"As teorias são como escovas de dentes", costuma dizer-se por aí. "Cada pessoa tem a sua e ninguém quer usar a de outra pessoa."
É uma piada, mas, quando o tema é o estudo da consciência - a questão de como é possível termos uma experiência subjectiva de seja o que for - não anda assim tão longe da realidade.
Em 2022, o neurocientista britânico Anil Seth e eu publicámos uma revisão que enumerava 22 teorias ancoradas na biologia do cérebro. Já em 2024, com um âmbito menos restritivo, o intelectual público norte-americano Robert Kuhn contabilizou mais de 200.
É neste contexto que a Nature acaba de divulgar os resultados de uma "colaboração adversarial" conduzida por um grupo chamado Consórcio Cogitate, centrada em duas teorias de grande destaque: a teoria do espaço de trabalho neuronal global e a teoria da informação integrada.
Duas grandes teorias frente a frente
Com tantas ideias a circular e um objecto de estudo intrinsecamente escorregadio, pôr teorias à prova nunca foi tarefa simples. Na verdade, a disputa entre defensores de teorias diferentes tem sido intensa e, por vezes, amarga.
Num ponto particularmente baixo em 2023, após o anúncio inicial dos resultados que o Cogitate publica formalmente hoje, muitos especialistas assinaram uma carta aberta a argumentar que a teoria da informação integrada não só é falsa como nem sequer deve ser considerada científica.
Ainda assim, a teoria do espaço de trabalho neuronal global e a teoria da informação integrada contam-se entre as "quatro grandes" teorias que dominam hoje as discussões sobre consciência. (As outras são as teorias das representações de ordem superior e a teoria do reentrada local - ou teoria da recorrência.)
É difícil resumir estas propostas, mas ambas relacionam a consciência com a actividade dos neurónios em diferentes regiões do cérebro.
Defensores destas duas teorias, em conjunto com vários teóricos não alinhados, formularam previsões, a partir de cada teoria, sobre que tipos de actividade cerebral se esperaria ver associados à consciência.
Previsões e resultados
O grupo concordou que a teoria da informação integrada prevê que a percepção consciente esteja ligada a uma sincronização sustentada e à actividade de sinais numa zona do cérebro chamada córtex posterior.
Por outro lado, afirmaram que a teoria do espaço de trabalho neuronal global prevê que um processo de "ignição neural" acompanhe tanto o início como o fim de um estímulo. Além disso, deveria ser possível descodificar aquilo de que uma pessoa está consciente a partir da actividade no seu córtex pré-frontal.
Estas hipóteses (entre outras) foram testadas por equipas "neutras em termos teóricos" espalhadas pelo mundo.
Os resultados não foram conclusivos. Alguns alinharam com as previsões de uma ou outra teoria, mas outros levantaram dificuldades.
Por exemplo, a equipa não encontrou no córtex posterior a sincronização sustentada do tipo previsto pela teoria da informação integrada. Ao mesmo tempo, a teoria do espaço de trabalho neuronal global é posta em causa pelo facto de nem todos os conteúdos da consciência terem sido descodificáveis a partir do córtex pré-frontal, e também pela ausência de ignição neural quando o estímulo foi apresentado pela primeira vez.
Uma vitória para a ciência
Mas, embora este estudo não tenha sido uma vitória de nenhuma das teorias, foi uma vitória clara para a ciência. Marca um avanço significativo na forma como a comunidade que estuda a consciência encara a testagem de teorias.
Não é raro que investigadores tendam a procurar evidência a favor da sua própria teoria. Contudo, a gravidade deste problema na ciência da consciência só ficou realmente evidente em 2022, com a publicação de um artigo importante por vários investigadores envolvidos no Consórcio Cogitate. Esse artigo mostrou que era possível prever qual teoria da consciência um determinado estudo iria apoiar apenas a partir do seu desenho.
A grande maioria das tentativas de "testar" teorias da consciência foi conduzida por defensores dessas mesmas teorias. Como resultado, muitos estudos concentraram-se em confirmar teorias (em vez de procurar falhas, ou de as falsificar).
Sem mudanças de opinião
O primeiro feito desta colaboração foi conseguir que teóricos rivais concordassem em previsões testáveis para as duas teorias. Isto foi particularmente difícil, uma vez que tanto a teoria do espaço de trabalho global como a teoria da informação integrada estão formuladas em termos muito abstractos.
Outro resultado importante foi executar exactamente as mesmas experiências em diferentes laboratórios - um desafio especialmente exigente, dado que esses laboratórios não estavam comprometidos com as teorias em causa.
Nas fases iniciais do projecto, a equipa pediu aconselhamento ao psicólogo israelo-americano Daniel Kahneman, o arquitecto da ideia de colaborações adversariais na investigação.
Kahneman disse que não se devia esperar que os resultados mudassem a opinião de alguém, mesmo que favorecessem de forma decisiva uma teoria em detrimento de outra. Os cientistas, salientou, comprometem-se com as suas teorias e agarram-se a elas mesmo perante contra-evidência.
A utilidade da irracionalidade
Este tipo de teimosia irracional pode parecer um problema, mas não tem de o ser. Com os sistemas certos, pode até contribuir para o progresso da ciência.
Dado que não sabemos qual abordagem teórica à consciência tem maior probabilidade de estar correcta, a comunidade científica deveria atacar o problema a partir de múltiplas perspectivas.
A comunidade de investigação precisa de mecanismos para se auto-corrigir. No entanto, é útil que cientistas individuais se mantenham fiéis às suas posições teóricas e continuem a trabalhar dentro de uma teoria específica, mesmo perante resultados difíceis.
Um quebra-cabeças difícil
A consciência é um quebra-cabeças difícil. Ainda não sabemos se vai ceder aos métodos actuais da ciência da consciência ou se exigirá uma revolução nos nossos conceitos ou métodos (ou, talvez, em ambos).
O que é claro, porém, é que, se quisermos desembaraçar o problema da experiência subjectiva, a comunidade científica terá de adoptar este modelo de investigação colaborativa.
Tim Bayne, Professor de Filosofia, Monash University
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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