milho, e é eficaz nessa função. Também é tóxico para as abelhas. E é aqui que começa o problema.

Estas abelhas fazem trabalho indispensável. Segundo uma revisão, cerca de um terço dos alimentos produzidos pelas pessoas depende de polinizadores, e muitas das principais culturas do mundo só formam fruto ou semente com a ajuda de animais que transportam pólen.

O que permanecia pouco claro eram os detalhes. Os cientistas já sabiam que doses baixas podiam prejudicar as abelhas, mas continuava em aberto de que forma uma exposição pequena e constante alterava o organismo por dentro - sobretudo no que toca à capacidade de reprodução.

Testar abelhas com pesticidas

Para esclarecer a questão, uma equipa liderada por Sarah Orr, Ph.D., na altura investigadora de pós-doutoramento no Georgia Institute of Technology (Georgia Tech), deu a abelhas operárias uma dose baixa do pesticida misturada na água com açúcar, durante 21 dias.

Os insectos analisados eram abelhões, mais concretamente o abelhão-oriental-comum (Bombus impatiens), um polinizador “de trabalho” muito importante no leste da América do Norte.

Em vez de se limitarem a contar abelhas mortas, os investigadores avaliaram o que o químico fazia às células.

Para isso, congelaram rapidamente os tecidos e mediram a expressão génica - isto é, que genes ficavam ligados ou desligados e em que intensidade.

Dois tecidos receberam especial atenção: o cérebro, que orienta o comportamento, e os ovários, onde os ovos são produzidos.

Depois, modelos computacionais ajudaram a identificar quais os sistemas biológicos mais afectados.

Genes de produção de ovos perturbados

O contraste entre os dois tecidos foi evidente. No cérebro, quase não se notaram alterações. Já nos ovários, a história foi outra: centenas de genes mudaram a forma como funcionavam.

Trabalhos anteriores já tinham mostrado que colónias expostas ao sulfoxaflor acabam por ter menos descendentes, como concluiu um estudo.

O que não se percebia era onde, dentro do abelhão, o dano começava a instalar-se. Desta vez, o tecido reprodutor destacou-se como principal suspeito.

Nos ovários, os genes que ajudam a formar ovos e a manter a divisão celular normal foram reduzidos, enquanto aumentaram os genes ligados à comunicação entre células. No local onde a abelha mais precisa deles, passavam a existir menos “instrumentos” certos.

Num organismo saudável, cada tecido costuma operar o seu conjunto especializado de genes. Após a exposição, essa especialização ficou menos nítida, o que pode indicar que a perturbação ultrapassou os ovários.

A equipa quantificou estas mudanças de forma clara, embora ainda não esteja definido por que motivo as células aumentaram essa comunicação.

As abelhas comportaram-se de outra forma

Os danos ao nível dos genes tornaram-se visíveis nas próprias abelhas. As operárias expostas desenvolveram os ovários de forma mais deficiente e puseram muito menos ovos do que as que beberam água com açúcar sem pesticida.

O comportamento também foi afectado. As abelhas expostas picavam mais depressa e tinham menor probabilidade de levantar as pernas na postura defensiva habitual; além disso, as pequenas colónias consumiram menos água com açúcar e construíram ninhos mais desorganizados.

O que os investigadores mais valorizaram foi conseguir ligar estes níveis. Alterações em alguns genes prolongaram-se até se traduzirem em menos ovos, movimentos defensivos estranhos e uma colónia fora do seu ritmo.

Uma sequência completa, do gene ao insecto inteiro - um tipo de ligação que os estudos raramente conseguem captar de uma só vez.

A geração seguinte sofre

A sobrevivência de uma colónia de abelhões depende da geração seguinte. Sem novas abelhas, não há colónia futura.

Quando operárias e rainhas põem menos ovos, a colónia cria menos indivíduos, e o trabalho que esses polinizadores fariam nos campos fica por fazer.

"Precisamos de muitas abelhas para uma polinização bem-sucedida. Se não estiverem a produzir descendência suficiente, a polinização vai diminuir", afirmou Orr. Mas esta perda não fica confinada ao ninho.

Os pesticidas não são a única pressão sobre as abelhas. As ondas de calor também as desgastam, alterando a forma como procuram alimento e se alimentam, como já mostrou outro estudo, e estes factores de stress podem acumular-se.

Mudar a forma como os pesticidas são testados

Antes deste trabalho, o cenário ficava ao nível da colónia: abelhas expostas a pulverizações, menos descendentes, mas sem um culpado claro dentro do corpo.

Agora, a resposta é mais precisa. O sulfoxaflor em dose baixa afecta o tecido reprodutor, e não o cérebro. O dano do pesticida começa nos genes do abelhão responsáveis por construir os ovos.

"Precisamos de pesticidas para controlar as pragas das culturas, mas também podem prejudicar insectos essenciais que não são o alvo, como os abelhões", disse Orr.

Isto revela uma lacuna na forma como novos pesticidas são avaliados. Os testes de segurança muitas vezes perguntam se um químico mata uma abelha de forma imediata, e não se, de forma silenciosa, reduz a sua capacidade de se reproduzir.

Com estes dados, os investigadores passam a ter um ponto mais claro para observar - os ovários e os genes ligados à formação de ovos - ao ponderarem o custo de um químico desenhado para proteger culturas.

A tarefa mais difícil é aplicar esse conhecimento para manter as explorações agrícolas produtivas sem, ao mesmo tempo, ir esvaziando discretamente os polinizadores de que essas mesmas explorações dependem.

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