Ao largo da costa do Panamá, numa ilha onde não vive qualquer ser humano, desenvolveu-se uma cultura como poucas.
Ilha Jicarón: macacos-prego sem predadores e com ferramentas de pedra
Na Ilha Jicarón, os macacos-prego-de-cara-branca (Cebus capucinus imitator) dominam o território sem serem importunados por predadores. Num contexto de tranquilidade e segurança, exibem comportamentos notáveis: recorrem a ferramentas de pedra para facilitar a procura de alimento, de uma forma que, em tempos, poderia ter sido considerada exclusiva dos humanos.
Bebés de bugio ao colo: um comportamento nunca antes observado
Só que, agora, estes macacos levaram as suas traquinices mais longe. Foram apanhados a fazer algo que os cientistas nunca tinham visto: raptar bebés de bugio (Alouatta palliata coibensis) e transportá-los como se fossem um acessório estranho.
Depois de analisarem exaustivamente as observações e de tentarem encontrar uma explicação, uma equipa liderada pela ecóloga comportamental Zoë Goldsborough, do Instituto Max Planck de Comportamento Animal, concluiu que a interpretação mais convincente era a de uma “moda” - ou uma “febre”.
"Os cientistas continuam a descobrir evidências de cultura em diferentes grupos de animais, e um comportamento é considerado cultural se se espalhar entre indivíduos através da aprendizagem social", disse Goldsborough à ScienceAlert. "O comportamento de transportar bugios que descrevemos faz, de facto, parte da cultura deste grupo de macacos-prego."
Modas deste tipo não são frequentemente identificadas em animais não humanos. Há exemplos como os peculiares chapéus de salmão, usados de forma intermitente por orcas, e os chimpanzés na Zâmbia que colocam erva nas orelhas. Estas “modas” são comportamentos que os animais aprendem uns com os outros e que não parecem ter um propósito claro - como, por exemplo, certas tendências humanas que não servem para nada.
O que as câmaras registaram: Joker e a propagação do hábito
Goldsborough e os seus colegas tinham instalado armadilhas fotográficas por toda a Jicarón para acompanhar o intrigante uso de ferramentas pelos macacos-prego. O primeiro sinal de que havia algo fora do normal surgiu quando um indivíduo, a que chamaram Joker, foi visto a seguir a sua rotina com um bebé de bugio agarrado ao pelo.
"Foi tão estranho que fui imediatamente ao gabinete do meu orientador perguntar-lhe o que era aquilo", contou Goldsborough, num comunicado. Percebendo que havia realmente algo a acontecer, os investigadores passaram a observar com mais atenção. Ao rever os registos das câmaras, Goldsborough encontrou provas de que Joker carregou, em momentos diferentes, quatro bebés de bugio distintos.
E a situação tornou-se ainda mais invulgar. Vários meses depois, o comportamento apareceu novamente. De início, a equipa pensou que Joker estaria apenas a retomar o seu passatempo esquisito - mas rapidamente percebeu que outros macacos-prego também estavam envolvidos. No total, ao longo de 15 meses de observações, foram identificados cinco macacos-prego (incluindo Joker) a transportar 11 bebés de bugio diferentes.
Perante isto, os cientistas, ainda sem certezas, ponderaram se poderia tratar-se de uma espécie de adoção. No entanto, a adoção entre espécies é rara e, quando ocorre, costuma ser feita por fêmeas. Aqui, os cinco macacos-prego que transportavam as crias eram todos machos. Além disso, não pareciam interessados em cuidar dos bebés - presume-se que todos tenham acabado por morrer à fome, estando quatro mortes confirmadas.
"Os macacos-prego que os transportam não parecem interagir muito com as crias de bugio para além de as carregarem. Ou seja, não brincam com elas, nem tentam tratá-las", explicou Goldsborough à ScienceAlert.
"Para mim, parece menos que queiram manter a cria de bugio por estarem muito interessados nela e em interagir, e mais que a carreguem como um 'acessório' e estejam interessados no próprio comportamento de carregar."
Mas isto é apenas uma parte do quebra-cabeças. Para lá da pergunta sobre porque é que os macacos-prego carregam bebés de bugio, há outra questão: porque é que são estes macacos-prego - e apenas estes - a fazê-lo?
"Esta é uma pergunta fascinante, porque bugios e macacos-prego coexistem na maior parte das suas áreas de distribuição e interagem frequentemente, mas nunca desta forma", afirmou Goldsborough.
De forma interessante, a explicação proposta pode ser bastante simples: tédio. A população de macacos-prego em Jicarón não tem predadores e enfrenta poucos concorrentes. Leva uma vida confortável e descontraída e poderá estar pouco estimulada, segundo a hipótese dos investigadores - um estilo de vida que, em humanos e noutros animais, tem sido associado à inovação.
"Achamos que as condições na Ilha Jicarón, em particular a ausência de predadores terrestres e, potencialmente, uma maior quantidade de tempo livre, são muito favoráveis à inovação e à disseminação de comportamentos", esclareceu Goldsborough.
Os investigadores planeiam continuar a estudar este comportamento para perceber se evolui ou se surgem outras modas. Goldsborough referiu ainda que gostaria de compreender melhor como é que os bugios estão a reagir.
Até ao momento em que um pequeno grupo de macacos-prego provocadores decidiu que os seus bebés poderiam servir de elegantes adereços, os bugios também viviam num ambiente sem predadores. Agora, as vidas das suas crias estão a ser ameaçadas.
Pode haver, além disso, implicações filosóficas particularmente interessantes.
"Uma das razões pelas quais a nossa descoberta desperta tanto interesse é porque nos oferece um espelho de nós próprios. Os humanos tentam muitas vezes comparar-se com outros animais para encontrar semelhanças e diferenças, e isso tende a centrar-se em qualidades positivas (por exemplo, linguagem, uso de ferramentas, empatia)", disse Goldsborough.
"No entanto, se pensarmos bem, os humanos têm muitas tradições culturais aparentemente arbitrárias que prejudicam outras espécies. Constatar que este tipo de cultura não está limitado aos humanos, mas também pode ocorrer noutros animais inteligentes que vivam nas condições certas, é uma implicação fascinante dos nossos resultados."
A investigação foi publicada na Current Biology.
Também é possível explorar a ascensão e a disseminação documentadas deste comportamento num site interativo indicado pelos autores.
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