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Olga Tokarczuk no Babell, no Porto: literatura “perigosa para jovens mulheres”

Mulher com cabelo encaracolado fala em púlpito de madeira para audiência atenta sentada em salão com janelas grandes.

A escritora polaca Olga Tokarczuk, distinguida com o Nobel da Literatura de 2018, marcou presença este fim de semana no festival literário Babell, no Porto.

Olga Tokarczuk no Babell, no Porto

A autora participou numa sessão literária na Praça Gomes Teixeira, integrada no Babell, com leituras de Ana Celeste Ferreira e moderação de Marta Bernardes.

Com 64 anos, Tokarczuk é conhecida por obras como «Viagens», «Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos», «Histórias Bizarras» e «Empúsio», entre outras, publicadas em Portugal pela Cavalo de Ferro.

“Empúsio” e a “vingança” contra o cânone ocidental

Foi a propósito de «Empúsio» que a escritora reflectiu sobre o lugar das mulheres na tradição literária do Ocidente. Tokarczuk afirmou que a literatura é "perigosa para jovens mulheres", e explicou que decidiu escrever "Empúsio" como uma "vingança" contra um cânone marcado por narrativas e universos predominantemente masculinos. "A literatura, para mulheres jovens, é muito perigosa. Para entrar no mundo clássico da literatura, para participar como leitora, de alguma forma temos de deixar a nossa feminilidade, e isso é uma coisa difícil de maturar como mulher, porque a cultura clássica, de alguma forma, está contra a minha feminilidade. O 'Empúsio' é, de alguma forma, uma vingança contra a literatura clássica, e peço desculpa ao Thomas Mann, que eu adoro e com quem cresci, mas não se pode escrever um livro tão grande, com dois volumes, sem mulheres", afirmou.

Publicado na Polónia em 2022, este romance surge no rasto de «A Montanha Mágica» (1924), de Thomas Mann (1875-1955), autor que, segundo Tokarczuk, a influenciou desde muito cedo.

Na leitura que faz do clássico, a escritora polaca considera que Mann ergue, "de forma consciente ou não, essa construção tão grande sobre um corpo morto de uma mulher americana e daí começa todo o livro".

Em «Empúsio», a partir de um sanatório na Silésia, em 1913, um conjunto de homens conversa e dá forma a uma dinâmica que permite "fazer uma espécie de paródia, de paráfrase, da 'Montanha Mágica', dando voz às mulheres".

Tokarczuk enquadrou ainda a obra numa tradição de diálogo entre autores e personagens literárias: "Ouso, neste livro, sentar-me à mesa com Thomas Mann, nos anos 1920, e a dizer algo da minha parte, acenar. Quando disse que a literatura é um reservatório grande de conteúdos do consciente e do inconsciente, é porque isso é possível em literatura. Estamos sempre em diálogo. Nem Mann nem Cervantes morreram, como Hans Castorp [personagem de 'A Montanha Mágica'] é mais real do que algumas pessoas, como Dom Quixote é mais real" do que pessoas reais, acrescenta.

Legendagem em tempo real e apoio de IA

A conversa decorreu em polaco e contou com legendagem (e interpretação) em tempo real, combinando o trabalho de profissionais com recurso a inteligência artificial. Durante a sessão, registou-se uma interrupção causada por uma falha na tradução simultânea, apontada pelo público, já depois de Tokarczuk ter questionado "como está a tradução", a partir do palco, lembrando uma "experiência muito difícil" noutro festival em que se recorreu a IA na tradução.

Da psicoterapia à escrita: investigação, instinto e leitores

Antes de se dedicar por inteiro à literatura, Tokarczuk trabalhou como psicoterapeuta. Na plateia esteve a canadiana Margaret Atwood - protagonista de uma sessão anterior -, num público superior a mil pessoas, que pôde optar entre tradução polaco-português e português-polaco.

A autora reconheceu que escrever foi sempre "uma obsessão". Filha de um bibliotecário, cresceu rodeada de livros e a ler praticamente desde que aprendeu, percorrendo tudo o que "apanhava" nas estantes. Disse também que a dedicação à escrita implicou renúncias, como abdicar de "viajar como os amigos" para se concentrar numa arte que descreve como "muito instintiva, sem escolas que ensinem este artesanato que é a escrita".

Tokarczuk valorizou igualmente a investigação como parte do seu método, numa combinação entre experiência, procura de conhecimento e criatividade, e defendeu o livro como algo "mais consciente do que o próprio autor, indo além dele para se encontrar nele com o leitor". "Gosto muito quando o leitor sabe mais sobre o que eu escrevi do que eu", confessa.

Babell: programa e financiamento

O festival literário Babell começou na quarta-feira e prolonga-se até segunda-feira. Do programa constam sessões literárias, concertos, cinema e outras apresentações, com nomes como László Krasznahorkai, Salman Rushdie e Dwayne Betts. No total, o evento custou mais de 3 milhões de euros à fundação da Livraria Lello, sem contar com o apoio da Câmara do Porto, que coorganiza o festival.

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