As florestas de mangal tiveram um século XX difícil. Estes ecossistemas costeiros densos, cheios de raízes entrelaçadas, desenvolvem-se em águas pouco profundas e salobras, onde os rios encontram o mar, ao longo de costas tropicais e subtropicais.
Durante décadas, foram abatidas de forma implacável para dar lugar a viveiros de camarão, arrozais e urbanizações junto à praia. Entre a década de 1980 e 2010, desapareceram quase 2 2900 quilómetros quadrados.
Relatórios de conservação passaram a descrevê-las como um dos ecossistemas mais ameaçados do planeta. A tendência parecia inevitável. No entanto, investigação recente indica que afinal não é.
Uma equipa da Tulane University analisou quatro décadas de dados de satélite e encontrou um resultado surpreendente até para quem estuda mangais profissionalmente: à escala global, estas florestas já não estão, no conjunto, a encolher.
Ganhos após décadas de perdas
Há 16 anos que os ganhos superam as perdas.
Ao somar todo o registo das quatro décadas, a perda líquida fica em cerca de 1% 0- muito abaixo do que estimativas anteriores apontavam e bastante melhor do que o rumo que tudo indicava.
"Depois de d9cadas de perdas, estamos finalmente a assistir a um ponto de viragem global para os mangais", afirmou o autor principal, Zhen Zhang, investigador de p3s-doutoramento na Tulane.
"Isto evidencia a sua forte resiliancia e o seu potencial como uma poderosa solu73o baseada na natureza para a mitiga73o clim1tica e a prote73o costeira."
O que estas florestas fazem
Os mangais n3o captam tanto a imagina73o popular como os recifes de coral, mas desempenham fun75es cruciais.
Amortecem a linha de costa perante tempestades e eros3o e oferecem habitats de cria para peixes e marisco de que dependem milh5es de pessoas em regi5es tropicais.
Al9m disso, acumulam quantidades extraordin1rias de carbono 0- n3o apenas nas 1rvores, mas tamb9m nos solos profundos e encharcados, pobres em oxig e9nio, onde a mat e9ria org e2nica pode permanecer retida durante s e9culos sem se decompor.
9 este faltimo ponto que liga a hist f3ria ao clima.
Quando se desmata uma floresta de mangal, todo esse carbono armazenado passa rapidamente para a atmosfera. Quando o mangal recupera, o mecanismo inverte-se 0- devagar, de forma consistente, ano ap f3s ano.
Se os mangais est e3o a regressar em grande escala, isso n e3o e9 apenas uma vit f3ria ecol f3gica. c9 tamb e9m um contributo silencioso para o carbono que n e3o exige que os governos construam infraestruturas nem que as empresas comprem solu e75es.
A recupera e7 e3o do mangal est e1 a acontecer de forma natural
Em muitos locais, os mangais est e3o a voltar a ocupar as mesmas e1reas que foram desnudadas para a aquicultura de camar e3o h e1 d e9cadas.
Trata-se de tanques de aquicultura abandonados: zonas que foram limpas, exploradas durante alguns anos e depois deixadas para tr e1s quando a viabilidade econ f3mica deixou de compensar.
Os mangais est e3o tamb e9m a expandir-se para novas plan edcies lodosas costeiras, sobretudo em deltas de rios, onde os dep f3sitos de sedimentos criam um terreno favor e1vel ao enraizamento das pl e2ntulas.
Uma parte relevante desta recupera e7 e3o, por outras palavras, est e1 a ocorrer por si s f3. A regenera e7 e3o natural est e1 a fazer um trabalho que os programas de restauro nem sempre conseguem replicar e0 mesma escala.
Na Costa do Golfo dos EUA, o enredo e9 diferente. No Delta do rio Mississippi e por toda a Louisiana, os mangais n e3o est e3o a crescer sobretudo por recupera e7 e3o, mas por extens e3o da sua e1rea de distribui e7 e3o.
O aumento das temperaturas est e1 a permitir que esp e9cies antes confinadas a climas tropicais e subtropicais avancem para norte, ocupando latitudes onde o frio do inverno anteriormente as impedia de se estabelecer.
Mais saud e1veis, n e3o apenas maiores
Os mangais existentes n e3o est e3o apenas a resistir. Muitos est e3o a tornar-se mais densos e estruturalmente mais complexos.
As florestas de mangal de copado fechado 0- a forma plenamente desenvolvida, que ret e9m mais carbono e oferece a prote e7 e3o costeira mais forte 0- aumentaram globalmente ao longo das quatro d e9cadas cobertas pelo registo de sat e9lite. Desde a d e9cada de 1980, as taxas de degrada e7 e3o ca edram de forma significativa.
"O que estamos a ver agora e9 uma mudan e7a real", disse Daniel Friess, professor na Tulane e director do The Mangrove Lab.
"Os mangais apresentam agora um aumento l edquido a n edvel global, e o ritmo de degrada e7 e3o est e1 a abrandar. Embora alguns mangais continuem a perder-se, isto pode tornar-se num raro caso de sucesso em conserva e7 e3o e numa fonte importante de optimismo para a ac e7 e3o clim e1tica."
A recupera e7 e3o continua fr e1gil
O Texas demonstra isto de forma desconfortavelmente clara. Ali, os mangais vinham a expandir-se de forma constante, e0 medida que invernos mais amenos tornavam habit e1veis latitudes mais altas.
Depois, um fanico epis f3dio de frio extremo em fevereiro de 2021 provocou uma queda acentuada 0- anos de avan e7o lento para norte foram revertidos em dias por uma vaga de frio.
A mesma altera e7 e3o clim e1tica que permitia a expans e3o, num sentido, estava a infligir o golpe decisivo noutro.
As florestas de mangal recentemente estabelecidas precisam, al e9m disso, de tempo para se tornarem plenamente funcionais. Florestas jovens ainda n e3o criaram os solos profundos e ricos em carbono nem a complexidade estrutural dos sistemas maduros.
A tend eancia de e1rea est e1 a evoluir na direc e7 e3o certa, mas os benef edcios ecol f3gicos demoram mais a materializar-se. Um povoamento jovem de mangal ainda n e3o faz tudo o que um mangal maduro faz.
E, em algumas regi f5es, a desfloresta e7 e3o continua. Onde o solo costeiro tem valor para convers e3o agr edcola ou para constru e7 e3o, a press e3o n e3o desapareceu.
Manter o impulso
Segundo os investigadores, a medida mais simples para proteger os mangais e9 travar a desfloresta e7 e3o. N e3o e9 complexo, mas e9 mais dif edcil na pr e1tica do que parece.
"Quando os mangais s e3o removidos, grandes quantidades de carbono armazenado h e1 muito tempo s e3o libertadas para a atmosfera", disse Zhang.
"Mas quando a desfloresta e7 e3o p e1ra, os mangais podem continuar a acumular carbono naturalmente ao longo do tempo, pelo que existe um grande benef edcio clim e1tico tanto em evitar emiss f5es agora como em permitir o armazenamento futuro de carbono."
Tamb e9m os processos naturais que est e3o a impulsionar a expans e3o precisam de ser salvaguardados.
Uma fatia consider e1vel do novo crescimento est e1 a ocorrer em plan edcies lodosas costeiras alimentadas por sedimentos fluviais. Qualquer interven e7 e3o a montante que interrompa esse fluxo 0- seja por barragens, capta e7 e3o de e1gua ou altera e7 f5es no uso do solo 0- pode cortar o fornecimento de novo habitat.
Estes resultados n e3o devem ser lidos como um convite para abrandar, mas como prova de que as traject f3rias podem mudar e de que, quando a press e3o sobre um ecossistema diminui, a natureza por vezes faz mais trabalho de recupera e7 e3o do que se esperava.
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