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Gatos de terapia: a alternativa felina aos cães de terapia

Gato vestido com colete azul sentado no colo de mulher num consultório veterinário.

Os cães são animais sociáveis, cheios de entusiasmo e usados com frequência para confortar pessoas em contextos como hospitais, escolas e lares. Ainda assim, há uma alternativa que tem vindo a ganhar terreno: os gatos de terapia.

Gatos de terapia e terapia assistida por animais

A expressão é muitas vezes aplicada de forma imprecisa nos meios de comunicação e nem sempre é usada de modo consistente na literatura científica. No sentido mais rigoroso, a terapia assistida por animais corresponde a uma actividade estruturada, conduzida por profissionais de saúde e orientada por objectivos clínicos.

Na prática, muitos dos gatos envolvidos acabam por integrar programas mais amplos de serviços assistidos por animais. Para manter a leitura simples, ao longo deste texto vamos usar sempre a designação "gato de terapia".

Estes gatos são utilizados para ajudar a reduzir a solidão e o stress. Podem estar presentes em prisões, escolas, unidades de cuidados paliativos, lares e hospitais, sendo também uma opção recomendada para quem tem medo de cães ou possa ter dificuldade em interagir com animais de grande porte, como os cavalos.

Porque é que certos gatos aguentam ambientes exigentes

Os locais onde os gatos de terapia são frequentemente levados - por exemplo, lares ou escolas - podem ser barulhentos, imprevisíveis e cheios de pessoas desconhecidas e de estímulos novos. E são precisamente estes cenários que tendem a desestabilizar um gato típico.

Em geral, os gatos preferem rotinas e ambientes estáveis. À semelhança dos seus antepassados felinos selvagens, os gatos domésticos costumam privilegiar a segurança do território em detrimento de laços sociais fortes com pessoas ou com outros gatos.

Para se orientarem e se sentirem seguros, os gatos dependem muito do olfacto. A feromona F3 ajuda-os a assinalar zonas como "seguras" ou "conhecidas", funcionando como uma espécie de mapa olfactivo da sua área.

Apesar disso, tendências recentes nas redes sociais apontam para uma mudança naquilo que pensamos saber. Cada vez mais, vemos gatos a viajar com os seus tutores numa autocaravana, de avião ou até em motas.

O que surpreende é que estes gatos parecem tolerar - e, por vezes, até prosperar - em ambientes que especialistas em comportamento animal consideravam demasiado stressantes. Então, o que é que distingue estes gatos?

O que mostram os estudos sobre gatos seleccionados para serviços assistidos por animais

Alguns gatos conseguem beneficiar da presença de um humano de confiança quando estão em locais desconhecidos ou potencialmente stressantes. Num estudo de 2021, a investigadora de comportamento animal Alexandra Behnke e colegas observaram que quase metade dos 42 gatos testados apresentava sinais do efeito de base segura - um vínculo que, ao reencontrar o tutor, ajuda a reduzir o stress e a promover a exploração.

É possível que este mecanismo esteja a contribuir para que os gatos de terapia lidem melhor com ambientes novos.

Um estudo mais recente, liderado por Joni Delanoeije, investigadora belga na área da interacção humano-animal, analisou de que forma os gatos escolhidos para serviços assistidos por animais diferem de um gato doméstico comum.

A investigação avaliou respostas a questionários relativos a 474 gatos, dos quais 12 tinham participado nesses serviços. Em comparação com gatos de companhia típicos, os gatos envolvidos em serviços assistidos por animais mostraram-se mais sociáveis tanto com pessoas como com outros gatos, procuraram mais atenção e foram menos resistentes a serem contidos.

Estes resultados indicam que certos traços comportamentais - como sociabilidade e tolerância - podem tornar alguns gatos mais adequados para interagir com pessoas em contextos pouco familiares. No entanto, como o número de gatos efectivamente envolvidos em trabalho de serviço foi reduzido neste estudo, é necessária mais investigação para se poderem tirar conclusões sólidas.

Além disso, estes gatos tendem a ter relações fortes e assentes na confiança com quem os acompanha. A socialização precoce e a exposição gradual parecem ser fundamentais para os preparar para a imprevisibilidade inerente ao trabalho em contexto de serviço.

Ainda assim, mesmo reunindo estas características, os gatos podem enfrentar dificuldades em ambientes terapêuticos. Num estudo global de 2023 sobre serviços assistidos por gatos, os psicólogos norte-americanos Taylor Griffin e Lori Kogan concluíram que mesmo gatos bem adaptados podem ter problemas na prática.

Nesse estudo, 68% dos condutores indicaram ter terminado visitas mais cedo por considerarem que era o melhor para o gato. Os participantes também relataram ter vínculos muito fortes com os seus gatos - uma relação que provavelmente é determinante para a capacidade de adaptação do animal, ao proporcionar uma sensação de segurança e previsibilidade num cenário potencialmente stressante.

Como se comparam os gatos de terapia aos cães?

Os gatos diferem dos cães nas necessidades sociais, no temperamento e na tolerância à mudança. Estas diferenças têm de ser ponderadas com cuidado na selecção para trabalho terapêutico - mas também podem representar vantagens.

Por exemplo, os gatos de terapia podem ser especialmente benéficos para pessoas que se identificam como "pessoas dos gatos". Estudos indicam que esta auto-classificação se associa a certos traços de personalidade, com "pessoas dos gatos" a tenderem a ser mais independentes, criativas e auto-suficientes.

Por contraste, as "pessoas dos cães" costumam ser descritas como mais extrovertidas, sociáveis e orientadas para o grupo. Assim, quem prefere gatos poderá sentir-se mais confortável em intervenções terapêuticas individuais, enquanto quem prefere cães pode inclinar-se mais para actividades em grupo.

As preferências por espécie também influenciam as reacções emocionais. Num estudo de 2022, a investigadora Jovita Lukšaite e colegas recorreram a software de análise de expressões faciais para avaliar as reacções de participantes a imagens de animais.

Em média, imagens de gatos e de cães geraram níveis semelhantes de felicidade, mas as imagens de cães suscitaram significativamente mais medo. O receio de cães pode diminuir a eficácia da terapia assistida por cães em algumas pessoas, o que torna os gatos uma alternativa relevante.

Os cães podem destacar-se no apoio emocional através do contacto físico, mas o ronronar é uma característica única dos gatos que pode trazer benefícios terapêuticos. Um estudo de 2001 concluiu que os gatos domésticos ronronam a uma frequência entre 25 e 50 hertz - uma frequência que promove a recuperação em humanos.

Embora faltem estudos mais recentes que reforcem este resultado, uma investigação de 2021 mostrou que tutores de gatos relataram que o ronronar tinha um efeito calmante.

Assim, apesar de os cães serem o animal de terapia mais tradicional, os gatos demonstraram que também podem cumprir esse papel. Com o temperamento certo e o treino adequado, os gatos podem oferecer uma forma diferente de conforto a quem dele precisa.

Grace Carroll, Docente de Comportamento e Bem-Estar Animal, Escola de Psicologia, Queen's University Belfast

Este artigo foi republicado da plataforma The Conversation ao abrigo de uma licença CC. Leia o artigo original.

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