Saltar para o conteúdo

Café cultivado à sombra: o que o novo estudo revela sobre carbono, resiliência e rendimento

Agricultor com chapéu a medir o solo numa plantação de café ao ar livre ao amanhecer.

O café cultivado à sombra tem sido, há muitos anos, apresentado como uma opção amiga do ambiente.

A ideia é simples: ao produzir café debaixo de uma copa de árvores, espera-se favorecer a vida selvagem, proteger os solos e tornar as explorações agrícolas mais robustas.

Um estudo recente procurou verificar até que ponto estas promessas correspondem à realidade. Com base em décadas de trabalhos científicos, concluiu que algumas das vantagens ambientais mais apontadas para o café à sombra têm, de facto, um suporte sólido.

Ainda assim, a análise também mostra que outros benefícios são mais complexos do que o rótulo deixa transparecer.

Sob pressão crescente

O café garante o sustento de mais de 25 milhões de famílias de pequenos agricultores, em grande parte em pequenas parcelas tropicais, e um estudo recente descreve a sensibilidade desta cultura ao aquecimento global.

As condições de que o café precisa estão a tornar-se menos favoráveis: épocas mais quentes, chuva irregular e períodos secos mais prolongados.

Épocas mais quentes, precipitação errática e secas mais longas contribuem, em conjunto, para condições que aumentam a erosão nas zonas de cultivo de café.

Esta pressão recai sobretudo sobre quem tem menos margem financeira para absorver um ano de colheita fraca.

Uma resposta que tem ganho espaço é a agrofloresta: em vez de produzir café a céu aberto, passa-se a cultivá-lo sob um conjunto de árvores de sombra, alterando o funcionamento de toda a exploração.

Para perceber de que forma a sombra influencia as explorações cafeeiras, uma equipa liderada por Altyeb Ali Abaker Omer, da Universidade de Pu'er, em Pu'er, China, reuniu 46 estudos de campo realizados entre 2006 e 2025.

Onde se esconde o carbono

Na maioria dos 46 estudos, o carbono foi contabilizado sobretudo em dois reservatórios: a biomassa lenhosa acima do solo (árvores e arbustos) e o carbono do solo por baixo dessa vegetação. Estes dois componentes surgiram repetidamente.

O resultado contraria a suposição mais imediata. Em regra, era o solo - e não as árvores - que concentrava a maior fatia do carbono, frequentemente entre 60 e 90 por cento do total. A copa chama a atenção, mas é o terreno que, muitas vezes, guarda mais.

As raízes e as camadas mais profundas foram mais difíceis de quantificar, pelo que vários trabalhos recorreram a estimativas em vez de medições directas.

Além disso, comparar solos de diferentes explorações torna-se complicado quando as equipas recolhem amostras a profundidades diferentes.

Dimensão das árvores e dimensão do carbono

A introdução de sombra teve impacto. Em média, o café à sombra reteve entre duas a quatro vezes mais carbono do que a mesma cultura a pleno sol, acumulando cerca de 1,2 a mais de 7,4 toneladas por hectare por ano (equivalente a aproximadamente meia tonelada a mais de três toneladas por acre por ano).

A surpresa maior não esteve tanto no número de espécies presentes numa exploração, mas sim no tamanho que as árvores atingiam - uma conclusão baseada apenas na dimensão, e não na diversidade.

Um pequeno conjunto de árvores grandes e maduras podia armazenar mais do que uma lista extensa de árvores pequenas, uma diferença que a investigação específica sobre café tinha, em grande parte, diluído até esta síntese.

A gestão, por outro lado, empurrava no sentido oposto: remover sombra, desbastar árvores ou voltar a plantar café em monocultura fazia, de forma consistente, o carbono diminuir.

No entanto, sombra em excesso pode reduzir a produtividade, o que aponta para uma copa moderada como ponto de equilíbrio entre colheita e armazenamento.

Amortecedor contra extremos

A mesma copa que ajuda a reter carbono também altera o microclima por baixo. A sombra reduz a temperatura do ar sob as árvores.

Ao abrandar a evaporação, contribui para que o solo mantenha a humidade durante os períodos secos, algo que tem sido associado a uma produção mais estável.

Alguns dos sinais mais claros surgiram após eventos extremos. Em explorações atingidas por furacões em Porto Rico, as parcelas com sombra recuperaram mais depressa do que as de pleno sol, ao mesmo tempo que mantinham mais carbono.

Na Etiópia, sistemas com maior sombra apresentaram mais carbono e uma cobertura arbórea mais robusta do que explorações vizinhas mais simplificadas. Aqui, o solo teve um papel duplo.

O carbono contabilizado como armazenamento tende a vir acompanhado de melhor estrutura do solo e maior capacidade de retenção de água, o que provavelmente ajuda a exploração a atravessar uma seca.

Ou seja, o solo fica mais saudável, e não apenas com mais carbono guardado.

O que continua por demonstrar

Nesta parte, a revisão traça uma fronteira que estudos anteriores muitas vezes deixaram esbatida. Os impactos do clima no café estão bem descritos, e uma revisão chegou a listar a redução das áreas adequadas de cultivo e o aumento de pragas.

Já o lado “protector” do argumento assenta em evidência menos firme. Poucos trabalhos avaliaram directamente como explorações com muito carbono resistiram a uma seca ou a uma onda de calor reais.

Muitos estudos apoiaram-se em indicadores indirectos, como a percentagem de cobertura de copa ou a serapilheira, em vez de medirem a resposta das próprias plantas. A ligação entre carbono e sobrevivência parece plausível, mas permanece, em grande medida, por testar.

A geografia também limita o alcance. A maior parte da evidência vem da América Latina, da África Oriental e de partes da Ásia, deixando importantes regiões produtoras de café com pouca investigação.

Por isso, um padrão observado na Etiópia pode não se repetir em explorações com solos e regimes de chuva diferentes.

A questão do dinheiro

Para quem decide se mantém árvores em pé, a resposta costuma ser económica.

Uma expectativa tem sido a dos créditos de carbono - pagamentos que recompensam os agricultores pelo carbono armazenado nas suas terras. Até agora, os retornos parecem reduzidos.

Num dos poucos estudos que quantificou o valor, os pagamentos por carbono ficaram abaixo de um por cento dos ganhos da exploração.

As árvores trouxeram vantagens financeiras por outras vias: fruta, lenha, madeira e colheitas mais regulares num sistema misto tiveram maior peso no orçamento das famílias.

Esta diferença muda a forma como estes benefícios devem ser comunicados. A evidência de que explorações mistas e sombreadas distribuem melhor o risco é relativamente consistente.

Já a ideia de que o armazenamento de carbono, por si só, aumenta de forma significativa o rendimento da exploração continua pouco sustentada; por isso, vender a sombra como um “pagamento” de carbono pode criar expectativas excessivas.

O que isto pode mudar

O que esta revisão clarifica é onde está o carbono do café: nas árvores grandes e duradouras e no solo que elas protegem, funcionando em conjunto.

Trata-se da primeira revisão a juntar armazenamento de carbono, resiliência e meios de subsistência numa avaliação centrada especificamente no café.

Isso tem implicações práticas. Os produtores e os programas que os aconselham têm motivos para preservar árvores de sombra maduras e manter uma copa moderada, em vez de a eliminar para obter um aumento rápido de produção.

Para quem desenha esquemas de carbono, fica mais claro que os pagamentos, por si só, não conseguem sustentar uma exploração.

O passo seguinte é deixar de inferir e passar a medir: acompanhar como explorações ricas em carbono se comportam durante secas, ondas de calor e anos difíceis.

Se a investigação futura confirmar estes resultados, as árvores por cima do cafeeiro poderão tornar-se uma defesa comprovada contra o stress climático - para a exploração e, no fim, para a chávena.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário