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Nova análise de um fóssil de 100 milhões de anos na Austrália sugere que as equidnas evoluíram de ancestrais nadadores

Cientista com luvas analisa osso enquanto compara com imagem radiográfica de peixe no computador num laboratório.

Uma nova reavaliação de um fóssil com 100 milhões de anos, preservado numa enseada rochosa na Austrália, está a dar força à hipótese de que as equidnas poderão ter descendido de antepassados que nadavam.

A ideia é particularmente invulgar: há inúmeros casos de mamíferos terrestres que, ao longo do tempo, se adaptaram a uma vida mais aquática. Aqui, porém, tudo indica que, algures na história evolutiva, as equidnas terão feito o caminho inverso.

Um fóssil discutido desde os anos 90

Desde que o achado foi identificado no início da década de 1990, os paleontólogos têm discordado sobre que animal terá deixado o osso fossilizado do braço. Ainda assim, há um ponto comum: o fóssil pertence à ordem dos monotremas - mamíferos que põem ovos, em vez de darem à luz crias vivas.

A partir do aspecto externo do osso, alguns investigadores defenderam que se trataria de um antepassado terrestre das equidnas actuais. Outros consideraram mais provável que fosse um monotremo nadador, mais antigo do que os dois parentes vivos mais conhecidos, as equidnas e o ornitorrinco.

Uma análise recente do pequeno osso do úmero, atribuído à espécie pré-histórica Kryoryctes cadburyi, veio reforçar o cenário de uma origem aquática.

O que o micro-CT revelou no úmero de Kryoryctes cadburyi

"Embora a estrutura externa de um osso permita compará-lo directamente com animais semelhantes para ajudar a perceber as relações do animal, a estrutura interna tende a revelar pistas sobre o seu estilo de vida e ecologia", afirma a paleontóloga Suzanne Hand, da Universidade de Nova Gales do Sul, que liderou o estudo.

"A estrutura interna não lhe dá necessariamente informação sobre o que esse animal é, mas pode dizer-lhe qual era o seu ambiente e como vivia."

Ao observar o interior do fóssil com exames micro-CT, Hand e a sua equipa verificaram que o osso tem uma parede espessa e pesada, bem como uma cavidade medular muito pequena (o espaço oco dentro dos ossos onde se formam glóbulos vermelhos e brancos).

Uma arquitectura óssea deste tipo é típica de mamíferos semi-aquáticos ou totalmente aquáticos, como as lontras-marinhas, os dugongos e o ornitorrinco. À semelhança do cinto de pesos usado por mergulhadores para se manterem submersos, estas características diminuem a flutuabilidade do animal, permitindo-lhe ficar debaixo de água com pouco esforço.

"A microestrutura do úmero fóssil de Kryoryctes é mais semelhante à estrutura interna dos ossos observada nos ornitorrincos, em que os ossos pesados funcionam como lastro, permitindo-lhes mergulhar facilmente para procurar alimento", diz Hand.

Em terra, ossos tão densos e pesados tornam-se um problema - não só porque exigem mais energia para serem transportados, mas também porque tendem a fracturar-se com maior facilidade. É precisamente por isso que estas características não são observadas nas equidnas, que apresentam paredes ósseas muito finas.

O que isto implica para a evolução das equidnas

A equipa realizou ainda uma análise filogenética para encaixar K. cadburyi nas árvores genealógicas dos mamíferos e, em particular, dos monotremas. O resultado indica que a espécie é, de facto, um monotremo basal, partilhando um antepassado comum com o ornitorrinco e com as equidnas.

Do ponto de vista da evolução das equidnas, a conclusão é desconcertante. A interpretação sugere que o antepassado seria um monotremo que nadava e escavava, e que mais tarde terá abandonado a água para adoptar uma vida muito diferente em terra. E existem outros indícios que podem encaixar nesta possibilidade.

"É bem conhecido que o bico do ornitorrinco tem muitos receptores altamente sensíveis que detectam pequenas correntes eléctricas geradas pelas presas", assinala Hand.

"E embora o bico das equidnas tenha menos receptores, há quem sugira que estes receptores sejam um vestígio da sua herança de ornitorrinco, tal como restos do bico do ornitorrinco que podem ser encontrados no bico de embriões de equidna."

As equidnas também apresentam os pés traseiros virados para trás, o que as ajuda a escavar - de forma semelhante ao modo como o ornitorrinco usa os seus pés virados para trás como lemes, para se impulsionar na água. Talvez por isso existam registos de equidnas a “saltarem” entre ilhas. Esta orientação dos pés não é observada em mais nenhum mamífero.

Assim, é possível que as equidnas não tenham sido simplesmente deixadas em terra por um ornitorrinco aventureiro e habituado à água. Talvez tenham sido as próprias equidnas - ou os seus antepassados - a decidir avançar para o desconhecido.

"Estamos a falar de um mamífero semi-aquático que desistiu da água para passar a viver em terra e, embora isso fosse um acontecimento extremamente raro, achamos que foi isso que aconteceu com as equidnas", afirma Hand.

Esta investigação foi publicada na PNAS.

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