A administração Trump acaba de recuar depois de ter congelado os vistos de milhares de médicos estrangeiros em nome da segurança nacional. Uma travagem a fundo, feita à pressa, para evitar que um sistema de saúde norte-americano já bastante fragilizado entrasse em colapso.
Congelamento de vistos e recuo da administração Trump
A política migratória de Donald Trump tem muito em comum com a ofensiva contra a infra-estrutura científica do país: é polarizadora, para não dizer mais. O Governo, ao que tudo indica, não parece distinguir entre aquilo que diz proteger e aquilo que acaba por destruir. Em janeiro de 2026, a administração dos Estados Unidos decidiu suspender o tratamento de pedidos de visto e de renovações de autorização de residência para cidadãos de 39 países classificados como “de alto risco”. A lista incluía, sem grande nuance, neurocirurgiões afegãos, pediatras haitianos e médicos de família iemenitas ou iranianos que trabalham em muitos dos desertos médicos americanos.
Com esta decisão, mais de 10 000 médicos com visto H-1B (o visto de trabalho dos EUA para profissões altamente qualificadas) e 17 000 internos com visto J-1 (o visto de intercâmbio universitário que permite a médicos estrangeiros fazerem a residência nos Estados Unidos) ficaram bloqueados, sem possibilidade de renovar a autorização de trabalho.
Na semana passada, o US Citizenship and Immigration Services (USCIS) actualizou o seu site para indicar que, afinal, os médicos deixariam de ser abrangidos por esta medida. A agência federal não se alongou muito sobre esta mudança de posição, mas o motivo é relativamente óbvio.
Tio Sam: dependente da imigração para se manter saudável
De acordo com uma carta assinada em conjunto por mais de vinte organizações médicas, 23 % dos médicos autorizados a exercer nos Estados Unidos foram formados no estrangeiro. Dentro deste grupo, 64 % trabalham em zonas sub-dotadas ou com carência de profissionais, e perto de 21 milhões de americanos vivem em territórios onde os médicos diplomados fora do país representam pelo menos metade do corpo clínico local.
A maioria dos médicos apanhados pelo congelamento prestava cuidados sobretudo a populações de Estados “vermelhos”, favoráveis a Trump. A ironia é evidente: ao tomar esta decisão, a administração acabou por atingir em cheio o seu próprio eleitorado rural, que, em muitos casos, depende precisamente destes médicos estrangeiros para ter acesso a cuidados.
Pressão política e escassez de médicos nos EUA
Em poucos meses, a pressão tornou-se insustentável. A American Medical Association e 53 sociedades médicas pediram em conjunto ao Department of Homeland Security que os médicos estrangeiros fossem excluídos do congelamento, invocando o interesse nacional. Em fevereiro, um grupo bipartidário de 100 eleitos do Congresso enviou uma carta com o mesmo pedido ao mesmo ministério.
A Association of American Medical Colleges veio reforçar o alerta ao lembrar que o país já tinha um défice de 65 000 médicos em 2024. Esse número poderá subir para 86 000 até 2036, ou mesmo para 141 000 segundo projecções federais com horizonte em 2038. A “América profunda” deverá ser ainda mais afectada, com uma taxa de escassez rural estimada em 58 % contra 5 % nas áreas metropolitanas (dados do relatório da Health Resources & Services Administration). Mississippi, Arkansas, Dakota do Sul, Texas: Estados que votaram a 65, 70, por vezes 75 % no homem que, durante alguns meses, os deixou sem um acesso adequado aos cuidados de saúde. A política migratória como ferramenta de auto-mutilação eleitoral; a administração norte-americana inovou… à sua maneira.
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