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Dados de GPS mostram uma sobreposição inesperada entre cinco espécies de herbívoros pastadores em Yellowstone

Manada de bisontes e veados a pastar num campo verde com montanhas ao fundo e flores na frente.

No verão, os vales relvados de Yellowstone enchem-se de grandes animais que se alimentam essencialmente do mesmo. Dados de localização recolhidos por GPS mostram que cinco espécies de herbívoros pastadores se sobrepõem muito mais do que a teoria da competição faria prever.

A ecologia ensinada nos manuais defende que, para evitarem conflitos, os competidores tendem a repartir o território e a manter distância. Um novo estudo de seguimento sugere precisamente o contrário - e a razão, ao que parece, está nos padrões de comportamento de cada animal, indivíduo a indivíduo.

Monitorizar cinco espécies

Molly R. Caldwell, investigadora de doutoramento em ecologia do movimento na Universidade do Wyoming, liderou a equipa responsável por este trabalho.

Entre 2016 e 2021, os investigadores colocaram coleiras com GPS em cinco dos maiores herbívoros pastadores do parque e registaram por onde se deslocava cada um.

As coleiras gravavam repetidamente a posição dos animais, criando um retrato detalhado das áreas de alimentação e das rotas de deslocação ao longo das estações. Ao sobrepor todos esses trajectos, tornou-se possível perceber com que frequência as diferentes espécies passavam pelos mesmos locais.

O objectivo era perceber se estes herbívoros “recortam” a paisagem em zonas separadas ou se, pelo contrário, se concentram nos mesmos sítios.

Além disso, a equipa analisou a contribuição de cada indivíduo, em vez de tratar cada espécie como um bloco homogéneo.

O que os movimentos revelam

Em estudos anteriores sobre a forma como os animais partilham recursos, a dieta era muitas vezes inferida pelo que aparecia em fezes ou em amostras do estômago, comparando o “menu” de uma espécie com o de outra. O grupo de Caldwell optou por observar o movimento.

O percurso diário de um animal determina quais as plantas a que tem acesso e com que vizinhos se cruza. Ao ligar esses caminhos do dia-a-dia, os investigadores quantificaram o grau real de sobreposição entre duas espécies no terreno.

Esta abordagem permitiu também testar uma ideia antiga conhecida como hipótese da variação do nicho - segundo a qual uma espécie cujos membros exibem comportamentos muito diversos, em conjunto, utiliza uma gama mais ampla de recursos.

Uma sobreposição inesperada

Quando todos os mapas foram combinados, as fronteiras entre os herbívoros quase desapareceram. Em muitos ambientes, espécies semelhantes evitam esta coincidência através da especialização - cada uma aposta num conjunto de recursos ligeiramente distinto.

Em Yellowstone, isso aconteceu muito pouco. Apesar das diferenças de tamanho e de dieta, as cinco espécies recorreram a recursos notavelmente semelhantes, muitas vezes a alimentar-se nas mesmas manchas e nas mesmas fases do ano.

Se a competição estivesse a empurrar estes animais para cantos separados, seria de esperar que o uso de recursos se afastasse. Em vez disso, aproximou-se, o que sugere que a disputa por alimento não é o principal factor a regular a forma como repartem o parque.

Quando os indivíduos variam

O padrão mais esclarecedor surgiu quando a equipa deixou de agrupar tudo por espécie e passou a olhar animal a animal. Em algumas espécies, os indivíduos deslocavam-se quase como cópias uns dos outros. Noutras, havia muitos indivíduos a seguir estratégias próprias.

O carneiro-das-Rochosas e o antilocapra mostraram a maior uniformidade. Os seus membros moviam-se de forma semelhante e mantinham-se em terrenos parecidos, o que resultou numa menor sobreposição com as restantes espécies.

Já o wapiti, o veado-mula e o bisonte apresentaram o quadro oposto - mais inquietos e muito menos previsíveis enquanto grupo. As rotas mais variadas alargaram o espectro de recursos usados por cada espécie e aumentaram a sobreposição com as outras.

Até este estudo, os investigadores tinham, na maioria dos casos, medido este tipo de variação dentro de uma única espécie de cada vez. Demonstrar que ela pode escalar e moldar a sobreposição numa comunidade inteira de grandes herbívoros pastadores é o contributo central deste trabalho.

Atrás do verde

O que parecia empurrar os indivíduos para áreas diferentes resumia-se a dois alvos em constante mudança: o crescimento fresco das plantas e a neve. Ambos se deslocam continuamente.

À medida que o “despertar” primaveril da vegetação progride para cotas mais elevadas, as plantas mais nutritivas surgem em locais distintos, semana após semana.

Alguns animais seguiam de perto essa onda de verde, ajustando as deslocações para chegar ao crescimento mais recente. Outros apareciam mais tarde ou permaneciam em zonas mais baixas e alimentavam-se com forragem mais grosseira.

Estas diferenças na forma como os indivíduos se movem estão bem documentadas entre herbívoros selvagens. No inverno, a neve actuava no sentido inverso, afastando os animais de áreas de alimentação enterradas e empurrando-os para os locais que se mantinham desimpedidos.

A proximidade com que cada indivíduo acompanhava estas mudanças terá, provavelmente, determinado a qualidade do alimento que encontrava - e a frequência com que o seu caminho se cruzava com o de outras espécies.

Repensar a rivalidade

Durante décadas, os ecólogos apoiaram-se na competição para explicar como espécies semelhantes conseguem viver lado a lado. A lógica é que rivais precisam de dividir alimento e espaço, caso contrário uma acabará por excluir a outra.

Os herbívoros pastadores de Yellowstone complicam esse quadro. Sobrepõem-se bastante e, ainda assim, coexistem, o que indica que o parque pode simplesmente oferecer recursos suficientes - reduzindo a pressão que, noutros contextos, costuma separar as espécies.

A equipa de Caldwell é prudente quanto às limitações. Uma forte sobreposição no verão, quando o alimento é abundante, não exclui a possibilidade de competição mais intensa em épocas mais escassas. E, embora as coleiras indiquem para onde os animais vão, não revelam exactamente porquê.

Para lá do parque

A mensagem mais clara é que não se compreende uma comunidade inteira de animais fazendo apenas médias por espécie.

O grau de diversidade comportamental dentro de uma espécie - entre os indivíduos mais viajantes e os mais sedentários - influencia a forma como essa espécie se encaixa entre os seus vizinhos.

Isto altera o que os gestores de fauna podem precisar de acompanhar. Proteger uma espécie pode implicar preservar toda a gama de estilos individuais de deslocação, e não apenas um “animal médio” ou uma única rota preferida.

A mesma lógica aplica-se muito para além de Yellowstone. Esta estratégia de seguimento pode testar se a variação individual regula a partilha de espaço noutros ecossistemas densamente ocupados, incluindo as savanas africanas e as grandes manadas migratórias do Oeste americano.

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