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Ed Conway: “Mundo Material”, IA e o fim da economia imaterial na guerra no Golfo

Jovem a interagir com um globo iluminado, rodeado por servidores e gráficos num tablet, ao pôr do sol.

A crença de que as economias ocidentais se tornaram “imateriais” - apoiadas sobretudo em serviços, aplicações, algoritmos e circulação financeira - ganhou força nas últimas décadas. Ed Conway, editor de economia e dados da Sky News, colunista do “The Times” e do “The Sunday Times” e autor de “Mundo Material”, considera que a guerra no Golfo e o choque energético que se seguiu vieram recordar algo básico: continuamos dependentes de infraestruturas físicas e de matérias-primas. Da corrida às terras raras ao avanço da inteligência artificial, a ideia de um mundo desligado do material vai-se desfazendo.

Nesta entrevista, Conway sustenta que estamos a entrar numa etapa marcada por mais inflação - e por maior instabilidade. “A enorme quantidade de energia que está em falta globalmente é maior do que qualquer escassez que já tivemos antes”, afirma, acrescentando que “o nervosismo de passar por pontos de estrangulamento, mesmo depois de a guerra terminar, pode continuar por mais tempo do que as pessoas gostariam”.

A economia “imaterial” e o regresso do físico

Defende que o Ocidente tem a teoria de que vive numa economia imaterial. Durante este ano, com a guerra no Médio Oriente, os choques energéticos subsequentes, o debate sobre a escassez de minerais críticos e os ataques a centros de dados, essa fantasia acabou?
De tempos a tempos, somos confrontados com a evidência de que o mundo físico conta - e, nos últimos anos, esses alertas multiplicaram-se. Comecei a trabalhar em “Mundo Material” durante a pandemia de covid-19. Foi um daqueles momentos em que se pensa: “Espera lá, precisamos de papel higiénico, há uma escassez de semicondutores, e todas estas coisas físicas são importantes”. Mais tarde, em 2022, a invasão russa da Ucrânia e a falta de energia na Europa voltaram a sublinhar essa realidade, a par das dificuldades no acesso a fertilizantes. O choque atual é o mais duro, porque a dimensão do défice energético global supera qualquer escassez anterior.

Uma das razões pelas quais decisores políticos - e também jornalistas - tendem a ignorar a componente material da economia tem a ver com a forma como olhamos para o Produto Interno Bruto: quando se consultam essas métricas, o sector físico aparece como uma fatia reduzida.

São economias de serviços…
Em países como Portugal, o Reino Unido e os Estados Unidos, os serviços representam uma parcela cada vez maior da atividade nacional. Isso leva-nos a concluir, quase por reflexo, que é aí que está o essencial. Em parte, porque uma grande porção do rendimento é gerada nesses sectores. Mas há ainda outro motivo: a indústria, a agricultura e a mineração tornaram-se extremamente eficientes a retirar recursos do solo com muito menos mão de obra.

Se visitarmos uma mina - de carvão ou de cobre - percebe-se que hoje trabalham ali muito menos pessoas do que há dez, 20 ou 30 anos. Muitos camiões foram automatizados e, além disso, aumentaram de dimensão, o que permite extrair mais com equipas menores. Em tempos, as minas de carvão empregavam centenas de milhares de trabalhadores. No Reino Unido, talvez mais de um milhão de pessoas dependessem, direta ou indiretamente, da extração de carvão. Esse mundo desapareceu.

O efeito prático é que pouquíssimas pessoas mantêm hoje uma ligação direta, física, à origem dos recursos, à indústria e à mineração. E, quando se perde essa ligação, torna-se fácil cair na ilusão de que estas dimensões deixaram de contar - simplesmente porque deixámos de as ver. Tenho escrito sobre economia durante quase toda a minha vida e, em geral, a análise económica concentra-se onde se acumula mais valor. Durante décadas, habituámo-nos a uma realidade em que bastava encomendar algo do outro lado do mundo para isso chegar, no prazo esperado, graças à globalização.

As cadeias de abastecimento foram afinadas até um nível notável de eficiência. Tudo isto contribuiu para que muita gente acreditasse que o que é físico já não tem assim tanta relevância.

Inteligência artificial, centros de dados e energia

E depois surgiu um grande choque, por causa da guerra contra o Irão…
Por exemplo, escrevi este livro pouco antes de aparecer o ChatGPT. E estes ensinamentos ficam ainda mais claros, porque a inteligência artificial (IA) não é apenas um feito de programação. É, igualmente, algo material: depende de centros de dados. E centros de dados dependem de energia.

Estive nos Estados Unidos há seis meses. Fui a uma zona na Virgínia, perto do aeroporto de Dulles - o principal aeroporto de Washington, D.C. - onde se encontra a maior concentração de centros de dados do planeta. É, na prática, um núcleo global da IA. Em cada um desses centros, a dimensão e o peso medem-se menos pelo número de chips e mais pelo consumo elétrico. A unidade, literalmente, são os gigawatts. É energia e, ao mesmo tempo, materiais.

No centro de dados que visitei, ao abrir um dos servidores (por exemplo, dos que usam tecnologia da Nvidia), vê-se o semicondutor: um objeto físico, feito de silício e de vários outros elementos. Para manter a temperatura sob controlo, o chip é integrado num invólucro de cobre. Para afastar o calor, faz-se circular água, bombeada para o arrefecimento. Há cobre por todo o lado - dentro dos servidores e também nos cabos que alimentam o edifício. E isso reforça a mensagem: trata-se de energia. Trata-se de cobre. Trata-se de recursos.

Estamos a receber mais “recordatórios” deste género. E espero que isso nos leve a uma postura mais séria e responsável perante estes sectores. No passado - e isto foi particularmente verdade na Europa - aceitámos, com relativa tranquilidade, empurrar e deslocalizar muita atividade para a China ou para outros destinos. Esse modelo funcionou no mundo do fim do século XX. Mas é possível que, no mundo atual, já não funcione da mesma forma. Talvez seja necessário ponderar não só a eficiência económica, mas também a segurança.

A IA é uma bolha que pode rebentar se as grandes empresas tecnológicas se tornarem cada vez mais difíceis de financiar? Continuar a financiá-las implica gastar uma percentagem elevada do PIB dos Estados Unidos, por exemplo…
Não é simples dizer se estamos perante uma bolha, mas podemos comparar com momentos anteriores em que novas tecnologias atraíram investimento maciço. Um paralelo útil é o das ferrovias. No século XIX, quando se começou a construir caminhos de ferro, as linhas espalharam-se por toda a América; houve uma expansão enorme e, sim, existiu também um ciclo especulativo. Muita gente perdeu somas consideráveis.

Algo semelhante aconteceu com a internet e com a fase inicial de construção da infraestrutura da Web - também teve traços de bolha. Ainda assim, estes casos partilham um padrão: a tecnologia que fica muda o mundo. As ferrovias transformaram o mundo para sempre. E a internet fez o mesmo.

Sou relativamente otimista em relação à IA. Vejo nela capacidade para alterar de forma significativa o sector dos serviços. A minha tendência é encará-la como um instrumento que aumenta a nossa eficácia. Gostaria que acabasse por ser algo que traga benefícios amplos.

Em relação ao investimento necessário, estamos a falar de biliões, por vezes.
Sim, falamos de montantes fora do comum. Quando se conversa com pessoas do sector tecnológico, percebe-se que estão a operar em território pouco familiar, porque empresas que, até aqui, raramente tinham de pensar em energia, agora precisam de garantir de onde ela virá. Isso expõe, com clareza, a centralidade da infraestrutura física.

Sinto menos entusiasmo pelos grandes modelos de linguagem, mas um dos progressos mais interessantes da Google nos últimos anos foi a identificação de novas estruturas cristalinas. Se pensarmos em mineração e refinação - nas ciências físicas e na engenharia -, o modo como aprendemos a extrair cobre dos minérios, das rochas que saem do subsolo, foi, em grande medida, um processo de tentativa e erro: desenvolver formas cristalinas capazes de reagir com o minério e, depois, separar o cobre.

Ou seja, investir biliões para ganhar biliões ou triliões…
A IA pode, de facto, elevar a metalurgia e a mineração a um patamar que nunca tínhamos observado. É, sinceramente, esse lado da IA que me entusiasma mais do que os grandes modelos de linguagem. Mas, no conjunto, o fenómeno é empolgante - tal como o ciclo de investimento ferroviário o foi.

Ao mesmo tempo, foi uma fase financeiramente arriscada: investiu-se muito, houve euforia, e é sempre difícil identificar antecipadamente quem serão os vencedores. É como a corrida ao ouro na Califórnia. Em quem se aposta? Não nos próprios mineiros. Talvez nas empresas que fornecem os machados e as ferramentas.

Há um traço humano muito definidor: desde os primórdios, extraímos rochas e minerais da terra e transformamo-los em ferramentas. E essas ferramentas elevaram o nosso nível de vida. Há centenas de milhares de anos, era literalmente pedra. E nós pegávamos na pedra e cortávamo-la para fazer machados. Hoje, retiramos “pedra” do solo e convertemo-la em semicondutores e computadores. No fundo, continuamos a fazer o mesmo. É a Humanidade a expressar algo que lhe é essencial.

Mas estamos a extrair materiais físicos e a criar coisas incrivelmente complexas…
O princípio subjacente mantém-se. E creio que a IA é uma espécie de culminar desse princípio. Quando esquecemos esta ligação - quando cortamos o fio entre o material e nós - perdemos noção do peso que isto tem.

Se tivéssemos mantido maior consciência do que implica produzir aço, por exemplo, teríamos entendido melhor as consequências ambientais e as emissões associadas ao processo. Para mim, estamos a viver um despertar: voltámos a perceber que o material nunca deixou de importar e que está intrinsecamente ligado ao que somos.

Guerra no Golfo, estreito de Ormuz e o risco inflacionista

O Fundo Monetário Internacional avisou que a guerra no Médio Oriente ia mudar tudo. Que outros efeitos prevê que decorram desta guerra no Golfo e do encerramento do estreito de Ormuz?
É difícil imaginar um regresso rápido à normalidade - e, a curto prazo, parece improvável. Em muitos casos, serão precisos meses e, nalgumas situações, anos: para reiniciar campos petrolíferos e para reparar o terminal de gás natural liquefeito (GNL) no Catar.

Em “Mundo Material”, na parte final do capítulo dedicado ao petróleo, destaco dois pontos absolutamente centrais no mapa mundial. Um é Ras Tanura, na Arábia Saudita, o maior terminal petrolífero do mundo. O outro é Ras Lafan, no Catar, o maior terminal de GNL do planeta. A hipótese de dois locais desta importância poderem ser desativados é assustadora - e é precisamente esse o cenário com que lidamos agora. É um choque de um tipo que ainda não tínhamos enfrentado. E, quando acontecem choques desta dimensão, há reverberações prolongadas, difíceis de antecipar.

Mas a crise está a ser menos aguda do que antecipava? Ou seja, os países, de alguma forma, souberam adaptar-se às disrupções?
Se olharmos para a crise do petróleo nos anos 1970, percebemos como estes episódios podem reconfigurar a economia e a política de forma duradoura. Ajudou a empurrar consumidores para automóveis mais eficientes e contribuiu para a ascensão do Japão como grande potência industrial automóvel. E a conversa pública sobre energia - que antes se centrava em garantir a máxima abundância possível - virou-se, de repente, para a eficiência.

As consequências foram gigantes, no plano político e económico, e prolongaram-se por muito tempo. É perfeitamente plausível que esta guerra produza efeitos parecidos: impactos difíceis de prever, mas com capacidade para moldar a política durante anos.

Um exemplo é o estreito de Bab el-Mandeb, a passagem para o Mar Vermelho. Depois dos ataques dos hutis, rebeldes do Iémen, a embarcações que ali transitavam, quase toda a navegação que normalmente subia pelo Mar Vermelho deixou de o fazer - exceto cerca de 20%. “o nervosismo de passar por pontos de estrangulamento, mesmo depois de a guerra terminar, pode continuar por mais tempo do que as pessoas gostariam”.

No caso de Ormuz, o problema é evidente: é um corredor sem alternativa equivalente; não existe outra via para entrar no Golfo Pérsico. Os países do Golfo procurarão desenvolver mais infraestrutura para conseguir escoar petróleo sem depender de navios-tanque. Isso encarece tudo, porque é preciso construir obras físicas adicionais. O transporte marítimo é muito barato; transportar por oleoduto sai mais caro.

Tudo isto me parece ter um efeito inflacionista e sugere que o mundo será ainda mais inflacionário nos próximos anos. Rotas que dávamos como garantidas por serem muito eficientes já não são tão simples de usar.

Como é que a China está a absorver estes choques? Como está a reagir?
A China é um dos maiores importadores de petróleo do Médio Oriente, mas, ao mesmo tempo, tem de longe as maiores reservas. A Europa, na prática, tem muito poucas reservas: limitámo-nos a assumir que as importações continuariam a chegar e que tudo correria bem.

A China, por contraste, está preparada para aguentar durante mais tempo sem entradas regulares de petróleo. E, voltando aos anos 1970, quando a indústria automóvel japonesa ganhou tração nesse contexto, há hoje um paralelo: a China é esmagadoramente dominante nos veículos elétricos.

Suspeito que veremos mais pessoas a optar por carros elétricos, porque, nos próximos meses, vão concluir que os preços do gasóleo são realmente absurdos. A supremacia chinesa no fabrico de automóveis elétricos ultrapassa, em escala, praticamente tudo o que já vimos.

Não diria que seja positivo para alguém, mas, entre os potenciais “vencedores”, a China sai mais favorecida do que quase qualquer outro país. Os Estados Unidos, por sua vez, são o país com mais energia disponível, graças ao petróleo e gás de xisto e à fraturação hidráulica. Têm ainda muitos minerais, enormes reservas de cobre e, essencialmente, quase todos os elementos da tabela periódica.

Embora esta guerra esteja a puxar os preços da gasolina para cima nos Estados Unidos, os dois países que provavelmente ficam em melhor posição neste quadro são os Estados Unidos e a China. O resto da Ásia e a Europa ficam numa situação mais frágil. E, para o Golfo, é terrível.

E para África também.
Em teoria, África tem muita riqueza mineral, mas a dependência em relação à China ao nível de infraestruturas é enorme.

Estamos a assistir a uma desglobalização ou é uma globalização que se alterou para um confronto entre blocos?
A meu ver, estamos num ponto de viragem: as perguntas mais importantes sobre globalização estão a ser colocadas agora, com uma intensidade inédita.

Estou, aliás, a terminar um novo livro, que se chamará “Comércio Mundial”. Será, em certo sentido, uma continuação de “Mundo Material”. E aborda precisamente o que é, de facto, a globalização.

O grau de dependência que temos do comércio é tão extremo que chamar-lhe “sem precedentes” quase não chega. Tudo o que se toca, tudo o que se usa é resultado do comércio. É consequência da cadeia de abastecimento de uma empresa que, muito provavelmente, compra componentes espalhados pelo planeta.

Grande parte do que vemos nos navios porta-contentores nem sequer são produtos finais: são componentes e peças que seguem para uma fábrica, depois para outra, e assim sucessivamente. Organizámos o mundo de modo a ficarmos profundamente dependentes da globalização. Por isso mesmo, estamos a pô-la em causa mais do que nunca.

Concordo que, no plano político, há uma deslocação no sentido da desglobalização. Mas existe uma distância grande entre a política - que empurra nessa direção - e a economia. O essencial, do ponto de vista económico, é simples: as pessoas gostam de bens baratos. E a globalização foi capaz de fornecer barato.

Mas, com o ressurgimento dos nacionalismos, estamos a assistir a uma forma mais coerciva de comércio ou de relações comerciais…
A realidade é que ouvimos muita retórica sobre desglobalização por parte de líderes, mas vimos bem menos medidas concretas. Se olharmos para um gráfico do comércio mundial, pode ter havido alguma estabilização desde a crise financeira, mas não houve uma queda. Eu só chamaria desglobalização a uma descida clara.

A maioria dos produtos continua dependente de cadeias de abastecimento plenamente internacionais. Se a desglobalização começar mesmo a acontecer, então viveremos num mundo muito mais inflacionário. E os políticos sabem que há algo que os consumidores não toleram bem: inflação.

Não me parece que já estejamos nesse ponto. E, se chegarmos lá, isso trará sofrimento significativo para consumidores em todo o mundo e também para a China. Se deixarmos de comprar produtos chineses, isso prejudica a China. Por isso, não creio que estejamos perto desse cenário.

Como entende a corrida de Washington às terras raras? É uma forma de admitir que os Estados Unidos estão a perder esta guerra contra a China?
A China tem uma vantagem decisiva: as terras raras. Sem terras raras, já não conseguimos fabricar automóveis - Detroit colapsaria. A ironia é que a China concentra, na prática, cerca de 90% das terras raras do mundo, em grande parte porque os Estados Unidos concluíram que ficava mais barato comprar à China.

Do ponto de vista geológico, as primeiras terras raras do mundo foram refinadas na América. Entre os Estados Unidos e o Canadá existem jazidas muito promissoras. Mas decidiu-se que produzir nos Estados Unidos seria mais caro e mais poluente, e que seria mais cómodo fazê-lo na China.

As terras raras são um caso extremo, mas o mesmo raciocínio aplica-se a muitos outros bens. A maior parte do concentrado de cobre é enviada para ser refinada na China. Porquê? Porque exige muita energia e é um processo poluente. O mesmo acontece com a lã: grande parte é processada na China, porque é mais barato e, em alguns casos, o processo também consome muita energia.

Fizemos estas escolhas porque queremos coisas baratas. Talvez estejamos num momento em que o mundo está a reavaliar se o preço é o único critério - e se a segurança não conta tanto quanto isso.

Os Estados Unidos têm uma mina de terras raras com uma das maiores reservas de tungsténio do mundo. Mas não conseguem torná-la rentável, porque a China vende tungsténio a preços muito baixos.

Mais uma vez, política e economia estão, neste momento, um pouco desalinhadas. Ainda assim, ao longo dos últimos cem anos (ou mais), a economia quase sempre venceu: o preço quase sempre venceu. E não sei se estamos num ponto em que, de repente, possamos ignorar o preço e apenas seguir a política.

Os ataques à Venezuela, ao Irão, um potencial ataque a Cuba têm motivações económicas?
Gostaria de acreditar que tudo se explica pela economia e pelo mundo material. A Gronelândia tem algumas terras raras e outros minerais, mas a sua extração não é barata - não é um “prémio” evidente como noutros sítios.

A Venezuela produz um tipo de petróleo - um crude muito denso - que as refinarias norte-americanas estão particularmente bem preparadas para tratar. Por isso, para os Estados Unidos, ter petróleo venezuelano é economicamente atrativo. Ao mesmo tempo, estão a descobrir que muitos poços venezuelanos estão praticamente inativos e que é necessário reiniciar perfurações, o que é difícil. Isso custará milhares de milhões de dólares.

Mas isto também tem muito a ver com política: trata-se de Donald Trump querer exercer influência sobre o seu hemisfério e protegê-lo do outro hemisfério.

No Ártico, as três potências (Estados Unidos, Rússia e China) estão a competir por diferentes razões?
Existem áreas que sempre foram encaradas como “património comum da Humanidade”, tal como as descreve a ONU. Algumas são bastante ricas em minerais. O Ártico é uma dessas regiões; outra é o fundo do mar.

No livro, falo sobre mineração em grandes profundidades. Suspeito que, nas próximas décadas, veremos mais tensão e mais países a tentar explorar estas zonas - seja no Ártico, no fundo do mar ou até no espaço. A razão é simples: para cumprir as promessas em cima da mesa - transição energética, IA e outras tecnologias que ainda nem conhecemos, mas que podem surgir daqui a cinco ou dez anos - vamos precisar de uma utilização intensiva de minerais.

E encontrar minerais não está a ficar mais fácil; está a ficar mais difícil. Quando isso acontece, a corrida intensifica-se. E penso que essa dinâmica vai continuar.

Temos de refletir muito sobre a robustez da defesa, a fiabilidade das cadeias de abastecimento e outros temas que, deliberadamente, ficaram fora do centro do debate nas últimas décadas - porque perseguíamos objetivos de paz, unidade e globalização, e porque nos víamos como cidadãos globais.

Mas o mundo mudou. Isso também alterará as nossas necessidades?
É uma conversa difícil - e, para a Europa, especialmente complexa -, mas parece que passará a fazer parte do debate público. O que se passa na Ucrânia e o que se passa no Golfo é terrível. Há tragédias humanas por todo o lado.

Ainda assim, é essencial recordar o que ajudou a construir os nossos padrões de vida: energia e minerais. Quanto mais mantivermos isto presente, mais percebemos que faz parte de quem somos.

Temos de ser honestos quanto ao que é necessário para nos alimentarmos. É um alerta - sobretudo para a Europa.

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