Aos nossos olhos, os animais que praticam canibalismo filial podem parecer autênticos monstros; porém, do ponto de vista evolutivo, o julgamento humano tem pouco peso.
Na espécie humana, o instinto parental é quase uma missão sagrada orientada para a sobrevivência da descendência; já nas regras da natureza, é sobretudo uma questão de rentabilidade. Como explica Aneesh Bose, ecólogo comportamental da Universidade Sueca de Ciências Agrícolas: “O canibalismo filial é extremamente comum. É uma ferramenta presente no arsenal de muitas espécies, integrada nas suas estratégias reprodutivas”. Entre nós, a lógica é inversa: o canibalismo (seja parental ou não) é um dos derradeiros tabus das sociedades contemporâneas.
As 1 500 espécies identificadas que recorrem ao canibalismo filial também cuidam das crias; e é precisamente aí que surge um paradoxo que choca a nossa sensibilidade. Para nós, parentalidade associa-se de forma espontânea à protecção; mas, na natureza, essa lei moral não tem razão para existir, à luz da teoria evolucionista formulada por Charles Darwin. Um animal pode passar dias a guardar os ovos e, numa manhã qualquer, transformá-los em lanche: por que motivo a selecção natural nunca “corrigiu” este comportamento?
Canibalismo selectivo: controlo de qualidade e reciclagem
Na vida selvagem, viver é investir. Em animais com ciclos reprodutivos rápidos - como insectos, aranhas ou peixes - o destino de um único indivíduo conta pouco quando comparado com o sucesso de toda a linhagem. Para muitos progenitores, o canibalismo selectivo acaba por ser a estratégia mais eficaz para garantir esse sucesso. Visto sem romantismo: cada cria tem um valor individual muito baixo e, por vezes, sacrificar parte da ninhada é o que permite salvar o resto.
Um exemplo é o necróforo (ou escaravelho-coveiro). Um estudo de 1987 mostrou que, quando a comida escasseia, estes insectos devoram uma parte das suas crias para que as restantes consigam crescer com boa saúde. Desta forma, conseguem assegurar que os recursos alimentares são suficientes para todos.
O mesmo princípio aparece, ocasionalmente, em animais domésticos como cães, gatos ou até porcos: pode acontecer que a mãe coma uma cria que nasceu morta ou demasiado fraca para sobreviver. Em termos biológicos, isto pode ser entendido como reciclagem de energia. O parto é extremamente exigente e, ao reabsorver esses nutrientes, a mãe ganha força para cuidar melhor do restante da ninhada.
É também por isso que animais de grande porte, como baleias ou elefantes, com gestações muito longas, não comem as suas crias. Gerar apenas um bebé exige anos de investimento; devorá-lo seria um sacrifício sem benefício adaptativo.
O “reset” total: quando o animal faz tábua rasa
Noutras espécies, não existe canibalismo selectivo - e, por isso, não há grande impedimento em consumir a descendência inteira. Este padrão é observado, em particular, em pequenos mamíferos como roedores e coelhos. Segundo Aneesh Bose, este “sacrifício global” ocorre muitas vezes quando o tamanho da ninhada é considerado insuficiente.
Se uma fêmea dá à luz poucos filhotes face ao enorme custo energético da amamentação, pode “decidir” parar tudo. Ao consumir a própria prole, recupera calorias e “reinicializa” o ciclo para tentar outra ninhada, mais numerosa e mais promissora, o mais depressa possível.
Nalguns casos, o stress ambiental funciona como detonador. Em roedores, se o habitat se torna subitamente perigoso (por exemplo, com a presença de predadores), a mãe prefere comer as crias a deixá-las para o inimigo. É uma forma de “seguro de vida” para si própria: ela sobrevive para voltar a reproduzir-se quando as condições forem mais favoráveis.
A guerra dos sexos no ninho
Há situações em que o canibalismo resulta de um conflito de interesses entre os progenitores, como acontece em certos peixes, incluindo o peixe-sol (Lepomis macrochirus). Um estudo de 2003 demonstrou que os machos conseguem “sentir”, por via química, se as crias são ou não suas no momento da eclosão.
Se o pai detecta, no seu ninho, o cheiro de descendência de outro macho, não hesita em comer os intrusos para os eliminar. No entanto, como sublinha Bose, “isso contraria a vontade da mãe”, que tem ligação genética a todas as crias. Noutras espécies de peixes, como o góbio-das-areias (Pomatoschistus minutus), a fêmea é obrigada a manter-se alerta para impedir que o macho transforme o berçário num buffet.
Se estes comportamentos nos parecem cruéis, é porque projectamos nos animais valores morais que lhes são alheios, quando, na verdade, foram moldados pela evolução ao longo de milhões de anos. Esta antropomorfização entra em choque directo com uma lei fundamental da etologia: a natureza não conhece o bem nem o mal; conhece apenas o que funciona. No grande livro do reino animal, a ética não pesa nada face à eficácia: comer as próprias crias é apenas um investimento realocado para garantir um melhor rendimento futuro. Tentar moralizar estas condutas, ou não conseguir aceitar esta realidade como norma, são duas reacções que, precisamente, fazem de nós humanos, separados do reino animal.
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