Durante décadas, a agricultura moderna tem dependido de fertilizantes sintéticos para manter as colheitas em níveis elevados. Estes factores de produção tornaram-se tão essenciais que se torna fácil esquecer um princípio básico.
As explorações agrícolas já estão inseridas num ciclo natural de nutrientes - um ciclo que, em grande medida, tem sido negligenciado pela intervenção humana.
Um novo estudo da Universidade de Cornell volta a colocar esse ciclo no centro do debate. A investigação mostra que os nutrientes que deitamos fora ou descarregamos pelo esgoto podem ter um papel decisivo na nutrição das culturas em todo o território dos Estados Unidos.
Os resíduos podem substituir fertilizantes
Para a maioria das pessoas, os resíduos são algo a tratar e eliminar, não um recurso a reaproveitar. No entanto, quando os investigadores analisaram o tema ao detalhe, identificaram uma enorme reserva de nutrientes utilizáveis no estrume animal e nos resíduos humanos.
Se fossem recuperadas na totalidade, estas duas fontes conseguiriam fornecer todo o azoto de que a agricultura dos EUA necessita e cerca de metade da procura de fósforo. Em termos económicos, isso equivale a fertilizante no valor de milhares de milhões de dólares todos os anos.
Esta conclusão põe em causa uma ideia enraizada há muito tempo: o entrave não é a falta de nutrientes, mas sim a forma como são geridos e distribuídos.
Nutrientes distribuídos de forma desigual
O problema torna-se evidente quando se olha para a sua distribuição no território. Os nutrientes tendem a acumular-se em zonas com elevada densidade populacional ou com grandes explorações pecuárias.
Em contrapartida, muitas regiões agrícolas de referência ficam longe destes pontos de origem. O Meio-Oeste e partes das Grandes Planícies, por exemplo, continuam a depender fortemente de insumos sintéticos porque não dispõem de uma oferta de nutrientes nas proximidades.
“Este é um problema de coordenação, não um problema de recursos”, afirmou o coautor do estudo, o professor Chuan Liao.
“Mesmo tendo em conta as limitações do mundo real, continua a existir uma quantidade substancial de nutrientes que pode ser redistribuída de forma economicamente viável para satisfazer as necessidades das culturas.”
Ou seja, o país já possui os recursos de que precisa - o que falha é a forma como esses recursos circulam.
Resíduos como fertilizante local
Se, à escala nacional, o retrato é de desequilíbrio, a nível local o cenário é mais encorajador.
Uma parte significativa dos nutrientes pode ser reaproveitada perto de onde é gerada. Em muitos casos, explorações agrícolas vizinhas conseguiriam absorver esse fornecimento sem ser necessário recorrer a grandes distâncias de transporte ou a custos elevados.
E mesmo quando não é possível ficar estritamente no âmbito local, a transferência de nutrientes para regiões adjacentes continua a ser uma opção realista.
Para compreender melhor esta dinâmica, a equipa de investigação elaborou mapas detalhados. Foram mapeados, em várias regiões e para diversas culturas, tanto a produção de resíduos como as necessidades nutricionais das plantações.
Essa abordagem mostrou que existem muitas oportunidades de reaproveitamento num raio relativamente curto.
A lógica é simples: em vez de transportar fertilizantes sintéticos ao longo de cadeias de abastecimento extensas, faz mais sentido utilizar o que já existe nas proximidades.
Poluição ligada à desigualdade
O estudo também identifica uma relação entre os padrões de nutrientes e as condições sociais. As áreas com excesso de resíduos tendem a registar níveis mais elevados de poluição, à medida que os nutrientes se infiltram em rios e lagos.
Por outro lado, as regiões com menor oferta natural de nutrientes tornam-se mais dependentes de fertilizantes químicos, que, com o tempo, podem degradar o solo e a água. Estes padrões sobrepõem-se frequentemente a comunidades com menos recursos.
“A desigualdade de nutrientes parece espelhar a desigualdade social em termos gerais”, disse Liao. “Por isso, corrigir o fluxo de nutrientes pode, potencialmente, promover justiça ambiental.”
Assim, optimizar a circulação de nutrientes no sistema pode ir muito além de melhorar a eficiência agrícola: pode igualmente reduzir impactos ambientais e apoiar populações mais vulneráveis.
Sistemas locais de fertilização com resíduos
Como poderia ser um sistema mais eficaz? Segundo os investigadores, a prioridade deverá passar por soluções menores e de base local, em vez de uma única rede nacional de grande escala.
Processar os resíduos junto da sua origem e aplicá-los em campos próximos pode tornar todo o processo simultaneamente mais eficiente e mais exequível.
Um exemplo simples ajuda a visualizar esta ideia. Uma exploração pecuária rodeada por campos de cultivo já reúne as condições para um circuito fechado.
Com a infra-estrutura adequada, os resíduos dos animais poderiam fornecer nutrientes directamente às culturas.
Sistemas de resíduos exigem coordenação
“Estamos a defender um sistema descentralizado, para que os resíduos possam ser processados localmente”, afirmou Liao.
“Mas, para o fazer, precisamos de coordenação entre diferentes sectores, como a agricultura, os resíduos e a energia. A tecnologia existe, mas precisamos de governação e infra-estruturas para escalar para todo os EUA.”
Este modelo reduz a dependência de cadeias de abastecimento longas e mantém os nutrientes em circulação dentro da mesma região.
Os resíduos podem reduzir o uso de fertilizantes químicos
O estudo surge numa altura em que o fornecimento global de fertilizantes continua incerto e caro. Além disso, a produção de fertilizantes sintéticos tem custos ambientais - desde o elevado consumo de energia até à poluição.
“O uso excessivo de fertilizantes sintéticos leva à poluição da água, e a própria produção gera mais emissões - é um processo muito intensivo”, disse Liao.
“E, com a guerra no Irão, vêem-se problemas nas cadeias de abastecimento que também podem levar a grande insegurança alimentar.” Em contraste, reutilizar nutrientes já existentes oferece uma via mais estável e potencialmente mais limpa.
A mudança não acontecerá de um dia para o outro. Exige planeamento, investimento em infra-estruturas e cooperação entre sectores. Ainda assim, a ideia central é clara.
Os nutrientes já cá estão. O desafio é aprender a aproveitá-los melhor.
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