Há pouco de sereno em Nova Deli. As faixas nas estradas parecem meros enfeites, a pressa sobrepõe-se ao sentido de circulação, e muitos veículos exibem mensagens a incentivar quem quer ultrapassar a buzinar. Pelo caminho, vacas pastam junto ao asfalto, o rosto do primeiro-ministro Narendra Modi multiplica-se em cartazes e a cor toma conta dos murais espalhados pela cidade. Em Lajpat Nagar, motas e tuk tuks seguem ao mesmo ritmo acelerado que no resto da capital.
Ao fim da tarde, começa a encher: clientes a chegar aos restaurantes, uma loja de conveniência e uma banca de pão à esquerda, e, mais adiante, à direita, as prateleiras de outro comércio a revelar frutos secos vindos do Médio Oriente. Segundo o jornal “The Hindu”, este bairro - que inicialmente acolheu refugiados do Paquistão - acabaria por receber também pessoas que fugiram do Afeganistão em 1979, após a invasão pela União Soviética. E a história de Lajpat Nagar continuou a ser moldada por novas vagas migratórias.
Md. Reza tinha cinco anos quando, em 2012, a família saiu do Afeganistão e se instalou na Índia. A Human Rights Watch estima que, só na primeira metade desse ano, 1145 civis tenham morrido devido aos conflitos no Afeganistão.
Reza diz que o pai trabalhava no Governo e que a família passou a ser alvo de ameaças dos talibãs. “Viemos para a Índia apenas para nos salvarmos. Agora estamos bem”, garante. Lembra que uma simples brincadeira do pai sobre a hipótese de voltar ao Afeganistão levou as irmãs - que estudaram na Índia - a desatar a chorar. Ele próprio terminou os estudos no país e, conta, é actualmente parceiro no restaurante Kabul Delhi.
No “mini-Afeganistão”
“Chamamos a este lugar, Lajpat Nagar, mini-Afeganistão. Havia tantas pessoas afegãs! Vinham para negócios, tratamentos [médicos]”, relata Reza ao Expresso, sugerindo que o número de afegãos na zona foi diminuindo com o tempo.
Segundo o jovem, muita gente deixou a Índia e seguiu para destinos como os Estados Unidos da América e a Austrália. Acrescenta que o regresso dos talibãs ao poder - um governo sem reconhecimento internacional - afectou a obtenção de vistos. Ainda assim, diz notar “algumas mudanças” desde o ano passado. Em outubro de 2025, a Índia reabriu a sua embaixada em Cabul.
Raghav Sharma, professor e director do Centro para os Estudos sobre o Afeganistão da O.P Jindal Global University, na Índia, explica ao Expresso que a Índia “foi relativamente demorada a procurar o diálogo com os talibãs afegãos”. Ainda assim, sustenta que, com a alteração da realidade no terreno depois de agosto de 2021 - quando os talibãs voltaram ao poder após a retirada das forças dos EUA -, a maioria dos países ficou sem alternativa ao diálogo com o regime extremista.
“Para qualquer diálogo significativo, seja para a prestação de ajuda humanitária ou para o apoio aos interesses de segurança nacional, não há substituto para um canal de comunicação e diálogo com as autoridades políticas de facto em Cabul”, escreve o académico.
Receios do vizinho Paquistão
O ministro dos Negócios Estrangeiros indiano, Subrahmanyam Jaishankar, recorda que, quando os talibãs regressaram ao poder, os diplomatas indianos foram retirados do edifício da embaixada por razões de segurança. “Não deviam estar em perigo. Da última vez que os talibãs estiveram no poder, apoiaram um incidente terrorista com o Paquistão em que desviaram um avião e o levaram para o Afeganistão”, respondeu num encontro com órgãos de comunicação, incluindo o Expresso, numa aparente referência ao desvio de um voo da Indian Airlines em dezembro de 1999.
“Estávamos muito preocupados por poder voltar a haver terrorismo do Afeganistão contra a Índia, com o apoio do Paquistão. Agora vimos que não é o caso e que os talibãs já não permitem que o Paquistão faça estas coisas”, afirmou Jaishankar.
O ministro sublinhou ainda a crise humanitária que se seguiu à retirada das forças americanas do país vizinho, os projectos já em curso e a intenção de apoiar a população afegã.
“Demos uma grande quantidade de trigo através do Programa Alimentar Mundial. Durante a pandemia, o único país que forneceu vacinas aos afegãos foi a Índia. Tinham uma grande infestação de gafanhotos, por isso fornecemos-lhes pesticidas. Sentimos que temos muitos projetos, o povo afegão gosta da Índia, vamos enviar os diplomatas de volta”, comentou o governante.
Jaishankar faz, porém, uma distinção entre manter uma embaixada e reconhecer um Governo: “Não temos embaixador lá”, afirma. A representação é assegurada por um chefe de embaixada interino. E o país tem mais de 500 projetos em sectores como energia, fornecimento de água e conectividade.
Confrontado com a possibilidade de a Índia vir a reconhecer o regime talibã, Jaishankar não exclui esse cenário. “Se sentirmos que os talibãs vão ser responsáveis e governar o Afeganistão de forma a que o seu impacto na região não seja negativo, analisaremos o que poderá acontecer no futuro”, disse. A comunidade internacional tem resistido a reconhecer o governo dos radicais islâmicos, que impõe restrições severas aos direitos das mulheres.
Em resposta escrita ao Expresso, Sharma considera que “tem havido uma lenta recalibração da posição da Índia em relação à interação com os talibãs”, com contactos sobre comércio e entrega de ajuda humanitária, além de “ocasiões em que Nova Deli e Cabul procuraram convergir em relação às ações do Paquistão no palco afegão”.
O académico nota que a Índia tem adiado a emissão de vistos a afegãos, embora refira que “tem havido movimentações em questões relacionadas com o comércio e ajuda [humanitária]”. O reforço do envolvimento diplomático, acrescenta, “permitiu a Cabul sinalizar vontade de contrabalançar a influência do Paquistão”. Classifica como “mínimo” o contacto político e entende que um reconhecimento formal é pouco provável num futuro próximo.
Redução do isolamento afegão
A Índia não é o único país a manter contactos com as autoridades afegãs, embora a forma e o alcance dessas relações variem. No final de maio, a Rússia e os talibãs assinaram um acordo de cooperação técnico-militar centrado na reparação de armamento russo já existente no arsenal afegão, escreveu a emissora alemã Deutsche Welle.
Apesar de o alto comissário da ONU para os Direitos Humanos afirmar que se vive no Afeganistão um “apartheid de género”, na semana passada uma delegação do regime dos talibã (a quem a Bélgica concedeu vistos) reuniu-se com responsáveis da Comissão Europeia e de 15 Estados-membros da União Europeia para discutir a deportação, por parte desta, de afegãos sem estatuto de refugiado.
Sharma relata que, nos últimos cinco anos, a Índia tem observado “países de todo o espectro geopolítico abandonarem as questões dos direitos humanos em prol de um envolvimento transacional com os talibãs, com vista a garantir interesses que vão da segurança e promoção de interesses geopolíticos ao repatriamento de refugiados”.
Considera que esta tendência tenderá a firmar-se “à medida que a memória pública do Afeganistão se dissipa e a ideia de uma ordem baseada em regras está em processo de degradação”.
O Expresso viajou a convite do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Índia.
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