O ADN antigo está a alterar profundamente aquilo que os cientistas pensavam saber sobre os leões-das-cavernas. Em vez de serem apenas versões sobredimensionadas dos leões modernos, ajustadas a viver na Era do Gelo, estes predadores extintos parecem ter seguido uma trajectória evolutiva própria durante mais de um milhão de anos.
A partir de genomas recuperados de restos de leão-das-cavernas por toda a Eurásia e a América do Norte, os investigadores concluíram que os leões-das-cavernas formavam uma linhagem muito distinta, separada dos leões modernos há muito tempo.
Ainda assim, alterações de habitat impulsionadas pelo clima aproximaram ocasionalmente os dois grupos, deixando indícios de cruzamentos no seu registo genético.
No conjunto, os resultados desenham uma história bem mais intrincada para um dos predadores mais emblemáticos da Era do Gelo.
O ADN antigo desvenda a história dos leões
O trabalho foi conduzido por cientistas da Suécia e do Reino Unido no Centro de Palaeogenética, uma iniciativa conjunta da Universidade de Estocolmo e do Museu Sueco de História Natural.
Para reconstruir este quadro, a equipa analisou 12 genomas de leão-das-cavernas provenientes de várias regiões da Eurásia e do extremo norte da América do Norte, abrangendo mais de 100.000 anos.
Esses dados foram comparados com 20 genomas de leões actuais de África e do sul da Ásia.
Parte do ADN antigo foi extraída de ossos e dentes. No entanto, houve também material proveniente de tecido mole excepcionalmente preservado, incluindo dois filhotes de leão-das-cavernas do norte da Sibéria.
Muito mais do que um leão da Era do Gelo
"Os leões-das-cavernas têm sido frequentemente retratados como apenas uma versão maior e mais robusta dos leões modernos", afirmou o autor principal, David Stanton, antigo investigador de pós-doutoramento em Estocolmo e actualmente docente na Universidade de Cardiff.
"Mas o que vemos nos seus genomas é algo muito mais notável - uma linhagem que tem evoluído de forma independente há mais de um milhão de anos, acumulando as suas próprias características biológicas únicas."
Estudos anteriores sugeriam que a separação entre leões-das-cavernas e leões modernos teria ocorrido há menos tempo. Esta nova análise, porém, indica uma divergência muito mais antiga, possivelmente superior a 1,5 milhões de anos.
Do ponto de vista genético, os dois grupos eram inequivocamente distintos e seguiram caminhos separados durante um período extremamente prolongado.
Isto é relevante porque muda a forma como encaramos o próprio animal.
O leão-das-cavernas não era apenas um leão reconhecível deslocado para um mundo mais frio. Era um ramo próprio dentro da família dos felinos, com uma história longa e independente.
Um grande felino diferente
Os investigadores encontraram também sinais de que esta separação prolongada terá alterado o leão-das-cavernas em aspectos biológicos importantes.
Foram identificadas mutações exclusivas dos leões-das-cavernas, que provavelmente influenciavam o funcionamento de determinadas proteínas.
Além disso, surgiu uma concentração invulgar de alterações em genes associados ao funcionamento do cérebro, à visão, ao crescimento e ao desenvolvimento do sistema circulatório.
Este padrão está em linha com aquilo que os fósseis e a arte rupestre têm vindo a sugerir há anos.
É provável que os leões-das-cavernas não se distinguissem apenas pelo tamanho. Podem também ter diferido no comportamento, na fisiologia e na forma como estavam adaptados ao seu ambiente.
Assim, a narrativa não é apenas a de que eram mais antigos e mais separados do que se pensava. É também a de que essa autonomia evolutiva parece ter produzido um animal verdadeiramente diferente.
O clima voltou a juntar leões
Apesar de terem evoluído separados durante tanto tempo, leões-das-cavernas e leões modernos não permaneceram totalmente isolados entre si.
A equipa encontrou evidências de vários episódios de cruzamento entre as duas linhagens ao longo de dezenas de milhares de anos. A contribuição genética de leões modernos para leões-das-cavernas não foi enorme, mas foi suficientemente clara para mostrar que não se tratou de um evento único.
O que torna isto particularmente interessante é o momento em que aconteceu. Os investigadores verificaram que os genomas de leões-das-cavernas continham mais ascendência de leão moderno durante períodos mais frios, quando as camadas de gelo atingiam a sua maior extensão.
Nessas fases frias, as populações de leão-das-cavernas terão provavelmente expandido a sua distribuição mais para sul, aproximando-se de leões modernos em regiões como a Ásia Central e o Sudoeste Asiático.
"Os nossos resultados sugerem que as alterações climáticas do passado fizeram mais do que remodelar habitats. Trouxeram activamente espécies para junto umas das outras, criando breves oportunidades de cruzamento que, de outra forma, não teriam existido", disse o autor sénior Love Dalén, professor e investigador no Centro de Palaeogenética, em Estocolmo.
Desta forma, o clima não influencia apenas onde os animais vivem. Pode também reorganizar fronteiras biológicas, criando zonas de contacto entre linhagens que, de outro modo, permaneceriam separadas.
Mantém-se um vínculo extinto
O estudo aponta para uma população hoje extinta de leões modernos no Sudoeste Asiático como a fonte mais provável deste fluxo genético.
Esses leões poderão ter funcionado como uma espécie de ponte entre as duas linhagens durante períodos mais frios, quando a deslocação de habitats os colocava nas mesmas regiões.
Isto significa que o mundo dos leões no passado terá sido, muito provavelmente, mais complexo do que aquele que observamos actualmente.
Havia populações e relações que já não existem, mas que tiveram um papel importante na forma como a história genética destes animais foi moldada.
É também um lembrete de que a extinção apaga mais do que espécies. Apaga igualmente ligações.
Leões-das-cavernas com ampla distribuição
Os investigadores verificaram ainda que os próprios leões-das-cavernas não eram uma realidade estática.
Ao longo da Eurásia, as populações de leão-das-cavernas exibiam uma conectividade genética extensa, com ascendência a espalhar-se por grandes distâncias em períodos de tempo relativamente curtos.
Isto sugere que eram altamente móveis e que estavam muito mais interligados na paisagem do que se poderia supor apenas a partir de achados fósseis dispersos.
Por isso, em vez de imaginar leões-das-cavernas como grupos isolados a sobreviver em cantos separados da Eurásia da Era do Gelo, poderá ser mais correcto pensar numa população dinâmica, de grande alcance, a deslocar-se por espaços enormes.
Durante esses movimentos, entravam por vezes em contacto com leões modernos quando as condições climáticas o permitiam.
Isso faz com que pareçam menos um vestígio congelado e mais uma linhagem viva e em mudança, com uma história interna própria.
Reescrever a história dos leões-das-cavernas
O que este estudo faz, no essencial, é retirar os leões-das-cavernas da sombra dos leões modernos.
Durante anos, foram muitas vezes tratados como uma nota de rodapé - uma versão dramática, da Era do Gelo, de um animal que já conhecemos. Mas os genomas revelam uma narrativa muito mais rica.
Estes felinos eram uma linhagem separada, com mais de um milhão de anos de evolução independente, com a sua própria biologia, os seus próprios movimentos e a sua própria história de contacto com leões aparentados.
Quando um animal se extingue, torna-se fácil reduzi-lo a uma imagem simples: um grande felino numa parede de caverna, um crânio numa gaveta de museu, um primo maior de algo que ainda vive.
Mas, por vezes, o ADN devolve profundidade a esse animal. Mostra que aquilo que parecia familiar era, na verdade, algo muito mais estranho e distinto do que imaginávamos.
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