O esplendoroso “rio” de estrelas, entrelaçado com poeira escura, que desenha o plano da Via Láctea no céu nocturno poderá ter estado, afinal, à vista de todos em representações artísticas do Egipto antigo.
Segundo uma análise de centenas de caixões, algumas imagens da deusa do céu, Nut, pintadas nas laterais de sarcófagos ricamente decorados incluem interpretações estilizadas do plano galáctico. A conclusão é de Or Graur, astrofísico da Universidade de Portsmouth, no Reino Unido.
Graur sustenta que certos pormenores são tão minuciosos que chegam a sugerir a presença da densa e serpenteante faixa de poeira que atravessa o fluxo de estrelas visível na noite.
Nut no Egipto antigo e o céu como corpo
Nut é uma das divindades mais antigas do panteão do Egipto antigo, associada ao firmamento e a tudo o que nele existe. Nas representações mais comuns, surge como uma mulher nua, com o corpo coberto por elementos cósmicos - como estrelas e Sóis -, curvando-se de forma protectora, como se fosse o próprio céu, por cima de figuras colocadas no solo.
Num artigo publicado em Abril de 2024, Graur já tinha proposto, com base num estudo de textos antigos, que os egípcios poderiam encarar o plano da Via Láctea como uma manifestação - ou uma representação - de Nut.
Caixões funerários e a hipótese da Via Láctea
Para testar a hipótese no plano visual, Graur avançou para a análise das obras disponíveis. Como Nut aparece frequentemente na arte funerária - uma vez que uma das suas funções era proteger os mortos na passagem para a vida após a morte -, o investigador concentrou-se em representações pintadas em elementos de caixões com até cerca de 4 600 anos.
Na maioria dos casos, a deusa surge sem adornos especiais ou então coberta por estrelas. No entanto, o caixão de uma mulher que viveu durante a XXI Dinastia, entre 1077 e 943 a.C., apresentou um detalhe particularmente sugestivo. Chamava-se Nesitaudjatakhet, era cantora dedicada a Mut e a Amon-Rá, e a pintura de Nut no exterior do seu caixão exibia uma linha longa, espessa e ondulante ao longo do corpo da deusa, com estrelas pintadas de ambos os lados.
“Penso que a curva ondulante representa a Via Láctea e poderá ser uma representação da Grande Fenda - a faixa escura de poeira que corta a banda brilhante de luz difusa da Via Láctea. Comparar esta representação com uma fotografia da Via Láctea mostra a semelhança marcante”, afirma Graur.
A Grande Fenda e a raridade do motivo ondulante
Graur sublinha que esta não foi a única imagem de Nut em que encontrou esse traço, mas que se trata, ainda assim, de um elemento pouco comum. Ao todo, identificou apenas mais quatro casos em que o corpo de Nut era acompanhado ou assinalado por uma linha comprida e sinuosa - e nenhum desses exemplos estava num caixão.
Nos túmulos de Ramessés IV, VI e IX, Nut é representada duas vezes, associada ao dia e à noite, com uma linha ondulante a separar as duas figuras colocadas costas com costas.
Para Graur, o facto de este detalhe ser tão raro aponta para uma conclusão importante: Nut e a Via Láctea não devem ser entendidas como a mesma coisa.
“Não vi uma curva ondulante semelhante em nenhuma das outras representações cosmológicas de Nut e, na minha opinião, a raridade desta curva reforça a conclusão a que cheguei num estudo de textos antigos no ano passado: embora exista uma ligação entre Nut e a Via Láctea, as duas não são uma e a mesma coisa”, explica.
“Neste sentido, Nut não é uma representação da Via Láctea. Em vez disso, a Via Láctea, tal como o Sol e as estrelas, é mais um fenómeno celeste que pode decorar o corpo de Nut no seu papel de céu.”
O que isto revela - e o apelo à digitalização
A descoberta chama a atenção para o quanto ainda é desconhecido sobre a interacção complexa entre espiritualidade e ciência no Egipto antigo, bem como sobre a forma como as divindades eram retratadas e os motivos dessas escolhas. Também evidencia o valor da investigação interdisciplinar e as novas leituras que podem surgir quando se cruzam áreas distintas.
Por fim, Graur acrescenta que este trabalho sublinha a importância do acesso a recursos.
“Os catálogos reunidos aqui sublinham a importância de digitalizar integralmente os catálogos dos museus e de disponibilizar acesso gratuito aos mesmos através de sites orientados para o público”, escreve.
“Estou profundamente grato aos museus que já tornaram as suas colecções acessíveis desta forma e incentivo outros museus (bem como os governos e fundações privadas que os financiam) a criar colecções digitais semelhantes.”
A análise foi publicada na Revista de História Astronómica e Património.
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