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NEET na Índia: protestos em Nova Deli contra Dharmendra Pradhan e o Cockroach Janta Party

Jovens sentados no chão, um deles com a mão levantada, segurando papéis e protestando em espaço público.

Exame NEET repetido após suspeitas de fuga de perguntas

No passado dia 3 de maio, mais de dois milhões de estudantes indianos sentaram-se para realizar o exame nacional de acesso a Medicina, conhecido pela sigla NEET, depois de meses de preparação, na esperança de conquistarem uma das menos de 130 mil vagas disponíveis nas faculdades de Medicina.

A prova acabou por ser anulada na sequência de alegações de que as perguntas teriam circulado antes do tempo, o que obrigou os alunos a voltarem a ser avaliados num novo teste. Entre protestos de rua por todo o país, registou-se ainda um desfecho trágico: mais de uma dezena de estudantes suicidaram-se.

Entretanto, numa mensagem pública de felicitações ao ministro da Educação - que fez anos na sexta-feira - o primeiro-ministro, Narendra Modi, escreveu na rede social X que este “está a fazer esforços louváveis para aplicar a Política Nacional de Educação, que procura tornar a Índia um polo de conhecimento, aprendizagem e inovação”. Ainda assim, Dharmendra Pradhan não reúne consenso e enfrenta contestação crescente.

O caso continua a arrastar gente para a rua, com manifestações impulsionadas por um movimento político satírico ligado à juventude, o Cockroach Janta Party (Partido Popular da Barata). O grupo disparou nas redes sociais em maio, depois de o presidente do Supremo Tribunal da Índia, Surya Kant, ter comparado os jovens desempregados a baratas - comentários que mais tarde procurou clarificar, dizendo que não se referia à juventude indiana, segundo a Al Jazeera.

Jantar Mantar, em Nova Deli: palco e ambiente do protesto

Protesto sob sol ardente

Com temperaturas próximas dos 40 ºC, o calor de junho tem sido uma constante para quem se junta ao protesto; é a chegada da noite que traz algum alívio. A concentração já dura há mais de cinco dias e alguns manifestantes permanecem no local de forma contínua.

“\“O que estamos a exigir é não só a demissão do ministro, mas também que o Governo pague 10 milhões de rupias indianas [cerca de 93 mil euros] como indemnização às famílias cujos filhos se suicidaram por causa da fuga de documentos\””, afirma Abhijeet Dipke, fundador do movimento.

Dipke e outros apoiantes concentram-se em Jantar Mantar, uma zona próxima do Parlamento, em Nova Deli. De acordo com o Hindustan Times, o local foi oficializado como espaço de protestos em 1993, por garantir visibilidade e, ao mesmo tempo, permitir a montagem de barricadas por parte da polícia. O dispositivo de segurança é notório, mas não houve registo de incidentes.

Junto à entrada, encontra-se uma carrinha de controlo de motins. A polícia solicita a verificação das mochilas num scanner de bagagens instalado numa carrinha. Todos os que entram na área do protesto passam por um detetor de metais e por uma revista individual.

A presença policial, intensa, tende a gerar mais nervosismo na zona de acesso do que no interior do recinto. Lá dentro, veem-se grupos de agentes, com diferentes uniformes, sentados em cadeiras de plástico distribuídas pelo espaço - uns a olhar para o telemóvel ou a conversar, outros mais atentos ao que se passa -, enquanto jovens e crianças fazem cartazes, petiscam para enganar a fome e acompanham a mobilização. Alguns encostam-se às barreiras junto ao palco, onde mais tarde se sucedem intervenções políticas.

O ambiente é descontraído: ouve-se música, há passos de dança, a bandeira nacional agita-se sobre a multidão e veem-se garrafas de água empilhadas. Ainda assim, é referido o caso de um jovem que escolheu formas mais extremas de pressão, com greve de fome e voto de silêncio.

Falta de fé

O ministro da Educação respondeu recentemente às manifestações em declarações à NDTV, chamando aos estudantes que exigem a sua demissão “equipa B de terroristas”, segundo noticiou o The Independent. “Erguem slogans pelos que querem dividir o país”, acusou Dharmendra Pradhan, acrescentando que “algumas pessoas não têm fé no progresso do país”.

Shikha, jovem trabalhadora independente, relata ao Expresso que esta é a sua primeira participação em protestos. Fala do contorno polémico do exame, dos suicídios e do bloqueio da rede social Telegram, e rejeita a leitura do ministro segundo a qual quem se manifesta está a dividir o país.

“\“As pessoas estão a erguer a voz por uma causa comum: a demissão de Dharmendra Pradhan, o nosso ministro da Educação\””, diz. Embora apresente essa exigência como central, aponta também críticas mais amplas: “\“Há muitas mudanças que este Governo precisa de fazer. Não é apenas na Educação, em todos os departamentos há muita corrupção. A polícia trabalha sob as instruções dos políticos\””, acusa, sem indicar exemplos concretos.

Entre os manifestantes em Jantar Mantar, repete-se a ideia de que não é a primeira vez que um exame é comprometido sem que a responsabilidade política tenha consequências visíveis. O The Indian Express refere que, entre os 45 principais casos de fugas de informação em exames que analisou entre 2002 e 2025, poucos funcionários em cargos centrais foram afastados ou sancionados; e apenas um caso terminou com condenações em tribunal, ligado a irregularidades num teste para cargos ferroviários de 2010.

Telegram bloqueado antes do novo exame

Apesar de o problema não ser inédito, uma parte da resposta do Estado foi fora do comum: dias antes da repetição do exame, a Índia bloqueou temporariamente a aplicação Telegram. A medida foi louvada pela agência nacional responsável pelos exames, que a apresentou como resposta ao “uso organizado da plataforma por golpes de fraude para lesar candidatos”.

Já defensores da liberdade de expressão manifestaram-se preocupados com o precedente e com a hipótese de o Executivo passar a restringir aplicações de mensagens sempre que o entenda. Ainda assim, o bloqueio avançou, com as autoridades judiciais a considerarem a medida legal e razoável, noticiou a Reuters. Após a realização do novo exame, o Telegram voltou a funcionar.

Dipke admite que, caso as duas exigências do movimento sejam atendidas, o protesto poderá terminar; mas sublinha que “este é apenas o início do Cockroach Janta Party”, prometendo levar o movimento a “outras questões em todo o Estado”.

“\“A maior crise na Índia para o povo é que o Governo já não ouve as pessoas. E é isso que queremos trazer de volta. Queremos trazer de volta a responsabilidade, e como o fazemos? Ouvindo o povo e dando-lhe voz\””, afirma.

O Expresso viajou a convite do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Índia.

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