Os trabalhadores chineses destacados para o estaleiro da fábrica da BYD em Szeged, na Hungria, terão sido recrutados pelo mesmo subcontratado que operou na unidade do construtor no Brasil, já denunciada por condições consideradas «próximas da escravatura». Com jornadas de 12 horas e sem descanso semanal, os empregados enfrentariam pressão e chantagem. Já se registou uma morte.
A BYD volta a ser alvo de críticas relacionadas com a construção das suas fábricas. Mais de um ano depois do caso chocante associado à unidade no estado da Bahia, no nordeste do Brasil, o fabricante automóvel chinês é agora acusado de práticas semelhantes na obra da sua fábrica húngara, em Szeged. A abertura estava prevista para o final do ano passado. Em fevereiro, um trabalhador perdeu a vida, e desde outubro de 2025 foram contabilizadas uma dúzia de intervenções dos serviços de emergência.
Condições no estaleiro da BYD em Szeged, Hungria
Segundo as denúncias, a maioria dos operários - predominantemente chineses - estaria sujeita a turnos de 12 horas por dia, 7 dias por semana. Para além do horário, também são descritas condições de vida frágeis e precárias.
Pressão, chantagem e inspeções ao trabalho
As acusações incluem ainda relatos de pressão e chantagem. De acordo com o que é apontado, os subcontratados procurariam ocultar sinais de trabalho forçado, instruindo os trabalhadores a responder aos inspetores do trabalho que trabalhariam apenas «cinco dias por semana, oito horas por dia, com uma hora extra».
A ONG China Labor Watch publica um relatório de 28 páginas e alerta as autoridades europeias
O alerta partiu da ONG China Labor Watch, sediada em Nova Iorque, que reporta violações graves dos direitos dos trabalhadores no estaleiro da fábrica na Hungria - a primeira instalação da BYD no continente europeu. A organização diz basear-se em observações no local e em entrevistas com cerca de cinquenta operários.
A entidade empregadora não seria a BYD diretamente, mas sim um dos seus subcontratados, já conhecido por ter trabalhado com o construtor automóvel chinês no projeto do Brasil. Foi precisamente essa unidade que desencadeou os primeiros alertas de ONG e até das autoridades. No terreno, as condições de trabalho e alojamento foram descritas como muito degradadas. As autoridades brasileiras, através do Ministério Público do estado da Bahia, enumeraram o que estes trabalhadores viviam:
«Os agentes públicos encontraram trabalhadores amontoados em alojamentos sem as condições mínimas de conforto e higiene, com guardas armados, passaportes confiscados, contratos de trabalho com cláusulas ilegais, horários de trabalho extenuantes e sem qualquer descanso semanal».
Ainda mais preocupante, uma casa de banho e um duche teriam de ser partilhados por… 31 pessoas. Esses trabalhadores chineses estavam empregados pela Jinjiang Construction Brazil Ltd, uma filial do grupo que também atua na obra da fábrica húngara.
O relatório da China Labor Watch tem 28 páginas e foi inicialmente enviado às autoridades europeias. Três eurodeputados solicitaram a intervenção da Comissão Europeia. O documento ganhou depois ampla divulgação na sequência de um artigo da CNBC. Para lá das denúncias sobre as condições laborais, a morte de um trabalhador e as doze intervenções de emergência reforçam a preocupação sobre o que estará a acontecer no estaleiro na Hungria.
A Hungria abriu-se durante anos à China; a BYD junta-se à CATL no país
Sob a administração de Viktor Orbán - recentemente derrotado nas eleições por Péter Magyar -, a Hungria mostrou-se especialmente recetiva ao investimento chinês. Após ter visto fundos da União Europeia (17 mil milhões de euros) bloqueados devido a violações do Estado de direito, incluindo problemas ligados à corrupção, o país procurou alternativas, em particular junto de Pequim. Em 2024, bancos chineses terão concedido discretamente 1 mil milhão de euros em empréstimos. Soma-se a isto um financiamento de 1,3 mil milhões de euros para suportar o campus da Fudan University.
Em paralelo com a BYD, a Hungria também recebeu o gigante das baterias CATL, bem como vários outros fornecedores. Para a BYD, a instalação de uma fábrica no território húngaro serviria para contornar as taxas europeias aplicadas aos automóveis elétricos importados da China (direitos aduaneiros). Nesse contexto, a pequena citadina Dolphin Surf poderia beneficiar de forma significativa, tal como o Atto 2.
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