As naves espaciais já não se limitam a visitar outros mundos: começam a trazer fragmentos deles para casa.
Em 2023, a NASA fez regressar à Terra poeiras de um asteroide, e os cientistas esperam que, nos próximos anos, se sigam rochas de Marte.
Essas amostras podem esclarecer como os planetas se formaram e, possivelmente, indicar se alguma vez existiu vida para lá da Terra.
Ainda assim, dois investigadores defendem que há uma questão mais urgente a responder antes: "E se uma dessas amostras trouxer algo vivo?"
Em vez de abrir futuras amostras espaciais no nosso planeta, sustentam que o primeiro exame deve acontecer num local muito mais seguro: a Lua.
A primeira linha de defesa da Terra
A proposta soa a ficção científica: construir um laboratório selado na Lua, operado sobretudo por robôs, e fazer com que todas as amostras regressadas do espaço passem por lá antes de qualquer contacto com a Terra.
A ideia é apresentada por Frederick I. Moxley, diretor de uma consultora privada de análise de ameaças no Idaho, a Strategic Threat Analysis and Research Laboratories.
O coautor é Anthony Ricciardi, biólogo da Universidade McGill, conhecido pelo trabalho sobre espécies invasoras.
Chamam-lhe um laboratório de biocontenção - uma barreira entre a Terra e qualquer forma de vida que possa vir “à boleia” de uma amostra.
Moxley descreve essa barreira como um corta-fogo concebido para travar, antes de chegar ao planeta, qualquer organismo vivo potencialmente perigoso.
Lições de invasões passadas
Ricciardi passou a carreira a observar o que acontece quando um ser vivo aparece onde nunca deveria ter estado.
Há exemplos conhecidos: ratos que chegaram a ilhas remotas e dizimaram aves nativas; e mexilhões transportados na água de lastro dos navios que hoje entopem rios por toda a América do Norte.
O impacto pode crescer depressa. Num estudo que Ricciardi coassinou, concluiu-se que o custo mundial das invasões biológicas já rivaliza com o peso económico de desastres naturais, como tempestades e cheias.
Aplicando a mesma lógica a um microrganismo vindo de Marte ou de uma lua gelada, este poderia aterrar num ambiente sem controlos naturais, perante vida nativa que nunca enfrentou nada semelhante - uma folha em branco.
Os micróbios não desistem facilmente
Há um argumento tranquilizador recorrente: algo que tivesse nascido em Marte morreria aqui, incapaz de lidar com o nosso ar e a nossa água. Mas os próprios micróbios da Terra têm mostrado que essa confiança tem falhas.
Basta olhar para as bactérias que vivem a bordo da Estação Espacial Internacional. Um artigo que acompanhou uma espécie nesse ambiente concluiu que as suas estirpes se transformaram em algo geneticamente distinto dos parentes no solo, aparentemente pressionadas pelos stress da vida em órbita.
Isto não prova que vida de outro mundo conseguiria prosperar na Terra - nunca ninguém teve um organismo alienígena nas mãos para o testar.
Ainda assim, a certeza de que “não poderia sobreviver aqui” já esteve errada noutras situações, e os seres vivos tendem a ser teimosos.
A grande vantagem da Lua
É aqui que a Lua ganha importância no plano. Mesmo os laboratórios mais seguros na Terra não são infalíveis, e a história regista muitos deslizes.
Em tempos, frascos esquecidos de varíola reapareceram numa sala de armazenamento num laboratório dos EUA. Mais tarde, uma explosão danificou uma instalação russa que guardava o mesmo vírus. Já uma fuga a partir de um laboratório lunar não teria por onde se espalhar.
A Lua oferece uma combinação rara: fica suficientemente perto para ser alcançada em poucos dias; não tem vida nativa a colocar em risco; e é bastante remota para que uma eventual libertação não encontre onde se propagar.
E o trabalho mais perigoso poderia ficar do lado dos robôs, com as pessoas a permanecerem em casa.
A quarentena espacial não é novidade
Isolar o desconhecido que vem do espaço é um impulso antigo. Quando os astronautas da Apollo regressaram da Lua, a NASA manteve-os semanas dentro de um atrelado adaptado, a meio caminho entre a prudência e a expectativa de que surgissem germes lunares - o que não aconteceu.
Em Houston, um edifício dedicado, o Lunar Receiving Laboratory, tratou as primeiras rochas lunares atrás de vidro selado.
Durante décadas, também se falou em estações de quarentena em órbita e na própria Lua, embora nenhuma tenha sido construída.
O que Moxley e Ricciardi acrescentam é o sentido de oportunidade - e o argumento de que o momento é agora. Duas condições mudaram desde que esses planos antigos ficaram na gaveta.
Por um lado, a robótica já permite operar um laboratório à distância. Por outro, a NASA prepara-se para uma presença permanente na Lua.
As amostras já estão a chegar
O programa Artemis da NASA quer voltar a levar astronautas à Lua e, pouco depois, instalar um acampamento-base perto do polo sul lunar. É precisamente nesse futuro posto que Moxley e Ricciardi defendem a criação do laboratório de contenção.
A urgência, dizem, é real porque as amostras não são hipotéticas: poeira de asteroide já está guardada em salas limpas na Terra.
Ao mesmo tempo, sondas continuam a observar luas geladas onde um estudo identificou compostos orgânicos - os blocos químicos da vida - a serem projetados a partir do que provavelmente é um oceano subterrâneo.
Entretanto, as regras destinadas a orientar este tipo de atividade - um campo chamado proteção planetária - não acompanharam o ritmo.
Mais países e empresas privadas correm para a Lua e para além dela, e muitos planos pouco dizem sobre como rastrear o que tencionam trazer de volta.
Da proposta à realidade
Por enquanto, é apenas isso: um argumento publicado numa revista científica, não um projeto detalhado com orçamento.
Nenhum micróbio alienígena alguma vez foi encontrado, e o risco pode revelar-se imaginário - ou não.
Ainda assim, o artigo transforma uma inquietação difusa num plano concreto, associado a uma base que já existe no papel.
Segundo o estudo, a primeira linha de defesa deve ficar na Lua, e essa escolha deve ser tomada antes de os foguetões partirem, não depois.
Se os decisores levarem a ideia a sério, as implicações são claras.
Amostras de Marte ou de um asteroide talvez nunca toquem o ar livre da Terra até serem verificadas a cerca de 400 mil quilómetros de distância - um edifício erguido noutro mundo para proteger este planeta.
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