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O asteróide que explodiu sobre Tall el-Hammam há 3 600 anos perto do Mar Morto, na Jordânia

Homem de capa observa explosão em vila desértica com edifícios tradicionais e cerâmica espalhada no chão.

Nota do editor (5 de maio de 2025): Este artigo baseou-se num estudo que, entretanto, foi retractado. Existe mais informação disponível aqui. Segue-se o texto original:

Há cerca de 300 anos, os habitantes de uma antiga cidade do Me9dio Oriente hoje conhecida como Tall el-Hammam cumpriam as suas rotinas sem suspeitar que, invisedvel a olho nu, uma rocha gelada vinda do espae7o se aproximava a cerca de 61000 km/h (38000 mph).

Ao atravessar a atmosfera num clare3o, esse corpo celeste detonou num enorme globo de fogo a aproximadamente 4 quilf3metros (2.5 milhas) de altitude. A energia libertada tere1 sido cerca de 1000 vezes superior e0 da bomba atf3mica de Hiroxima.

Quem, na cidade, olhou para o fenf3meno ficou cegado de imediato. Em poucos instantes, a temperatura do ar ultrapassou os 2000 b0C (3600 b0F). A roupa e a madeira incendiaram-se no mesmo momento. Espadas, lane7as, tijolos de adobe e cere2mica comee7aram a derreter. Quase sem intervalo, toda a cidade ardeu.

Segundos depois, uma onda de choque de grande escala embateu na zona urbana. Deslocando-se a cerca de 1200 km/h (740 mph), superava em fore7a o pior tornado alguma vez registado. Estes ventos letais atravessaram Tall el-Hammam, deitando abaixo todas as construe7f5es.

O impacto foi suficiente para arrancar os 12 metros (40 pe9s) superiores do pale1cio de quatro pisos e projectar os escombros amontoados para o vale seguinte. Nenhuma das 8000 pessoas, nem quaisquer animais que estavam dentro da cidade, sobreviveu e0 cate1strofe: os corpos tere3o sido despedae7ados e os ossos reduzidos a fragmentos pequenos.

Cerca de um minuto mais tarde, a 22 km (14 milhas) a oeste de Tall el-Hammam, os ventos gerados pela explose3o atingiram a cidade bedblica de Jericf3. As muralhas de Jericf3 ruedram e o fogo consumiu a cidade ate9 ao che3o.

A descrie7e3o parece o auge de um filme de desastre de Hollywood. Ente3o, como e9 que podemos sustentar que algo assim aconteceu, de facto, perto do Mar Morto, na actual Jorde2nia, he1 mile9nios?

(NASA/CC BY-ND)

Acima: Hoje chamada Tall el-Hammam, a cidade fica a cerca de 11 km (7 milhas) a nordeste do Mar Morto, no que e9 actualmente a Jorde2nia.

Chegar a respostas exigiu quase 15 anos de escavae7f5es meticulosas realizadas por centenas de pessoas. Foi igualmente necesse1rio submeter os materiais recolhidos a ane1lises detalhadas por mais de duas dezenas de cientistas em 10 estados dos EUA, ale9m de equipas no Canade1 e na Repfablica Checa.

Quando o nosso grupo publicou finalmente as evideancias, recentemente, na revista Relatf3rios Cientedficos, os 21 co-autores incluedam arquef3logos, gef3logos, geoquedmicos, geomorff3logos, mineralogistas, paleobote2nicos, sedimentf3logos, especialistas em impactos cf3smicos e me9dicos.

A seguir explicamos como reconstruedmos este cene1rio de devastae7e3o do passado.

Tempestade de fogo por toda a cidade

Je1 he1 alguns anos, ao observarem as escavae7f5es das ruednas, os arquef3logos identificaram uma faixa escura, caf3tica, com cerca de 1,5 m (5 pe9s) de espessura, composta por carve3o, cinzas, tijolos de adobe fundidos e cere2mica derretida.

Ficou claro que, em tempos, uma tempestade de fogo extremamente intensa destruedra a cidade. Essa faixa escura passou a ser conhecida como a camada de destruie7e3o.

(Phil Silvia, CC BY-ND)

Acima: Investigadores junto e0s ruednas, com a camada de destruie7e3o visedvel sensivelmente a meio de cada parede exposta.

Ne3o era possedvel, no entanto, apontar com segurane7a o que ocorrera: a camada ne3o se explicava por vulce3o, sismo ou guerra. Nenhum destes processos consegue fundir metal, tijolos de adobe e cere2mica.

Para perceber que fenf3meno poderia produzir tais efeitos, o nosso grupo recorreu a uma calculadora online de impactos para simular cene1rios compatedveis com as evideancias. Criada por especialistas em impactos, esta ferramenta permite estimar diversos pormenores de um evento de impacto cf3smico com base em impactos conhecidos e em detonae7f5es nucleares.

Os resultados apontam para um pequeno asterf3ide como causa prove1vel em Tall el-Hammam, semelhante ao que, em 1908, derrubou 80 milhf5es de e1rvores em Tunguska, na Rfassia. Seria, ainda assim, uma verse3o muito mais pequena do enorme rochedo, com ve1rias milhas de largura, que he1 65 milhf5es de anos levou e0 extine7e3o dos dinossauros.

Tednhamos um suspeito plausedvel. Faltava comprovar o que, exactamente, aconteceu naquele dia em Tall el-Hammam.

Encontrar 'diamantes' no solo

A nossa investigae7e3o revelou um conjunto de indedcios extraordinariamente amplo.

(Allen West, CC BY-ND)

Acima: Imagens de microscf3pio electrf3nico mostrando numerosas microfissuras em gre3os de quartzo chocado.

No local existem gre3os de areia finamente fraturados, chamados quartzo chocado, que apenas se formam sob 725000 libras por polegada quadrada de presse3o (5 gigapascais) a0a0imagine seis tanques militares Abrams de 68 toneladas empilhados sobre o seu polegar.

A camada de destruie7e3o inclui tambe9m diamonoides minfasculos que, como o nome sugere, se3o te3o duros como diamantes. Cada partedcula e9 menor do que um vedrus da gripe. Tudo indica que a madeira e as plantas da regie3o foram convertidas instantaneamente nesse material semelhante a diamante pelas pressf5es e temperaturas elevadas da bola de fogo.

(Malcolm LeCompte, CC BY-ND)

Acima: Diamonoides (ao centro) dentro de uma cavidade, formados pelas altas temperaturas e pressf5es da bola de fogo sobre plantas.

Ensaios com fornos laboratoriais mostraram que a cere2mica com bolhas e os tijolos de adobe de Tall el-Hammam se liquefizeram a temperaturas superiores a 1500 b0C (2700 b0F). c9 calor suficiente para derreter um automf3vel em poucos minutos.

(Malcolm LeCompte, CC BY-ND)

Acima: Esfe9rulas feitas de areia fundida (em cima e0 esquerda), estuque do pale1cio (em cima e0 direita) e metal derretido (duas em baixo).

A mesma camada conte9m ainda pequenas esferas de material fundido, menores do que partedculas de poeira em suspense3o. Conhecidas como esfe9rulas, se3o compostas por ferro vaporizado e areia que derreteram a cerca de 1590 b0C (2900 b0F).

Para ale9m disso, as superfedcies da cere2mica e do vidro fundido apresentam salpicos de diminutos gre3os mete1licos derretidos, incluindo ireddio com ponto de fuse3o de 2466 b0C (4435 b0F), platina que funde a 1768 b0C (3215 b0F) e silicato de zircf3nio a 1540 b0C (2800 b0F).

No conjunto, estes dados indicam que as temperaturas na cidade subiram acima do que se observa em vulcf5es, em conflitos armados e em inceandios urbanos comuns. Entre os processos naturais, resta apenas um impacto cf3smico.

Evideancias do mesmo tipo surgem em locais de impacto reconhecidos, como Tunguska e a cratera de Chicxulub, criada pelo asterf3ide que desencadeou a extine7e3o dos dinossauros.

Fica, contudo, uma queste3o: por que raze3o esta cidade e mais de 100 povoamentos da regie3o foram abandonados durante ve1rios se9culos depois da cate1strofe? Uma hipf3tese e9 que a deposie7e3o de elevados nedveis de sal durante o evento tenha tornado invie1vel o cultivo.

Ainda ne3o temos certezas, mas suspeitamos que a explose3o possa ter vaporizado ou projetado e1gua salgada do Mar Morto, em concentrae7f5es tf3xicas, por todo o vale. Sem colheitas, ningue9m conseguiria viver ali durante ate9 600 anos, ate9 que a reduzida precipitae7e3o deste clima quase dese9rtico lavasse o sal dos campos.

Tere1 havido uma testemunha sobrevivente da explose3o?

c9 possedvel que uma descrie7e3o oral da destruie7e3o da cidade tenha passado de gerae7e3o em gerae7e3o, acabando por ser registada na narrativa bedblica de Sodoma. A Bedblia descreve a devastae7e3o de um centro urbano perto do Mar Morto: pedras e fogo caedram do ce9u, mais do que uma cidade foi destruedda, fumo espesso elevou-se das chamas e os habitantes foram mortos.

Podere1 tratar-se de um relato de testemunha ocular antigo? Se for esse o caso, a destruie7e3o de Tall el-Hammam podere1 ser o segundo caso mais antigo de destruie7e3o de um povoamento humano por um evento de impacto cf3smico, a seguir e0 aldeia de Abu Hureyra, na Sedria, he1 cerca de 12800 anos. E, de forma relevante, podere1 ser o primeiro registo escrito de um acontecimento catastrf3fico deste tipo.

O mais inquietante e9 que quase de certeza ne3o sere1 a faltima vez que uma cidade humana enfrenta um destino semelhante.

Explosf5es atmosfe9ricas do tamanho de Tunguska, como a que ocorreu em Tall el-Hammam, conseguem arrasar cidades inteiras e regif5es, constituindo um perigo severo nos dias de hoje.

Em setembro de 2021, existiam mais de 26000 asterf3ides conhecidos prf3ximos da Terra e uma centena de cometas de curto peredodo tambe9m prf3ximos da Terra. Inevitavelmente, um deles acabare1 por colidir com o planeta. Milhf5es de outros permanecem por detectar, e alguns podem je1 estar a caminho da Terra.

A menos que telescf3pios em f3rbita ou em terra identifiquem estes objectos errantes, o mundo pode ne3o ter qualquer aviso a0a0tal como aconteceu com as pessoas de Tall el-Hammam.

Este artigo foi coassinado por colaboradores de investigae7e3o: o arquef3logo Phil Silvia, o geofedsico Allen West, o gef3logo Ted Bunch e o fedsico espacial Malcolm LeCompte.

Christopher R. Moore, arquef3logo e director de projectos especiais no Savannah River Archaeological Research Program e no South Carolina Institute for Archaeology and Anthropology, Universidade da Carolina do Sul.

Este artigo e9 republicado a partir de The Conversation ao abrigo de uma licene7a CC. Leia o artigo original.

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