Durante décadas, o litoral chinês foi sinónimo de expansão contínua e construção.
As zonas húmidas cederam espaço a explorações de aquacultura, os lodaçais foram cobertos por betão e os habitats costeiros naturais encolheram de forma persistente.
Um estudo recente identificou, porém, uma inversão inesperada desta trajectória. A equipa de investigação analisou oito anos de dados de satélite referentes a mais de 50 cidades costeiras.
Os resultados apontam para marismas em crescimento, árvores a recuperar antigos viveiros e trechos de costa a regenerarem-se em vez de continuarem a recuar.
Uma vista a partir da órbita
Nan Wang, da Universidade Oceânica da China, na cidade portuária de Qingdao, trabalhou com uma equipa para encontrar uma forma justa de avaliar um esforço nacional de restauro costeiro distribuído por mais de 50 cidades.
Esse esforço integra o Programa de Restauro Ecoambiental Marinho da China, financiado pelo Estado, que apoiou 81 projectos entre 2016 e 2022 com mais de 7 mil milhões de dólares.
No conjunto, abrangeu cerca de 80 900 hectares (200 000 acres) de linha costeira, grande parte dos quais eram antigas áreas dedicadas à piscicultura.
Para atribuir uma classificação sem ter de visitar cada troço de costa, o grupo recorreu a imagens gratuitas de satélite do programa europeu Sentinel-2, capazes de captar detalhes da faixa litoral.
Um modelo computacional classificou cada pixel em categorias como marisma ou viveiro de aquacultura, e depois essa classificação foi verificada manualmente. A comparação entre 2015 e 2023 mostrou com precisão o que se alterou - e em que locais.
Recuo discreto dos viveiros
A mudança mais expressiva foi a redução silenciosa das explorações de aquacultura. Nas zonas intervencionadas, as marismas salgadas voltaram a ocupar áreas que tinham sido isoladas por diques e transformadas em tanques.
A extensão de marismas aumentou quase sete vezes, passando de cerca de 2 670 hectares (6 600 acres) para 18 130 hectares (44 800 acres).
Os mangais - árvores tolerantes ao sal, enraizadas em lamas sujeitas às marés - quase quadruplicaram, subindo de aproximadamente 809 hectares (2 000 acres) para 3 237 hectares (8 000 acres).
Uma parte substancial deste crescimento surgiu onde antes existiam viveiros e superfícies nuas. Face a décadas de perda de habitat, os ganhos são contidos, mas relevantes.
Os novos mangais repuseram cerca de 14% do que a China perdeu entre 1950 e 2015, e as marismas adicionadas recuperaram perto de um quarto de uma perda anterior.
Um estudo independente sobre zonas húmidas costeiras concluiu que recuperações deste tipo tendem a gerar benefícios duradouros.
Linhas de costa a recuperar um carácter natural
Também a própria linha de costa foi sendo redesenhada. Margens endurecidas por betão e paredes associadas à aquacultura deram lugar a um litoral mais natural, com formas que se adaptam ao ritmo das marés.
Ao longo dos troços restaurados, a proporção de costa classificada como natural praticamente duplicou, de cerca de 39% para 79%.
As paredes que delimitavam explorações aquícolas foram as que mais depressa desapareceram, reduzindo-se de cerca de 386 km (240 milhas) para 122 km (76 milhas). Nada disto ocorreu de maneira uniforme.
Nas províncias do norte, o fecho de viveiros coincidiu com a expansão de marismas, enquanto as costas mais quentes do sul registaram ganhos de mangais.
As linhas de costa arenosas aumentaram quase em todo o lado, com excepção de uma província setentrional de sedimentos lodosos onde as praias arenosas são, por natureza, pouco comuns.
Carbono na lama
Marismas e mangais restaurados fazem mais do que amortecer a energia das ondas. Estas formações retiram carbono da atmosfera e retêm-no em solos encharcados.
Os cientistas designam este armazenamento de longo prazo por carbono azul, porque pode permanecer soterrado durante séculos.
Dentro das áreas intervencionadas, a taxa estimada de captura de carbono quase duplicou, de cerca de 38 000 para 73 000 toneladas por ano.
Dois projectos de marismas em foz de rio - nos estuários do Liaohe e do Rio Amarelo - destacaram-se como sumidouros. Em conjunto, estas marismas restauradas funcionam como sumidouros significativos de carbono a longo prazo.
Este incremento equivale a quase 9% do carbono absorvido ao longo de toda a costa chinesa, um contributo relevante para um país que persegue metas de neutralidade carbónica.
Um artigo recente defende que os habitats restaurados tendem a apresentar melhor desempenho quando se ligam a sistemas maiores e mais conectados.
Quantificar o retorno
A equipa estimou ainda, em termos monetários, os serviços fornecidos por estes ecossistemas - como protecção contra tempestades, áreas de reprodução para peixes e melhoria da qualidade da água.
Concluíram que o valor anual estimado aumentou de aproximadamente 5,7 mil milhões de dólares para 8,1 mil milhões de dólares. Quando comparados com o custo dos projectos, os benefícios mostraram-se expressivos.
Num horizonte de cinco anos, os ganhos aproximaram-se de quatro vezes o montante investido; em dez anos, ultrapassaram seis vezes.
A China também conseguiu restaurar costa a um custo inferior ao padrão global, beneficiando de custos de mão de obra mais baixos e das poupanças associadas ao trabalho em grande escala.
Uma revisão ampla do restauro marinho a nível mundial relata o mesmo padrão: o retorno tende a aumentar com o tempo.
Nem todos os projectos
Os 81 projectos não obtiveram todos a mesma avaliação. A equipa pontuou cada intervenção segundo estabilidade, ganho ecológico e retorno económico, e depois elaborou um ranking.
A maioria ficou no intervalo médio ou superior; um pequeno número destacou-se com resultados excepcionais; e dois ficaram claramente aquém.
As marismas e os mangais proporcionaram retornos ecológicos fortes, ao passo que as praias arenosas geraram a maior parte do seu valor através do turismo - por isso, poucos projectos se destacaram em todas as dimensões.
Uma intervenção em Panjin, no nordeste da província de Liaoning, sobressaiu por alcançar pontuações elevadas em todos os critérios. A estabilidade também variou consoante o habitat.
As marismas salgadas mantiveram-se e, em alguns casos, expandiram-se por si próprias. Os mangais foram preenchendo áreas gradualmente ao longo do tempo.
As praias restauradas revelaram-se o habitat menos estável, perdendo areia para as ondas até assentarem num perfil mais fino - um risco conhecido da recuperação de praias, e não uma falha do trabalho.
Mudanças que ainda estão por vir
Antes desta análise, ninguém tinha medido o programa completo de uma só vez. Existiam estudos sobre projectos isolados e inquéritos com opinião de especialistas, mas faltava uma visão nacional clara.
Uma grelha de avaliação baseada em satélite - a que a equipa chama índice de eficácia do restauro marinho - veio finalmente preencher essa lacuna.
Como assenta em dados de satélite gratuitos e num método publicado, a mesma grelha poderá avaliar restauros muito para lá da China, incluindo em locais que não conseguem suportar campanhas de levantamento no terreno.
Isto dá aos governos uma forma barata e consistente de verificar se o investimento na costa está a produzir resultados.
Persistem, contudo, algumas incógnitas. O registo cobre apenas um a sete anos, e a recuperação costeira completa pode levar 15 a 20 anos, pelo que o desfecho a longo prazo permanece incerto.
Habitats menos visíveis, como ervas marinhas e coral, escaparam por completo aos satélites. Ainda assim, a mensagem central mantém-se: numa costa durante muito tempo marcada pela perda, a tendência mensurável começou a inverter-se e a reparar-se.
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